Paulo Autran

O Teatro no Colégio Magno - Entrevista

Paulo Autran subiu ao palco para viver seu primeiro personagem em 13 de dezembro de 1940, interpretando Zeus, na peça  “Um  deus dormiu lá em casa”, de Guilherme Figueiredo, e Paulo Autran contracenava com uma outra desconhecida estreante, Tônia Carrero.
Hoje, aos 77 anos, Paulo tem seu lugar garantido no Olimpo do teatro brasileiro, com mais de cem montagens no seu currículo e dezenas de filmes e novelas.

Ele gentilmente recebeu o Grupo Magno de Teatro nos camarins de sua montagem “Quadrante”. Nesta entrevista exclusiva, ele mostra porque  é “Sir” Paulo Autran  e presenteia toda a comunidade Magno, com seus   pensamentos, sentimentos e reflexões sobre sua vida e sua ligação visceral com o palco e com as artes.
 

Grupo Magno de Teatro 

Paulo, onde você nasceu ?

Paulo
Autran

Eu sou carioca de nascimento e paulista por adoção (risos).
GMT

Qual foi a melhor companhia de teatro que você  participou ?  

Autran Diversas: muitos amigos, grandes atores e diretores, mas a que mais me marcou foi TBC (Teatro Brasileiro de Comédia), do qual participei até 1956.
GMT Em 50 anos de carreira qual foi o momento mais constrangedor  que você viveu em cena ?
Autran

Foi na minha estréia, em Santos, na peça “Um deus dormiu lá em casa”. Já tínhamos feito a peça em São Paulo e no Rio de Janeiro. No dia da estréia em Santos, eu fui para a praia com a Tônia e ela disse: “Vamos fazer um ensaio ? ”.  E eu: “Meu Deus, não precisa! A gente já fez esta peça tantas vezes !” Mas aí quando eu entrei em cena, esqueci o texto,  e a Tônia me soprou, três frases. Depois eu tornei a esquecer,  e ela tornou a soprar o texto para mim. Na terceira vez , eu esqueci e ela olhou bem cínica para mim e disse: “O quê ?  Eu ir para lá ? Vou !     Saiu de cena e me deixou sozinho. Foi um momento terrível ! (risos)

GMT

Todos estes jovens atores em processo de formação, não tiveram a oportunidade de ver o trabalho do TBC, Oficina e Arena... Como você vê o movimento teatral daquela época ?  

Autran

Sérgio, eu acho que a maior revolução no teatro brasileiro foi o TBC. Porque o TBC deu um salto qualitativo que nenhum dos outros grupos deu. Se não tivesse aparecido o TBC, provavelmente  não teria existido um grupo interessado em fazer o Teatro de Arena; não teria aparecido o  Zé Celso ( Martinez Corrêa ); não teriam surgido  bons críticos como o Décio de Almeida Prado e Sábato Magaldi.
O Arena foi criado a imagem e semelhança do TBC, tanto é que a primeira peça que eles levaram foi francesa; depois uma inglesa. O Arena começou como uma tentativa de conservar a mesma orientação do TBC. O Augusto Boal (diretor do Arena) foi quem trouxe dos EUA outras idéias e principalmente quem introduziu no teatro brasileiro a idéia de retratar a realidade brasileira. Isto foi fundamental no Arena.  

GMT Paulo, o TBC não tinha essa preocupação?
Autran Sérgio, é muito engraçado! Uma das críticas feitas  ao TBC, foi a ausência de autores brasileiros. Afinal eram poucos e nenhum conseguiu fascinar um diretor para a montagem das peças.
GMT Quer dizer que o TBC, tinha falta de bons textos e bons autores para tratar a realidade brasileira ? 
Autran

Os textos que chegavam às mãos do diretores Adolfo Celi, Ziembinski, Rugero Jacobi, Luciano Salce e  Flaminio Bollini não os apaixonavam.  
Assim mesmo, o TBC apresentou Edgar Miranda, Gonçalves Dias, Millôr  Fernandes e  Abílio Almeida entre outros autores.  A crítica caiu em cima de Abílio Almeida, ela foi extremamente cruel  e responsável pelo seu suicídio (emociona-se e disfarça suas lágrimas).
Ele era um grande autor e um grande amigo. É difícil relembrarmos uma grande perda; é duro!  

GMT :  E o cinema, qual foi o filme que você mais gostou de fazer?
Autran Um marco do cinema nacional foi “Terra em Transe” ,do diretor Glauber Rocha. Ele era sensacional. Colocava a câmera em lugares inesperados, também tinha coisas de grande gênio. E cada vez que revejo o filme gosto mais, os alunos de Teatro do Magno, já assistiram.
GMT Não só Terra em Transe, mas também “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, que aliás é genial.
Autran Pelo que eu vejo no alunos do Grupo de Teatro do Magno o curso ministrado por vocês dá uma formação cultural completa e este material do grupo (vê pasta /release do GMT) mostra a excelência desta escola  em direcionar jovens e adultos para um teatro estritamente profissional. Há quanto tempo existe o grupo ?
GMT Cinco anos e estas são as montagens realizadas.
Autran Que ótimo, excelente! Shakespeare, Plínio Marcos, Suassuna, Dias Gomes, Assis, Nelson Rodrigues, Williams... Sensacional!  Só escolas profissionalizantes tratam teatro desta forma. E os alunos miúdos, eles não montam peças?
GMT

Quando nós éramos os responsáveis pela Educação Infantil, jamais fizemos “teatrinho de escola”. Usávamos a metodologia de Peter Slade, que como você bem sabe, dá as ferramentas necessárias: corporais, vocais e sentimentais, além de despertar a criatividade na criança,  sem “forçar” nada - conquistando a sua confiança para que no devido momento ela se coloque em cena - respeitando-a  para que ela não crie bloqueios, os quais são criados quando são “queimadas” as etapas de formação cênica.

Autran

Excelente, graças a Deus! É  triste ver criancinhas miúdas sendo tratadas por  profissionais inescrupulosos  que fazem sempre aquelas mesmas coisas idiotas e “bonitinhas e engraçadinhas”... é patético...  “A Bruxa Malvada” ou  “O coelho doente” (risos) Aquele mesmo tolo repertório hediondo (risos)  
Mas acabou esse trabalho do Peter Slade com este grupo miúdo? Não era interessante o Colégio ter esse trabalho de arte pedagógica com os miúdos? 

GMT Pelo contrário, a Escola Mágico de OZ priva pela alta qualidade e é pioneira neste trabalho de artes cênicas com Peter Slade, nós o desenvolvemos, deixamos uma base e com certeza, outros competentes profissionais  estão dando um forte lastro cênico para a Educação Infantil afim de que nós possamos dar continuidade no Ensino fundamental. Mas mudando de assunto, se você me permitir Paulo, você tem alguma superstição para entrar em cena?
Autran

Nada, absolutamente nada, (Vendo o arquivo de peças do Grupo Magno de Teatro.) Vocês fizeram Shakespeare ?  

GMT Fizemos o Festival Shakespeare de Teatro. Os alunos fizeram um “mix”do autor e montamos todas as peças.
Autran O Magno é filiado a instituições culturais  européias ?
GMT Não, é um colégio genuinamente brasileiro, que preocupa-se com a total formação do indivíduo. Este quesito naturalmente, pertence a uma moderna filosofia européia e norte-americana que o Colégio Magno e o Mágico de Oz, em seus trinta anos de vida, vem desenvolvendo com absoluto sucesso, inclusive com este imenso grupo teatral. Shakespeare foi um dos nobres autores encenados
Autran Shakespeare é Shakespeare. Parabéns a todos vocês!  (Aplaude-nos e pede licença para acender um cigarro)
GMT Na sua carreira, você tem uma vasta experiência em Shakespeare, tragédias gregas, grandes autores contemporâneos, comédias leves, musicais, foi sua a opção por este repertório?
Autran Vocês não iriam acreditar, mas minha carreira foi construída ao acaso. Eu fui o primeiro a montar Beckett no Brasil (Fim de Jogo). Sempre trabalhei com diversos autores e diretores. Acho que, se o ator/diretor não estuda, não recicla, acaba virando uma caricatura de si. E até o presente momento eu não virei uma caricatura de mim.(risos)
GMT Você contracenou com grandes atrizes, qual você teve maior afinidade cênica?
Autran Eu tive a sorte de trabalhar com Natália Thimberg, Cacilda Becker, Tônia Carrero e Teresa Raquel... Teresa é uma das poucas atrizes que tem o dom da tragédia.
GMT O que é o “dom da tragédia ” ?
Autran É ter o dom de fazer uma peça trágica e convencer. Há grandes atrizes que não têm o dom da tragédia como Fernanda Montenegro, Cacilda Becker e Marília Pêra.
GMT Paulo, você disse que o ator não tem método, que se submete ao método do diretor com quem está trabalhando. Neste caso, você responsabiliza totalmente o diretor e como diretor, qual é seu método?
Autran

Estudar a peça, estudar muito a peça, que, na verdade é o meu método como ator também: estudar muito a peça, depois ver qual é a função do personagem e em seguida ver isso em cada cena. Enfim, uma peça é administrada e é um resultado conjunto, mas quando o diretor é ruim...  
Ele perde o emprego no primeiro trabalho (risos)...  

Teatro é o resultado da montagem e o conhecimento sobre essa área é nítido; não dá para enganar.

GMT Qual a maior qualidade em um ator?
Autran A essência do ator é a imaginação. . É o melhor caminho para se chegar a um personagem. E, tendo um nível cultural  um pouco maior, a imaginação do ator voa longe. Dizer que isso “baixa” o personagem é canastrice pura.    
GMT Você foi um autodidata? O que você acha de escolas de teatro?
Autran

Eu fui autodidata, mas fiz expressão corporal, fiz mímica com o Marceau, estudei voz com vários professores, fiz várias especializações com profissionais que, como vocês, levavam o Teatro a sério e criavam uma enorme cumplicidade comigo.  
Vocês são da renomada EAD ( Escola de Arte Dramática / USP),  e eu acho a formação essencial. Ter profissionais de teatro sérios em um curso de teatro é o melhor caminho para alguém saber se quer fazer teatro profissional.  

GMT Paulo, hoje em dia, qual é o teatro que lhe interessa?
Autran É o teatro sem adjetivos, é o teatro que abrange qualquer caminho, desde que haja uma comunicação com a platéi
GMT Qual é a diferença em interpretar para o cinema e o teatro ?
Autran No teatro, a platéia tem de perceber o que está se passando dentro da sua cabeça. Isso tem de estar expresso no seu rosto, na sua voz. No cinema, a câmera nos meus olhos  e nos do público, então, com bem menos exteriorização, você consegue dar o interior do personagem.
GMT E novelas?
Autran Enjoei. Não quis mais depois de Sassaricando (Globo / 1987). Dez anos depois fiz Hilda Furacão, a gravação durou seis meses...Um porre (risos)... Foi infernal...
GMT Paulo, o que você está fazendo depois de ter ganho muito dinheiro, fama e prestígio ?
Autran Hoje além desse espetáculo a que vocês assistiram (Quadrante), estou dirigindo a Beth Coelho, com um texto da Cristina Mutarelli, que estará no Crowne Plaza,o nome da peça é “Pai”, e já deixarei para vocês 30 ingressos, tá bom ?
GMT Excelente! Obrigado desde já. Amanhã estaremos lá...
Autran

Ahh... Como é bom ver uma juventude interessada, culta, sadia, educada... Isto é raro! Quem dera se toda escola desenvolvesse este trabalho “top de linha” e todo jovem tivesse este precoce esclarecimento cultural que o Magno oferece aos seus alunos. Eu viro criança com vocês ( rouba uma queijadinha de uma aluna). Eu adoro queijadinha (risos)...