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O
cineasta, de 47 anos, foi um dos primeiros moradores do bairro Alto de
Pinheiros, onde nasceu e passou a adolescência. Na época, segundo ele, o
bairro não parecia fazer parte da grande cidade. Meirelles conta que sua
família comprava leite de um curral próximo à sua casa. "Parecia uma
cidade do interior. Cheguei a fazer piquenique no rio Pinheiros." Agora,
a cidade ganhou ares de metrópole e sua relação com ela é diferente. O
caos no trânsito o incomoda muito. Mas, como bom paulistano, nunca
pensou em mudar-se definitivamente e admira o universo de possibilidades
e oportunidades. "Viajo muito, mas aqui me sinto em casa."
Estreou em agosto passado no país o filme "Cidade de Deus", de Fernando
Meirelles, que fez sucesso fora da competição no Festival de Cannes.
Baseado no livro homônimo de Paulo Lins, é um retrato de 20 anos naquela
favela de Jacarepaguá, da infância do crime – quando a maior infração
era roubar o caminhão de gás - à maturidade dos bandidos, envolvidos com
mortes, estupros e tráfico de armas e drogas. O próprio diretor viu-se
às voltas com o problema: na época das filmagens, a Cidade de Deus
estava dividida entre traficantes. Para evitar conflitos, Meirelles
decidiu filmar a maior parte das cenas na Cidade Alta, em Cordovil. "O
dono lá é mais velho, tem 40 anos e na época estava preso, em Bangu",
conta.
Nós conseguimos falar com ele na produtora O2 , com um grupo de quarenta
e dois alunos , em junho de 2004, em um papo muito interessante.
Grupo Magno de Teatro: Você não esperava
fazer todo aquele sucesso em Cannes. Por que esse tipo de filme, de um
país do Terceiro Mundo, faz tanto sucesso nesses festivais?
Fernando Meirelles: Uma grande parte das
matérias publicadas falava sobre a história do filme: a situação desses
guetos, a violência banal, cotidiana. Mas grande parte falava também da
maneira como a história foi contada. Parece que é uma surpresa para eles
um filme brasileiro com esse tipo de técnica, uma linguagem mais ágil. O
que se espera do cinema brasileiro, em geral, é outro tipo de filme. O
Festival de Cannes teve surpresas não só brasileiras, mas também de
outras nacionalidades. Filmes com outro tipo de narrativa, autorais, que
parecem ter uma certa urgência na história que estão contando.
Grupo Magno de Teatro: Vocês decidiram não
filmar na Cidade de Deus porque estava tendo uma guerra lá, não?
Fernando Meirelles: Não estava havendo uma
guerra. A Cidade de Deus é dividida em quatro áreas. Ela está loteada,
sempre foi assim. No filme, também é assim. Às vezes, mudam as divisões,
juntam-se duas áreas, depois, dividem-se de novo. O fato de ela ser
dividida em áreas, e nem sempre os donos de cada uma serem amigos, torna
difícil a circulação da equipe. E é muito instável, porque você nunca
sabe se aquela área vai continuar sendo do mesmo dono. A favela não
estava em guerra, mas estava - e ainda está - numa situação instável.
Grupo Magno de Teatro: Como quase todas as
favelas do Rio. Nos outros lugares onde filmaram, vocês também tiveram
que negociar com o tráfico...
Fernando Meirelles: Isso não tem jeito.
Onde nós filmamos, na Cidade Alta (em Cordovil), foi ótimo. O dono lá é
mais velho, tem 40 anos, e estava preso em Bangu. Nós conseguíamos falar
com ele pelo celular, sabíamos onde ele estava. Era um cara muito mais
estável.
Grupo Magno de Teatro: Quando você filmou,
ainda não tinha ocorrido o assassinato de Tim Lopes. Como você viu a
morte dele, depois de ter convivido com essa realidade durante as
filmagens?
Fernando Meirelles: No ano em que eu
filmei, não tinha morrido o Tim Lopes, mas tinham morrido 17 mil garotos
de 12 a 24 anos de morte violenta no Brasil. Este é o número do IBGE.
Foram 17 mil no ano passado mortos assim. Deve ser o equivalente a nove
ou dez guerras do Afeganistão. Israel e Palestina não chegaram a isso
ainda. A morte do Tim Lopes chamou a atenção porque era um cara do lado
de cá, conhecido. Mas é um fato absolutamente usual, corriqueiro.
Grupo Magno de Teatro: Vocês tiveram medo
em algum momento durante as filmagens?
Fernando Meirelles: Não vou dizer que era
totalmente tranqüilo. Mas, depois que a gente fez um acordo, eu sabia
que, pelo menos dentro das comunidades, não iria acontecer nada com a
gente. Ninguém é louco de fazer uma coisa dessas. Qualquer coisa que
acontecesse com alguém da equipe teria essa repercussão que teve o caso
do Tim Lopes. Foi uma estupidez.
Grupo Magno de Teatro: Como você espera,
depois de Cannes, que o filme repercuta no Brasil?
Fernando Meirelles: A gente já tem mostrado
o filme para algumas audiências, feito alguns debates. A reação tem sido
muito bacana, principalmente nas comunidades. Acho que uma parte das
pessoas da Cidade de Deus não vai gostar, vai achar que o filme pode
estigmatizar, reforçar a idéia de que o lugar é violento. Mas a gente
não inventou aquela história. É como um espelho: a culpa não é do
reflexo, é da realidade que está sendo refletida. Enfim, eu espero
alguma repercussão negativa, especialmente na Cidade de Deus. Fora isso,
as pessoas para quem temos mostrado ficam impressionadas.
Grupo Magno de Teatro: Qual vai ser seu
próximo projeto? Você pretende continuar nessa linha?
Fernando Meirelles: Eu fiz antes
"Domésticas", sobre a exclusão doméstica. Tem uma parte da casa para as
pessoas que moram lá e que são meio excluídas. Já "Cidade de Deus" fala
sobre a exclusão social. Nosso próximo projeto é sobre a globalização.
Vamos filmar em cinco ou seis países, falando sobre a relação entre o
Primeiro e o Terceiro Mundo, que está sendo colocado em escanteio.
Primeiro, foi a exclusão doméstica. Depois, a exclusão social. Agora,
vai ser a exclusão global. Como uma parte do mundo simplesmente está
deixando de fora outra parte da humanidade.
Grupo Magno de Teatro: Quando você vai
começar a filmar?
Fernando Meirelles: Estou escrevendo o
projeto e vou levá-lo em setembro para a Miramax, em Nova York, que
financiará o desenvolvimento do roteiro. No fim de 2004, eles vão ver o
projeto do filme e aprová-lo. Devo rodar em 2005, uma co-produção O2/Miramax.
A Miramax normalmente arranja outros parceiros. Tem uma distribuidora
francesa que quer entrar também, tem uma turminha na fila. O British
Council também está interessado no projeto. Tem pessoas que querem ver e
entrar com uma cota.
Grupo Magno de Teatro: Em quais cinco ou
seis países você deverá filmar?
Fernando Meirelles: Evidentemente, a gente
vai incluir o Brasil e os Estados Unidos, por causa da Miramax. Temos
algumas idéias, Java, por exemplo, mas estamos pensando ainda. Vai
depender dos acordos, da história. Estamos trabalhando.
Grupo Magno de Teatro: Você não vê muita solução para o problema das
favelas, para a opressão da comunidade, não é?
Fernando Meirelles: Eu não vejo solução
armada. Reforçar a polícia, aumentar o sistema de informação, colocar o
Exército, não vejo como solução. A solução é justamente a inclusão. Dar
força para associações de moradores, colocar dinheiro em projetos que
gerem emprego e possibilidade de estudo. A polícia na favela não é
polícia, é um indivíduo. A justiça não é justiça, é o dono do morro. Não
tem correio. É outra sociedade. Na hora em que essa sociedade começa a
dar tiros e esses tiros vêm para o nosso lado, qual o primeiro
pensamento? Vamos pôr polícia para barrar, segurar os caras lá. Mas não
adianta segurar, porque a pressão só vai aumentar. É preciso tirar essa
barreira e incluir. Vamos trazer os caras, deixar os benefícios que a
sociedade tem chegarem lá. A solução é a inclusão, que, infelizmente,
não vai ser feita no mandato do próximo presidente. Tem que ter escola,
atividade esportiva, educação artística, possibilidade de trabalho. As
pessoas querem fazer, ser felizes, ter oportunidade. O garoto não tem
nada, fica na rua sem nada para fazer, a escola está em greve. Vem outro
e oferece R$ 20 para soltar uma pipa. Ele vai e solta. Se eu morasse na
favela, iria ser vapor. É uma opção que, do ponto de vista deles, parece
mais interessante do que a que os pais deles tomaram, de trabalhar e
ganhar R$ 200 por mês.
Grupo Magno de Teatro: O tráfico é uma
atividade econômica ali...
Fernando Meirelles: Exato. É uma opção de
vida. Ou você não faz nada ou você pode ser que nem aqueles caras
bacanas, que se vestem bem, de quem as meninas ficam em cima, que ganham
uma graninha pra sair, pra ter um tênis de marca, uma camisa Cyclone.
Para que você vai ficar lá, dizendo "eu quero ficar aqui, duro, ser que
nem meu pai, que é bêbado e ganha R$ 300"? Quero ser que nem esse cara,
que todo mundo respeita.
Grupo Magno de Teatro: O que você espera do
próximo presidente em relação a políticas sociais? O que dá para fazer
em quatro anos de mandato?
Fernando Meirelles: Eu não entendo de
economia. Acho que tem que estabilizar a moeda e estar atento ao mercado
internacional, mas a gente está exagerando. O Malan (Pedro Malan,
ministro da Fazenda) fica só conversando com banqueiro internacional. O
universo dele é este. Realmente, está faltando investir na produção, no
crescimento do país. Nesta crise do dólar, o Brasil já gastou perto de
US$ 1 bilhão das reservas para equilibrar o mercado. Fernando Henrique
cumpre o que fala, é um cara sério, não dá nenhuma mostra de que pode
dar calote, mas, mesmo assim, o mercado decide e derruba o país. A gente
gasta todo o nosso dinheiro para manter tranqüilo o neurótico. O mercado
internacional não é neurótico, maluco, esquizofrênico? É como se tivesse
um cara esquizofrênico pondo dinheiro no Brasil. Você gasta dinheiro
para pagar o psiquiatra do esquizofrênico, para ele não pirar e tirar o
dinheiro.
Grupo Magno de Teatro: Voltando às
filmagens, como era sua relação com o pessoal da favela?
Fernando Meirelles: Nossa relação foi muito
profunda com os garotos do elenco. A gente começou a trabalhar com eles
em julho [de 2000] e ficou 11 meses trabalhando. Começamos a filmar em
junho [de 2001] e fomos até setembro. Ficamos um ano e três meses nos
vendo diariamente. Agora, quando encontro os moleques, são que nem
filhos.
Grupo Magno de Teatro: Você ainda mantém
contato com eles?
Fernando Meirelles: Muito. Agora, estou
filmando um série de quatro episódios para a Globo com essa mesma
galera. A Globo assinou contrato com três produtores independentes. Os
primeiros programas independentes, especialmente para a Globo, serão
esses que a gente está produzindo: a O2, a Casa do Cinema, de Porto
Alegre e a Videofilmes. Vai ser um programa chamado "A cidade dos
homens", com estréia em outubro. São quatro episódios sobre dois garotos
que moram no Morro Dona Marta. É uma brincadeira, em que a cidade é o
morro e os homens são dois garotos de 13 anos.
Grupo Magno de Teatro: Tem uma safra de
filmes sobre as nossas mazelas: "Cidade de Deus", "Estação Carandiru",
entre outros. É uma nova fase do cinema brasileiro?
Fernando Meirelles: A gente chegou num
ponto em que o tema pulou na frente. Não é que os cineastas resolveram
escolhê-lo. Eu não queria fazer isso, mas, depois de ler o livro e de
ver a situação que está aí, pensei: não vou fazer uma historinha de
amor, uma comédia romântica nem uma adaptação de Jorge Amado. O Brasil
não está precisando de uma adaptação de Jorge Amado neste momento. O
Brasil está precisando se conhecer. Esta foi a minha motivação. Como
teve o ciclo do cangaço na ditadura, já que não se podia falar de outra
coisa, agora a gente está vivendo o ciclo da exclusão urbana. Tem
"Cidade de Deus", o Cláudio Torres está acabando de filmar "O redentor",
o Zé Henrique Fonseca filmou "O homem do ano", tem "O invasor", do Beto
Brant, "Ondas do ar", do Helvécio Ratton, a história de uma rádio pirata
em Belo Horizonte. O "Carandiru", do Babenco, de certa forma, é sobre os
excluídos da sociedade, também. Em dois anos, é o ciclo da exclusão
urbana, da violência urbana. Não é uma coincidência. Esse tema, ainda
mais depois da morte do Tim Lopes, está em primeiro plano na agenda do
país.
Grupo Magno de Teatro: Você espera que esse
ciclo ajude a mudar alguma coisa?
Fernando Meirelles: Sou bem cético. Acho
que um filme não muda não, mas faz as pessoas se tocarem. Quem muda não
é nem o governo, quem tem que mudar é a sociedade. O excluído não é
culpa do governo. Tem um cara que ganha R$ 25 mil e paga R$ 300 para a
empregada e acha que está bom, porque paga mais do que o salário-mínimo.
Mas dá para viver com R$ 300? Não dá. A empregada mora na favela, mas o
cara acha que o problema é do governo. É um problema da sociedade. O
filme, de certa forma, conscientiza, ajuda a levantar esse debate, a
mostrar que realmente - até de um ponto de vista egoístico - se
continuarmos não dando oportunidade a uma parte da sociedade, ela vai
descer o morro para vir buscar. A história de "Cidade de Deus" acaba nos
anos 80, com aqueles "caixas baixas" (crianças delinqüentes da favela),
que são o Elias Maluco hoje, 20 anos depois. Só que, hoje, o menorzinho
que está ao lado do Elias Maluco é pior do que o garotinho que corre no
final do filme. Porque hoje, com 7, 8 anos de idade, ele está armado.
Aquele molequinho ainda não estava.
Grupo Magno de Teatro: O que mais te
encanta na metrópole?
Fernando Meirelles: São as possibilidades.
Aqui, você encontra tudo, todo tipo de gente e todo tipo de atividade.
Aqui, tudo pode. Fiz arquitetura e urbanismo, porque eu tinha um encanto
pela cidade, pelo jeito que ela se organiza.
Grupo Magno de Teatro: Um motivo para não
sair de São Paulo.
Fernando Meirelles: A minha atividade não
me permite morar em outra cidade menor. Viajo muito, mas estou muito
enraizado. A família, a vida da família, trabalho. Aqui, me sinto em
casa, nunca pensei em me mudar definitivamente.
Grupo Magno de Teatro: Um lugar que não
conheça.
Fernando Meirelles: Evidentemente, nenhum
paulistano conhece toda a cidade, mas me considero um bom conhecedor.
Como fiz arquitetura, tive de conhecer tecnicamente São Paulo. Mas, por
exemplo, nunca estive no Museu de Arte Sacra de São Paulo, nem na Vila
Maria, na zona norte. Apesar de degradada, também tenho vontade de
conhecer mais a região chamada de Cracolândia, no centro. Lá, tem
galpões lindos, mas abandonados. Dava para fazer um lindo projeto de
transformação urbana. É importante levar vida de volta para o centro.
Grupo Magno de Teatro: Uma frase que
traduza a cidade.
Fernando Meirelles: Tudo pode... perder-se.
É um escrito de uma camisa de um amigo (Tadeu Jungle). Acho que retrata
bem São Paulo e o seu universo de possibilidades.
Grupo Magno de Teatro: Para encerrar, gostaríamos de agradecer
imensamente esta entrevista / workshop para os alunos do grupo Magno de
Teatro e saber qual é a sua mensagem para esta nova geração de atores.
Fernando Meirelles: Sonhem, acreditem e
realizem, a recompensa virá... acreditem. Este pessoal do grupo Magno me
encanta pela simpatia, sabedoria e consciência cênica adquirida, que
tive o prazer de receber e trocar nesta tarde.
Obrigado a vocês do Magno.
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