Antonio Fagundes

 

    O Teatro no Colégio Magno


 

Com apenas 14 anos de idade, Antônio Fagundes pisou no palco pela primeira vez. Foi na peça "A ceia dos Cardeais", de Júlio Dantas, montada pelo Grêmio do Colégio Rio Branco, onde estudava. Na escola, Fagundes aprendeu muito mais do que as matérias normais do currículo de qualquer estudante. Aprendeu que havia nascido para os palcos.

Com o surgimento do Grupo Semáforo, de jovens atores do Colégio Rio Branco, Fagundes passou a atuar em diversos espetáculos. Ainda novo, seu talento já era reconhecido: ele chegou a ganhar o prêmio de melhor ator no IV festival de teatro amador.

Em 1966, Fagundes foi fazer teatro infantil no Arena. Talento descoberto, passou para o núcleo 2 do Arena, criado por Boal, uma "preparação" para a profissionalização, que não demorou muito pra chegar.

No Arena, entre rompimentos e voltas estreou dezenas de espetáculos, como "A resistível ascensão de Arturo Ui". Fora do grupo, fez também outros trabalhos, como a antológica montagem de "Hair".

Durante toda sua carreira, mesmo envolvido em produções televisivas ou cinematográficas, Fagundes nunca esqueceu das raízes e sempre arranjou um tempinho para estar nos palcos. Encenou espetáculos dos mais importantes, como "Morte acidental de um anarquista", de 1983, e "Nostradamus", de 1986.


A quantidade de trabalhos no cinema também é enorme. O ator esteve em produções de peso como "Pra frente, Brasil", de 1982, "Eternamente Pagu", de 1988, "Doces poderes", de 1997, e muitos outros.
Na TV, a estréia aconteceu com a novela "Bel Amy", exibida na TV Tupi, em 1972. Ainda na Tupi participou da primeira versão de "Mulheres de areia" e de "O machão".
Em 1976, Fagundes foi contratado pela Rede Globo, logo entrando no elenco de um dos clássicos da teledramaturgia brasileira: "Saramandaia", de Dias Gomes. Aliás, trabalhar em clássicos da TV parece ser o destino de Fagundes. Em 78, ele esteve em "Dancin’ Days" e protagonizou o especial "Jorge, um brasileiro".

Um ano depois, um verdadeiro marco na sua trajetória: ao lado de Stênio Garcia, Fagundes era o caminhoneiro Pedro do seriado "Carga pesada". Em 1981, mais um estrondoso sucesso para sua coleção: "Amizade colorida".


A partir daí, Fagundes passou a ser um dos mais cotados artistas da Rede Globo. Ainda nos anos 80, participou de "Louco amor", "Champagne" e "Corpo a corpo".


Em 88, mais uma explosão. Como o correto e romântico Ivan de "Vale tudo", Fagundes surpreendeu a todos mais uma vez. E em 90, mostrou sua verve cômica como o professor atrapalhado Caio, em "Rainha da sucata".


Mas nem só de bons rapazes vive Fagundes. Na TV, o malévolo Felipe Barreto fez história – mesmo que o público tenha rejeitado por completo que Fagundes vivesse um tipo "malvado" – assim como o desonesto Ricardo, da minissérie "Labirinto", de 1998.


Disputado pelos autores, Fagundes começou, em 1993, a ingressar num mundo novo. O mundo de Benedito Ruy Barbosa. Nesse ano, ele protagonizou "Renascer", vivendo o fazendeiro José Inocêncio. Três anos depois, em "Rei do gado", também de Benedito, deu vida ao fazendeiro Bruno Mezenga.


Em 1997, mais um sucesso. Novamente na pele de um "bom moço" ele encanta mulheres por todo o país como o bondoso Atílio de "Por amor". Mulheres que deram para Fagundes um título invejado e disputado por muitos atores: o de homem mais sexy do Brasil.


Aos 50 anos, com cabelos grisalhos, fôlego de menino e talento de mito, Fagundes não se deixou impressionar. E mostra mesmo que trabalhar é o seu forte. Em 1999, voltou às tramas de Benedito Ruy Barbosa, como o Gumercindo de "Terra Nostra". Nas telonas, foi uma verdadeira maratona.

Entre o final de 1999 e 2000, ele trabalhou em quatro filmes: "No coração dos deuses", "Bossa nova", "O tronco" e "Villa-Lobos".


E ainda arranjou tempo para gravar o primeiro disco de sua carreira. Em "Tributo a João Pacífico", Fagundes faz uma homenagem ao compositor caipira. Tudo isso é claro sem esquecer os palcos.  Após seu espetáculo “ Sete Minutos ”, em cartaz no Teatro Cultura Artística, ele nos recebeu e sem pressa alguma transbordou sua cultura, intelectualidade e toda sua paixão pelos palcos. Saímos ganhando um super workshop e um ótimo bate-papo, com aquele que é, sem sombra de dúvida, um dos maiores atores brasileiros.

 

Uma vez, na cidade paulista de Piracicaba, Antonio Fagundes saiu do espetáculo Vida Privada, que encenava com a ex- mulher (agora ele garante que está solteiríssimo), a atriz Mara Carvalho, direto para a delegacia. Foi fazer ocorrência, exigido por um espectador "poderoso" que chegou alguns minutos atrasado à peça e, barrado na porta, foi raivosamente apelar à polícia. Com o ingresso na mão, Fagundes explicou ao delegado que estava certo, pois no bilhete constava a informação de que ninguém poderia entrar depois do início do espetáculo. O policial achou a história tão absurda que nem formalizou a ocorrência. Juntou-se com os colegas em torno de Fagundes  para garantir os seus autógrafos, em pedacinhos do relatório da queixa.

Como faz há 15 anos, o ator continua sendo pontualmente britânico para entrar em cena no teatro. Não admite sequer tolerância de cinco minutos. "Tenho responsabilidade com o público que está sentado na platéia na hora em que a peça vai começar, e que, felizmente, é a maioria", diz ele. No dia-a-dia, também é rigoroso com o relógio. Se não fosse, ele provavelmente não conseguiria dar conta de uma agenda fabulosa, recheada de compromissos profissionais. Ator da novela “Esperança”, da Rede Globo, Fagundes encena “Sete Minutos”,  no teatro Cultura Artística, em São Paulo, de quinta a domingo, faz cinema - foi visto em dois filmes, “Bossa Nova”, de Bruno Barreto, e “Villa-Lobos, Uma Vida de Paixão”, de Zelito Vianna -, tem uma coluna no jornal “Agora São Paulo”, lançou um CD, “Tributo a João Pacífico”, em que interpreta canções do compositor caipira falecido há um ano, e - ufa! - ainda pretende fazer rádio e o que mais pintar. "Sou o famoso espaçoso", confessa Fagundes. "Abriu um espaço, eu ocupo."

Sem se definir como um workaholic, ele é um apaixonado pelo que faz. Hoje já consegue realizar o que sempre sonhou: trabalha por prazer. Sempre almejou ter dinheiro para poder trabalhar e montar o que quisesse. Diz que isso é possível por ser um homem de prazeres frugais. Dispensa grifes famosas e nem tem sonhos de consumo. A bordo de sua pick-up Chevrolet 1992, circula  por teatros e cinemas nos fins de semana. "É o que mais gostamos de fazer", diz ele. Nas férias, costumam cumprir roteiros exóticos, como Índia e Tibete. A vida pessoal, Fagundes preserva com discrição, embora deixe escapar algumas revelações. Usou durante seis anos cuecas vermelhas, porque, supersticioso como poucos, ouviu alguém comentar que trajar a peça daquela cor era bom. "Comecei a comprar cueca vermelha e, quando vi, só tinha desta cor. Agora, esqueci essa fase", brinca.

Ele também descarta o rótulo de galã, que considera pejorativo. Chegou a procurar no Aurélio o significado preciso só para entender melhor a insistência dos que procuram enquadrá-lo no termo. Acha que a palavra vai contra o seu trabalho em teatro, cinema e televisão. O ator fez mais de 40 espetáculos teatrais, 21 novelas, 37 longa-metragens, além de ter atuado em dezenas de minisséries e teleteatros. Recebeu 24 prêmios na sua carreira de 36 anos.

Alguns trabalhos de Antonio Fagundes:

FILMOGRAFIA

1.Esperança (2002) Novela .... Giuliano

2. Deus é Brasileiro (2002) .... Deus

3. Brava Gente - episódio "A Cabine" (2002) Seriado .... José

4. "Porto dos Milagres" (2001) Novela .... Félix Guerrero/Bartolomeu Guerrero

5. Villa-Lobos - Uma Vida de Paixão (2000) .... Villa-Lobos

6. Bossa Nova (2000) .... Pedro Paulo

7. No Coração dos Deuses (1999) .... Gaspar Correia/Fernão Dias

8. O Tronco (1999) .... Juiz Carvalho

9. "Terra Nostra" (1999) Novela .... Gumercindo Telles de Aranha

10. "Chiquinha Gonzaga" (1999) Minissérie

11. Paixão Perdida (1998) .... Marcelo Rondi

12. "Labirinto" (1998) Minissérie .... Ricardo

13. Fica Comigo (1998)

14. Doces Poderes (1997) .... Chico Silva

15. "Por Amor" (1997) Novela .... Atílio Novelli

16. "Rei do Gado, O" (1996) Novela .... Antonio Mezenga/Bruno Mezenga

17. "Engraçadinha... Seus Amores e Seus Pecados" (1995) Mini série

18. "Próxima Vítima, A" (1995/I) Novela .... Astrogildo

19. "Viagem, A" (1994/II) Novela .... Otávio Jordão

20. "Renascer" (1993) Novela .... José Inocencio

21. "Mundo da Lua" (1991) Seriado .... Rogério

21. Corpo, O (1991) .... Xavier

23. "Dono do Mundo, O" (1991) Novela .... Felipe Barreto

24. Beijo 2348/72 (1990) .... Dr. Paulo

25. "Rainha da Sucata" (1990) Novela .... Caio Szymanski

26. Barbosa (1988)

27. "Vale Tudo" (1988) Novela .... Ivan Meireles

28. Anjos da Noite (1987) .... Jorge

29. Besame Mucho (1987)

30. Dama do Cine Shanghai, A (1987) .... Lucas

31. Eternamente Pagu (1987) .... Oswald de Andrade

32. Leila Diniz (1987) .... Ruy Guerra

33. Jogo Duro (1985)

34. "Corpo a Corpo" (1984) Novela .... Osmar

35. Menino Arco-Iris, O (1983)

36. Pra Frente, Brasil (1983)

37. Próxima Vítima, A (1983)

38. "Champagne" (1983) Novela .... João Maria

39. "Louco Amor" (1983) Novela .... Jorge Augusto

40. Aventuras de Mário Fofoca, As (1982)

41. Tchau Amor (1982)

42. Um Casal de 3 (1982)

43. Das Tripas Coração (1982)

44. "Avenida Paulista" (1982) Minissérie .... Alex

45. "Amizade Colorida" (1981) Novela .... Edu

46. Gaijin, Os Caminhos da Liberdade (1980)

47. Sete Gatinhos, Os (1980) .... Bibelot

48. "Carga Pesada" (1979) Seriado .... Pedro

49. Doramundo (1978)

50. Noite dos Duros, A (1978)

51. "Dancin' Days" (1978) Novela .... Cacá

52. Elas são do Baralho (1977)

53. "Nina" (1977) Novela .... Bruno

54. Noite da Fêmeas, A (1976)

55. "Saramandaia" (1976) Novela .... Lua Viana

56. Eu Faço... Elas Sentem (1975) .... Luís

57. "Machão, O" (1974) Novela .... Leôncio

58. "Mulheres de Areia" (1973) Novela .... Alaor

59. "Revolta dos Anjos, A" (1972) Novela

60. "Bel Amy" (1972) Novela

61. Compadecida, A (1969) .... Chico

62. "Nenhum Homem É Deus" (1969) Novela

63. Sandra Sandra (1968)

Para Fagundes, ser símbolo sexual é uma agradável surpresa. "Fico envaidecido que as pessoas me achem como uma boa figura", diz, meio desajeitado. "Minha filha costuma dizer: 'Que povo bom, né, meu pai?'" Fagundes não é do tipo que se esfola para aparentar menos idade do que tem. Odeia fazer ginástica e adora os prazeres da boa mesa - a barriga está aí para provar ambas as coisas. As bolsas sob os olhos mostram que sua prioridade não é a forma física. Preocupa-se mais com a sua forma dramática no palco, no cinema ou na televisão. Para o autor Benedito Ruy Barbosa, que já trabalhou com ele em várias novelas, Fagundes chega a ser um exemplo para novas gerações. O autor de “Esperança” e “Terra Nostra” lembra que, na época em que Fagundes fazia o Rei do Gado, e contracenava com um grupo jovem formado por atores como Marcelo Anthony e Leonardo Brício, os estreantes pediam ao escritor para fazer mais cenas com ele. Outra característica deste ator carioca radicado em São Paulo há 44 anos é o respeito ao texto do autor. Benedito ressalta que ele é um dos poucos que não altera uma vírgula da sua fala. "E não precisa de muito tempo para decorar. Lê uma vez e já está pronto. Eu me sinto mais responsável quando escrevo para ele." Segundo o diretor Jayme Monjardim, a criação do personagem de Fagundes,  foi uma troca intensa entre ele e o ator. "É um prazer trabalhar com Fagundes."

 

Antonio Fagundes fez seu primeiro personagem aos 12 anos, em uma peça teatral no Colégio Rio Branco, em São Paulo. Interpretava um cardeal de 75 anos, figura que ele caracterizou com uma boa dose de graxa de sapato na cabeça. A partir daí foi se revezando nos mais variados meios. Aos 20 anos, subiu ao palco, nu, na peça “Hair”, junto com a atriz Sônia Braga, sua parceira amorosa oito anos mais tarde na novela “Dancin’ Days”. Nos anos 70, não ficou de fora das pornochanchadas, e no início dos 80 chegou a apresentar um programa juvenil na TV Cultura, “É Proibido Colar”, ao lado de Clarisse Abujamra. O ator, que trabalhou com vários diretores, diz que aprendeu muito com todos. A exceção foi Gerald Thomas, com quem fez “Carmem com Filtro” (1986). "O que ele faz não é teatro", afirma. "Por isso, a relação foi difícil. Eu estava no auge da minha busca de contato com o público, e ele dizia que teatro era só de vanguarda, que as pessoas tinham que ter alto nível cultural para entender o que ele faz." Para Fagundes, aquilo era uma heresia. Ele acredita que uma das principais funções do teatro é emocionar o maior número possível de pessoas.

Petista declarado, ainda que não filiado ao partido, Fagundes vê com tristeza a situação atual do país. "Interessa aos que estão no poder, há 500 anos, que sejamos um povo ignorante e que esteja a serviço de outros interesses. Não vejo saída", lamenta. Em sua coluna da segunda-feira, no jornal “Agora São Paulo”, ele convidou o povo a formar um exército: "Somos capazes de produzir o suficiente para sermos roubados diariamente pelos que estão no poder e ainda assim não naufragar. (...) Temos que aprender a formar nosso próprio exército e nos encher de ódio pelo que acontece. (...) Temos de vestir o uniforme da decência e aprender o caminho das armas, do bom combate. Não basta querer a paz. É preciso lutar por ela."

Sem falar de seus rendimentos, vê-se como um privilegiado. "Tenho oito empregos, não sei onde ganho bem ou mal", escapa o ator, um dos mais bem pagos da Globo. "Tenho um bom salário na emissora, mas se tivéssemos mais concorrência ele seria multiplicado por dez. A Globo sabe disso." Sua versatilidade, tanto na capacidade de trabalho quanto no talento para encarnar variados personagens ao mesmo tempo, é apreciada por profissionais e colegas que o vêem também como um ator que, mesmo aos 50 anos, se mostra ávido em crescer. "Não importa qual a idade eu tenha, irei continuar com a vontade de descobrir e aprender", diz Antonio Fagundes.

Nós eternos aprendizes do teatro, após seu espetáculo “Sete Minutos” – o qual recomendamos à comunidade Magno –, tivemos o prazer desta entrevista com um dos melhores atores contemporâneos. Com vocês: Antonio Fagundes.

 

Antônio Fagundes : Boa noite, pessoal!

GMT: Boa Noite! Agradecemos sua presença nesta entrevista. Aqui está um folder do Grupo Magno de Teatro. Adoramos sua peça! Agora vai uma bateria de perguntas, ok? Queria saber qual a diferença de fazer cinema e novela?

Antônio Fagundes: É ótimo conversar com este enorme grupo de teatro. Pelo que vejo aqui neste folder, vocês fizeram excelentes e difíceis montagens. Quanto ao processo do cinema, ele é muito mais elaborado, temos mais tempo para tudo. Já no Projac (estúdio da Rede Globo), tudo é vapt-vupt, tem que ser rapidinho mesmo, pois são muitos capítulos que temos que gravar e o tempo é nosso inimigo. Obviamente, a lapidação é bem menor ou nem sequer a temos.

GMT: Estudamos toda a sua biografia e assistimos todos os seus filmes. Em “Bossa Nova”, como foi o trabalho com Amy Irving?

Antônio Fagundes: Amy Irving, minha companheira em “Bossa Nova”, é uma excelente atriz e maravilhosa colega de trabalho. Acho que o prazer da filmagem passou para as telas.

GMT: Você tem um teatro com seu nome? Onde ele fica?

Antônio Fagundes: É verdade. Tenho um teatro com meu nome no Rio de Janeiro, na Barra da Tijuca. Mais precisamente na Avenida Ayrton Senna. É um lindo teatro! Quando for ao Rio, apareça por lá.

GMT: Você é conhecido por seguir à risca o texto. E o improviso?

Antonio Fagundes: O improviso faz parte do nosso trabalho, mas é bom lembrar que você tem outros profissionais envolvidos no processo que precisam ser respeitados. O autor, por exemplo. Nenhum deles gostaria de ver seu texto picado por improvisos sem sentido.

GMT: Por que demorou tanto para escrever novamente para o teatro? (“Sete Minutos” é de autoria de Antonio Fagundes).

Antonio Fagundes: Porque sou ator e não autor. Faço teatro, televisão e vivo sempre entre Rio e São Paulo. Teria de abandonar muitas coisas se quisesse escrever mais. Em 20 anos, tive duas oportunidades de parar tudo e fazer isso. Escrevi essa peça em agosto de 2000. Até conseguiria escrever enquanto estivesse envolvido em outros trabalhos, mas não sairia tão bom.

GMT: Como é interpretar seu próprio texto?


Antonio Fagundes: É complicado. Você tem de criar um distanciamento, já que escrever é quase matemático e atuar é mais emoção.

GMT: Aquelas situações da peça já aconteceram com você?

Antonio Fagundes: Sim, todas elas. O personagem é inteiro eu, baseado nas minhas experiências em 36 anos de carreira.

GMT: Já se sentiu tentado a abandonar o palco no meio do espetáculo?


Antonio Fagundes: Não, nunca, a paixão é maior.

GMT: Gostaríamos de saber como você começou a sua carreira?

Antonio Fagundes: Comecei no teatro de Arena, um grupo muito importante de teatro no Brasil, em 1966. Antes, eu já tinha feito teatro infantil, teatro amador e estudantil. Mas me profissionalizei a partir de 66. 

GMT: Você não gosta de ginástica e adora uma boa comida. Como consegue manter a forma e ser considerado um homem "sexy" pela maioria das mulheres?

Antonio Fagundes:  É, não sou um malhador. Aliás, não malho nada e adoro uma boa e suculenta mesa. Essa pergunta eu me faço todo dia: sobre este lance sexy! Eu nunca me considerei ou me preocupei com este aspecto, mas é  bom  ser gostoso (risos) . Esse tipo de eleição não conta com a nossa participação. Não adianta você querer ser ou não ser. As pessoas é que elegem. Agradeço.

 GMT: Fagundes, em sua casa, você também é prendado na cozinha?

Antonio Fagundes: Sérgio, vou te contar um segredo. Foi a primeira coisa diferente de um ovo frito que fiz na minha vida. Sabe que ficou gostoso? Fiquei até tentado a arriscar outras vezes. Preciso só arrumar cobaias para experimentar depois. 

GMT: Dizem que você decora o seu texto e do elenco todo. É verdade ?

Antonio Fagundes: Ximena, tenho uma facilidade muito grande para decorar, de forma que não levo textos para casa. Decoro na hora da gravação. Acredite, isso é um dom invejado por toda a classe teatral. 

GMT: E a abordagem dos fãs, como você lida com isto ?

Antonio  Fagundes: Sérgio, às vezes, a aproximação é meio estranha e ficamos sem jeito diante da situação criada. Por exemplo: já fui solicitado a dar autógrafos no enterro de um grande amigo. Você há de convir que é uma situação constrangedora. Quando é assim, e as pessoas não percebem que estão no momento errado, lamento o fato de ser famoso. 

GMT: Quais foram ou qual foi seu trabalho predileto?

Antonio Fagundes: Sempre evitei destacar qualquer um dos meus trabalhos, pois isso me dá a impressão de que antes e depois dele nada mais existiu. E isso não é verdade. Gosto igualmente de tudo que fiz. Encaro meu trabalho como um processo contínuo, que só será interrompido no dia em que eu parar. Aí, deixo para o público a escolha do que achou melhor. 

GMT:  Muita gente tem uma visão romântica do teatro, achando que é uma vida mais agitada que a de um escritório, por exemplo. O que você acha desta visão? Como é para você repetir, noite após noite, as mesmas falas em uma peça de teatro?

Antonio Fagundes: Não acho nada romântico uma vida mais agitada do que um escritório (risos). No entanto, posso te garantir que é uma vida muuuuuuuuito mais agitada. Quanto a ficar repetindo o mesmo texto toda noite, é um engano. Não repetimos porque não somos os mesmos e quem nos ouve também mudou, mesmo que tenham voltado no dia seguinte. É sempre um salto triplo mortal, sem rede.

GMT : Você não acha que hoje em dia, tanto a televisão como o teatro têm muitos "atores" e poucos "artistas", que fazem arte de verdade? Caso concorde, que solução você veria para isso?

Antonio Fagundes: Conheço um número enorme de atores que não gostam de ir ao teatro. Nunca entendi isso... Faz parte do nosso aprendizado entender o que se passa do outro lado do palco. Essa deve ser a nossa primeira generosidade. 

GMT : Quando você nasceu ?

Antonio Fagundes:  Nasci no dia 18 de abril de 1949. Velhinho, não??? 

GMT : Qual é o mito que fazem de sua parceria romântica com a Regina Duarte?

Antonio Fagundes:  (risos). Um na novela "Nina", onde fizemos o nosso primeiro par romântico, isso para você pode ser um caso, não?? O segundo foi na novela "Vale Tudo", grande caso!!! E o terceiro, um caso de parar o país, foi em "Por Amor". De mentirinha, é claro !!!!! 

GMT:  Se você pudesse escolher uma atriz para contracenar uma cena picante e romântica, qual você escolheria?

Antonio Fagundes (na resposta mais “escorregadia” dada ao GMT ): Sempre a próxima.  (RISOS)

GMT: Você participou de grandes sucessos na televisão, como o seriado "Carga Pesada" (com Stênio Garcia). Dizem que o mesmo será refilmado, é verdade?


Antonio  Fagundes: O seriado global Carga Pesada, que foi sucesso em 1978 e 79, ganhará uma nova versão no final deste ano. Um especial mostrará o que aconteceu com os caminhoneiros Pedro e Bino. A microssérie, de apenas quatro capítulos, deverá ser exibida de 17 a 20 de dezembro. Eu e  Stênio Garcia reviveremos nossos papéis do passado. Como os atores, os dois personagens envelheceram e ganharam família. O especial, que mostrará o que teria acontecido na vida dos caminhoneiros, funcionará como uma espécie de teste. Há chances de Carga Pesada voltar como uma série semanal em abril de 2003. A sinopse desse especial já foi entregue pelo dramaturgo Aguinaldo Silva à Rede Globo. O autor é responsável pelo texto, que antes era de Dias Gomes, junto com uma equipe de roteiristas, formada por Denise Bandeira, Vinicius Viaja e José de Carvalho. Para a direção, foram escalados Marcos Paulo, que comanda o núcleo de O Beijo do Vampiro, e Roberto Naar.

O projeto retoma o seriado original. Está em elaboração. Além de Fagundes e Stênio, ainda não há outros nomes confirmados para integrar o elenco. Mel Lisboa, que surgiu na pele da ninfeta Anita, está cotada para participar da série. Se seu nome for confirmado, o público vai estranhar. Diferente de seus personagens anteriores, o papel é de uma caminhoneira casca grossa. A garota poderá ser um dos filhos de Bino (Stênio Garcia), que vai se meter em enrascada durante uma viagem e terá de ser resgatada por seu pai.

GMT: Você já fez algum musical no teatro, em que teve que cantar ?

Antonio Fagundes: Ximena, fiz dois grandes musicais como protagonista em teatro. O "Hair", em 1969, e "Godspell", em 1973. Cantei feito louco!! No entanto, confesso que é uma experiência bem... assustadora.. para quem achava que cantava bem.

GMT: Fagundes, onde você estudou arte dramática? Sempre teve pretensão de ser ator?

Antonio Fagundes: Comecei no teatro amador, no colégio Rio Branco. Pena não ter estudado no MAGNO... Pelo nosso papo aqui, dá para ver a responsabilidade e o encaminhamento sério nas artes cênicas que o colégio MAGNO possui. Este repertório de peças já montadas por vocês é fascinante! Muitas gostaria de ter montado, mas nunca fiz uma EAD, como vocês, Sérgio. Não estudei, ou melhor, agora é que não paro de estudar. (risos)

GMT: Você pratica ou gosta de algum esporte?

Antonio Fagundes: Gosto muito de mergulhar. De vez em quando, sonho com um mar azul... cheio de peixinhos coloridos... 

GMT: Nesta vida de ponte aérea, sobra tempo para algo mais? O que você faz dele?

Antonio Fagundes: Sobra bastante tempo, sim. Nem sempre nos horários que a gente gostaria, mas afinal nossos filhos sabem qual é a nossa profissão. É quase como vida de médico...só que pior. 

GMT: Você é conhecido por ser rigoroso com os horários de seus espetáculos, e já foi até parar numa delegacia por causa disso. Acha que essa "moda" pode virar praxe no teatro nacional?

Antonio  Fagundes:  Adoraria que isso acontecesse... É natural que as pessoas que chegam atrasadas em meus espetáculos e não consigam entrar se sintam... desprestigiadas... Talvez elas pudessem se consolar pensando que essa medida não foi para prejudicá-las mais as outras dez que se atrasaram junto com elas. Essa medida foi para respeitar as 1.100 outras pessoas que fizeram de tudo para chegar na hora e que merecem nosso respeito de que o espetáculo comece rigorosamente no horário marcado. 

GMT: Qual é o seu sonho de consumo?

Antonio Fagundes: Sou muito simples e nem um pouco consumista. No entanto, como adoro ler, vivo comprando livros e tentando lê-los todos. 

GMT: Em sua penúltima peça, "Últimas Luas", você interpretou  um homem idoso que vai morar num asilo. A velhice é algo que o assusta?

Antonio Fagundes: Não é a velhice que me assusta e sim, a debilidade da saúde. Percebo que a cada ano o parafuso vai enferrujando. Tenho que me cuidar para poder continuar trabalhando. É o que quero.

GMT: Quais as músicas e filmes que você mais gosta?

Antonio Fagundes: Gosto de todos os tipos de música e todos os tipos de filmes. É preciso apenas que sejam boas músicas e bons filmes. 

GMT: Fagundes, qual é a melhor praia que você já foi?

Antonio Fagundes: Fiquei uma vez numa praia nas Ilhas Maldivas, ao sul do Sri Lanka, que além de ser longe pra burro, é linda de morrer!! No entanto, temos praias lindíssimas por aqui, pertinho da gente. 

GMT: Gosta de futebol? Qual é o seu time de coração?

Antonio Fagundes: Sou um zero à esquerda em matéria de futebol. Mas tenho uma profunda simpatia pelo Corinthians (os são-paulinos vão ficar loucos!!).

GMT : Fagundes, como você compõe um personagem? É intuitivo seu processo ou você tem alguma técnica para "achá-lo"?

Antonio  Fagundes: A composição de um personagem não é fruto de um único momento. É o resultado de toda a sua vida de trabalho, estudo e observação. Costuma-se dizer que em qualquer obra de arte existe 10% de inspiração e 90% de transpiração. (na foto Macbeth).

GMT: Teatro, cinema ou TV? 

Antonio  Fagundes: O teatro ainda continua sendo a pátria do ator. É lá que ele percebe, a cada dia, o calor da platéia. Como disse Camus, "o ator percorre, a cada dia, uma trajetória que, às vezes, a platéia leva uma vida inteira para percorrer". Esse calor é insubstituível. 

 

GMT : Na criação de seus filhos, você os deixou  livres para escolherem a profissão ou eles tiveram algum tipo de pressão ?

Antonio Fagundes: Nunca fiz esse tipo de pressão. Acho que eles me agradecem por isso. Minha filha mais velha está na faculdade de hotelaria e meu filho mais velho entrou na faculdade de publicidade (Mackenzie - SP). Vamos esperar os outros dois para ver o que acontece. Mas eles estão livres. 

 GMT : Fagundes, como foi a época da repressão durante o regime militar? Você já atuava, não é?

Antonio Fagundes: Foi uma época triste e negra da nossa história. Nossa dramaturgia se ressente até hoje dos duros golpes aplicados pela ditadura em nossa cultura. Ainda estamos tentando sair fora dessa herança. 

GMT: Apesar da memória, já lhe ocorreu o branco cênico ? Como é para você ?

 

Antonio Fagundes: Claro que sim – o branco. Os atores, de vez em quando, são acometidos de esquecimentos totais, que chamamos de "branco". Acredite que não há mico maior dentro ou fora de cena do que você esquecer até seu próprio nome diante de mais de mil pessoas (risos). Dá a impressão de estarmos chapadões ...

 

GMT: Acabamos de assistir seu último espetáculo (“Sete Minutos”). Fale-nos sobre ele.

 

Antonio Fagundes: Tudo começou de problemas reais que tive com os “atrasados” de plantão. Até no anúncio da peça Sete Minutos nos jornais, chama a atenção a frase em destaque: “Chegue com 30 minutos de antecedência ao teatro, pois o nosso espetáculo começa rigorosamente no horário marcado. Não será permitida a entrada após seu início. Não haverá troca de ingresso ou devolução de dinheiro em caso de atraso.” A medida, comum nas peças, se justifica ainda mais por estar afinada com o texto do novo espetáculo, o segundo escrito por mim.

Dirigido por Bibi Ferreira,  também interpreto o personagem principal, um ator veterano e bem ranzinza que, em uma montagem do clássico Macbeth, de Shakespeare, que aliás vocês montaram também – nossa! tudo isto de Shakespeare...!,  (olhando o folder do GMT), pois é, voltando à sua pergunta sobre “Sete Minutos”, o personagem interrompe e abandona a sessão por não suportar mais os celulares e bips tocando, as tossidas da platéia e um senhor, na primeira fileira, sem sapatos e com os pés sobre o palco. Exasperado, ele ainda tem de agüentar, nos bastidores, confusões com sua empresária (Suzy Rêgo), um ator iniciante (Denis Victorazo), dois espectadores revoltados (Tácito Rocha e Neusa Maria Faro) e um tenente de polícia (Luiz Amorim).

A situação extrema é usada pelo ator/autor para fazer uma verdadeira declaração de amor ao teatro, desabafar sobre suas experiências no ofício e soltar farpas sobre a crítica especializada e o governo. Os sete minutos do título se referem ao tempo máximo, segundo estudos, que as pessoas conseguem manter-se atentas à televisão, por exemplo. Acredito que o sucesso do texto é o conteúdo e, principalmente, com um humor simples, mas cheio de tiradas de bom gosto e originais, coisa rara nas comédias de hoje em dia. Vale a pena chegar na hora. Vocês assistiram e certamente foram pontuais. (risos)

GMT: Todos os alunos daqui gostariam de saber o que falta você interpretar que ainda não o tenha feito.

Antonio Fagundes: Vocês estão em quantos alunos ... uns 100?

GMT: Aqui hoje, vieram somente 78 alunos, desde o ensino fundamental  das 8as  séries até o grupo de pais e ex-alunos, contudo a maioria dos alunos não pôde vir.

Antonio Fagundes: Sérgio, então o MAGNO também é uma escola profissionalizante de atores?

GMT : Nossa função é ensinar teatro, fomentar culturalmente grupos por meio das artes cênicas, com a qualidade igual e até superior das escolas de teatro. Profissionalizamos também os alunos que tiverem interesse em seguir carreira, como vem ocorrendo há oito anos. 

Antonio Fagundes: Quem é o patrocinador do grupo? É alguma empresa?

GMT: Nossos patrocinadores são exclusivamente o Colégio Magno & Mágico de Oz, ou seja, a instituição educacional acredita e investe na expressão teatral e em outras atividades extracurriculares, para que o jovem aluno possa ter um “canal de expressão” e ter contato com o universo cultural e artístico que o teatro proporciona.

GMT (o aluno Luis pergunta): Mas, e a minha pergunta? O que falta você interpretar que ainda não o tenha feito?

Antonio Fagundes: Olha, menino, apesar de toda esta caminhada, acho que o melhor ainda está por vir ... Gostaria de viver centenas de outros personagens, trabalhar com outros diretores, autores. Estou disposto a ouvir e disposto a trabalhar muito...

GMT: Para encerrar, afinal já são 23h20 e já abusamos muito, vamos a um bate-bola rápido?

Antonio Fagundes: Eu é que fico muito feliz pela espera de vocês, pela educação ímpar deste grupo Magno. Já não é a primeira vez que este grupo assiste as minhas peças e ensaios. Vocês também estavam em “Últimas Luas”, né? Bom seria se todos tivessem a ética e a maneira de abordar-me que vocês tiveram. Eu não costumo fazer isto, não! Isto é mérito de vocês! Também, Sérgio, a produção me  falou que este papo estava previsto há sete longos meses e estas entrevistas que vocês fazem e estão aqui no folder de vocês (o Paulo, a Fernanda e até o Wilker...). Poxa, eu imagino a dureza que foi conseguir, dá para sacar quem é batalhador, quem conhece o assunto que aborda e neste aspecto, vocês são impecáveis, além de serem super simpáticos. Vamos, então, ao bate-bola.

GMT: Brasil.

Antonio Fagundes: É meu país, minha raiz, minha paixão!

GMT: Teatro.

Antonio Fagundes: É meu espelho, meu reflexo.

GMT: Cinema Nacional.

Antonio Fagundes: É esta legião de batalhadores que retomaram as produções. Viva o Cinema Nacional!

GMT: Dirigir algum dia?

Antonio Fagundes: Dá um trabalho, é difícil, mas quem sabe?

GMT: Atores que iniciam devem ...

Antonio Fagundes: Ser bem encaminhados por pessoas que realmente tenham paixão pelo que fazem e, acima de tudo, conhecimento. Ficaria feliz de ter meus filhos encaminhados por vocês, Mariá.

GMT: As Drogas ...

Antonio Fagundes: Escravizam ... não libertam.

GMT: A Educação no Brasil ...

Antonio Fagundes: Quem dera todos poderem ser educados no MAGNO, mas a maioria das escolas no Brasil não tem este nível e requinte cultural. Devemos olhar para os mais desamparados.

GMT: A mulher ...

Antonio Fagundes: Sérgio, sabemos que algumas coisas são fundamentais na vida ... E o amor é essencial, “ difícil viver com elas ... pior sem elas” (risos).

GMT: O meio ambiente...

Antonio Fagundes: Judiado, não...? Seria importante uma reflexão sobre isto. É o futuro de gerações que estão por vir.

GMT: Fagundes por Fagundes.

Antonio Fagundes: Um cara batalhador, que deu certo, pelo menos até agora (risos)...

GMT: O Grupo Magno de Teatro.

Antonio Fagundes: Vocês são de encher os olhos! Já cruzo vocês já faz tempo, hora aqui, hora lá ... Este papo demorou, né? Mas pelo folder, montagens já feitas, entrevistas realizadas, alunos encaminhados para a profissionalização séria e honesta, a formação e transformação que o teatro proporciona ao indivíduo, que mais poderia falar? Este grupo já tem uma identidade, uma linha, um trabalho que o público paulistano que freqüenta teatro já se acostumou a ver. Eu mesmo já recebi e-mails das montagens de vocês. Só posso dar-lhes os parabéns e desejar-lhes a continuidade deste sucesso !

GMT : Nós é que agradecemos pelo papo, pelas entradas gratuitas da sua peça e pela sua gentileza inigualável. Sucesso a todos nós! Valeu!

 

    

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