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É com muita alegria que
abrimos este novo ano presenteando esta entrevista, com uma das mais
conceituadas atrizes do cenário artístico brasileiro, especialmente para
os leitores assíduos do site do teatro Magno, em um encontro com os
alunos de teatro do Colégio Magno/ Mágico de Oz no MASP, após a exibição
do filme Feliz Ano Velho, de Roberto Gervitz.
Biografia de Eva Wilma
Havia muito tempo, a atriz paulista Eva Wilma, de 63 anos, não fazia
tanto sucesso. No papel da cavilosa Altiva, de A Indomada, ela é a maior
responsável pela média de 53 pontos de audiência alcançada pela novela.
Graças à sua interpretação marcante, a personagem já entrou para o
panteão das megeras folhetinescas, como a Odete Roitman, interpretada
por Beatriz Segall em Vale Tudo, e a Perpétua, de Joana Fomm, em Tieta.
Apesar do gosto pelo reconhecimento do público, a atriz está decidida a
abandonar a rotina massacrante das gravações. "A Altiva será minha
última atuação como atriz fixa em novela", anuncia. "Não pretendo
pendurar as chuteiras, mas, daqui por diante, só farei participações
especiais." Elegante na forma e firme nas convicções, nesta entrevista
Eva faz um balanço de sua carreira e tece considerações surpreendentes
sobre os rumos da televisão brasileira. "No dia em que todo mundo
aprender a pensar, falar, ler e escrever, as novelas inevitavelmente
deixarão o horário nobre", vaticina. E nós perguntamos e ouvimos...
tudo.
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Prof . Ximena Araya e Prof. Sérgio Maria: “Pensem bem antes de perguntar
e aproveitem os filmes assistidos em aula sobre a carreira da atriz Eva
Wilma...”
Grupo Magno de Teatro: Fazer novela cansa?
Eva: Muito. É comum que o ator permaneça no set de gravação por nove
horas seguidas, cinco dias por semana. E, quando chega em casa, ainda
dedica muitas horas para estudar o texto do dia seguinte. Como uma
novela demora meses, dá para ter uma idéia do quanto essa rotina é
estafante. Estou fechando a trigésima novela em 44 anos de carreira – é
muito trabalho. Por isso, a Altiva será minha última atuação como atriz
fixa em novela. Não pretendo pendurar as chuteiras, mas, daqui por
diante, só farei participações especiais. Em O Rei do Gado, por exemplo,
tivemos três meses para realizar sete capítulos. Quero trabalhar nesse
filão.
Grupo Magno de Teatro: Por que a personagem Altiva, de A Indomada, faz
tanto sucesso?
Eva: Arriscando uma análise, acho que, em geral, vilões têm uma grandeza
muito própria. Podem transmitir uma solidão profunda, o que os torna
extremamente interessantes para o público. No caso da Altiva, ela é uma
desesperada que vive uma paranóia infantil. Seu prazer em humilhar as
pessoas é como se fosse uma atividade lúdica, um jogo. Esse tipo de
personagem dá oportunidade de mostrar um bom trabalho de interpretação.
O diretor grego Costa-Gavras afirmou certa vez que, para um ator fazer
um mau-caráter, ele precisa ser muito bom-caráter. O que não significa
que o ator deva ser moralista: é preciso saber acrescentar humor ao
papel que está vivendo. Isso dará leveza e revelará o lado poético do
personagem. Além do mais, a Altiva é a desencadeadora de tudo na trama,
o que me permite dar muitos olés. Ainda mais quando se está dentro de
uma equipe integrada e competente como a de A Indomada.
Grupo Magno de Teatro: Existem regras comuns para apresentar personagens
fortes?
Eva: Para interpretar bem um papel, o ator tem de ir ao fundo das suas
emoções, soltar seus deuses e demônios. Mas, em nenhum momento, pode
perder a consciência, o raciocínio e a técnica. Se isso acontece, ele
envereda pelo psicodrama, o que é uma desgraça. Nesse caso, é melhor
procurar um terapeuta; o público não pode ser vítima de suas catarses.
No entanto, confesso que a Altiva, às vezes, me dá pesadelos. Na semana
em que gravei as cenas em que ela mandava atear fogo nos canaviais da
fazenda, três teatros foram incendiados em diferentes cidades do país.
Essas terríveis coincidências fizeram com que eu tivesse sonhos
desagradáveis.
Grupo Magno de Teatro: Como a senhora avalia o seu trabalho na
televisão?
Eva: Houve coisas boas e ruins. As ruins, eu costumo esquecer
totalmente, mas, em todo caso, vamos lá. Em 1965, participei de uma
novela chamada Ana Maria, Meu Amor. A história e os personagens eram tão
fracos que ficou apenas três meses no ar. Lembro que, na época, reclamei
em uma entrevista que o público merecia novelas melhores. Duas décadas
depois, já na Globo, fiz um trabalho que não foi muito bem-sucedido, em
Mico Preto. Lá pela metade da novela, fui falar com o diretor Paulo
Ubiratan. Disse a ele que estava difícil segurar a barra e lhe sugeri
que matasse a minha personagem. Ele pediu para que eu agüentasse mais um
pouco, porque o final da novela seria apressado. Foi o que aconteceu.
Grupo Magno de Teatro: E o que a senhora fez de bom?
Eva: Muita coisa. No passado, marcaram época Alô Doçura, uma comédia de
costumes de Cassiano Gabus Mendes que ficou dez anos no ar, e Confissões
de Penélope, da década de 70. Foram também muitos teleteatros e, mais
recentemente, vários especiais, como Negro Léo, de 1986, que partiu de
uma idéia de Daniel Filho, baseada no personagem homônimo de Chico
Anysio. O interessante é que o personagem principal era a própria
câmara, com quem contracenávamos em uma tomada só, sem interrupções.
Além do virtuosismo demonstrado pelo operador da câmara, os atores
puderam exercitar o seu potencial de forma raramente vista na televisão.

Eva Wilma e Patrícia Pillar no
seriado Mulher
Grupo Magno de Teatro: Não é estranho que a senhora não tenha citado
nenhuma novela?
Eva: São trinta. Eu citaria, certamente, muitas cenas de cada uma delas.
Mulheres de Areia, por exemplo, teve um papel importante na minha
carreira artística, mas o fato é que prefiro os trabalhos mais curtos.
As novelas brasileiras são longas demais. Por melhor que seja o autor,
não dá para evitar a repetição. É cansativo para o público e para os
atores. Falam muito que faltam bons textos, mas acho que a saída é uma
novela mais curta.
Grupo Magno de Teatro: Por que, apesar de tudo, as novelas ainda são uma
garantia de boa audiência?
Eva: Porque são a opção de lazer e de fantasia mais barata, e, muitas
vezes, a única, de milhões de pessoas. Além disso, há um dado cultural:
no dia em que todo mundo aprender a pensar, falar, ler e escrever, as
novelas inevitavelmente deixarão o horário nobre. É um caminho natural.
Quanto maior o nível educacional dos brasileiros, menor será o espaço
das novelas em nossas vidas.

Eva Wilma e o ator Walmor Chagas
Grupo Magno de Teatro: O que a senhora acha das novelas mexicanas?
Eva: Elas são uma catástrofe. Têm uma qualidade inferior ao que se fazia
na Tupi há 35 anos. Esse tipo de novela faz uma exploração barata do
analfabetismo, dos sentimentos mais primários da nossa gente simplória.
Os diretores colocam um ponto eletrônico na orelha dos atores e os fazem
cuspir um texto meloso, sem nenhuma criatividade. Trata-se de um
desrespeito à inteligência do público.
Grupo Magno de Teatro: Mas elas fazem sucesso.
Eva: É porque o espectador brasileiro ainda cai facilmente na esparrela
do melodrama, nessa armadilha do "vamos chorar bem baratinho".
Felizmente, com as nossas novelas temos conseguido fazer rir. Temos
respeitado um pouco mais a inteligência do público.
Grupo Magno de Teatro: Modelos podem virar bons atores?
Eva: Não sou discriminatória, mas acho que esse não é o caminho da
formação de um ator. A vaidade é um dos componentes da profissão, mas
não deve ser predominante. Esses modelos não passam de bonequinhos do
consumismo. Geralmente, são pessoas que procuram a TV para aparecer na
vitrine e, por tabela, ser convidados para apresentar bailes de
debutantes, fazer comerciais e outras atividades rentáveis. É gente que
demora muito para dizer um texto e acaba emperrando o trabalho. O forte
deles é posar.

Eva Wilma, Carlos Zara (seu falecido
esposo e companheiro) e grupo teatral
Grupo Magno de Teatro: Por que montagens teatrais de textos clássicos,
ainda que com um elenco estelar, sofrem com a falta de público?
Eva: É uma questão complicada. O brasileiro trabalha muito durante o dia
e, à noite, está cansado. Quando resolve sair de casa e encarar uma
peça, ele chega ao teatro querendo dar boas risadas. Os textos clássicos
são longos e exigem muita concentração e estofo cultural. Mas essa
presença nos teatros mostra que, ao contrário do que muita gente pensa,
o brasileiro gosta de teatro. Prova disso são as campanhas de preços
populares, que conseguem atrair um grande público.
Grupo Magno de Teatro: A senhora acompanha as produções do cinema
nacional?
Eva: Faço torcida e procuro não perder nenhum filme. Acompanhei a
polêmica levantada por O que é isso, companheiro?. É um filme bom, com
alguns grandes deslizes. Um deles é a cena em que os terroristas seguem
os policiais-espiões pelas ruas próximas ao cativeiro do embaixador
americano. É primária, infantil. Acho também que é leviana a figura do
torturador que se sente culpado pelo que faz. Seria preciso revelar com
mais profundidade o contexto do personagem, explorar suas contradições,
para que ele fosse convincente. Do jeito que foi feito, é uma falha de
roteiro, de dramaturgia. Na minha opinião, filmes que souberam traduzir
aquele triste momento político do país continuam a ser Pra Frente
Brasil, de Roberto Farias, e Feliz Ano Velho, de Roberto Gervitz.
Grupo Magno de Teatro: A senhora enfrentou problemas com o regime
militar?
Eva: A repressão à liberdade de expressão foi uma barra. Em 1971, meu
ex-marido, John Herbert, e eu produzimos Os Rapazes da Banda, uma peça
que tratava a questão homossexual com humor e inteligência. No elenco,
estavam atores como Walmor Chagas, Raul Cortez, Denis Carvalho e Tony
Ramos. Foi um dos maiores êxitos da temporada paulista daquele ano, mas
a montagem foi proibida no segundo dia após sua estréia no Rio. Tudo
porque a mulher de um general se sentiu agredida pela temática da peça.
Tivemos de vender apartamento e carro para saldar dívidas da produção,
ficamos quebrados e nunca fomos indenizados pela arbitrariedade. Essas
histórias de violência precisam ser contadas para que nunca mais
aconteçam.
Grupo Magno de Teatro: Por que a senhora demorou a ir para a Rede Globo?
Eva: Provavelmente porque sempre estive muito envolvida com meu trabalho
teatral em São Paulo e tardei a perceber que a Tupi estava mesmo
afundando. Durante algum tempo, com o agravamento da situação financeira
da emissora, recebi meu salário com mais de dois meses de atraso. Era
uma situação difícil, mas contornável. O sinal vermelho só acendeu
quando vi que faltavam até fitas para novas gravações. Por falta de
material, chegaram a usar as fitas de Mulheres de Areia, apagando a
novela inteira.
Grupo Magno de Teatro: A senhora se considera rica?
Eva: Sim. Tenho saúde e uma família unida e carinhosa. Quanto à parte
material, pertenço à classe média alta. Em 1980, compramos um
apartamento de três quartos em um bom bairro de São Paulo. Temos um
caminhão, ano 1978, para transportar cenário, e cuidei da vida dos meus
pais até o final. Também tenho o privilégio de viver na ponte aérea e de
possuir um cantinho a duas quadras e meia da praia no Rio de Janeiro.
Isso é um luxo. Uma vez a cada dois anos, consigo viajar ao exterior
para assistir às boas peças em cartaz, ir a musicais e visitar museus.

Eva Wilma, Carlos Zara (seu grande
amor), no palco, atuando juntos
Grupo Magno de Teatro: No caso de uma atriz, submeter-se a uma cirurgia
plástica é mais do que uma questão de pura vaidade?
Eva: Acho a vaidade motivo suficiente, e não só para atores e atrizes.
Quem acha que tem alguma coisa que o incomoda tem todo o direito de
corrigir o problema. Às vezes, é até uma questão de auto-estima. Falo
daquele desejo de ficar com uma fisionomia mais agradável, não
necessariamente mais jovem. Na primeira vez em que fiz plástica, sofri
cobranças de todos os lados. Eu tinha 35 anos e comecei a sentir que
aquele narizinho ligeiramente adunco ficava um horror em determinados
ângulos. Eu parecia a bruxa da Branca de Neve. Depois disso, fiz uma
cirurgia na bochecha direita para corrigir a seqüela de um acidente. Há
mais de dez anos, me submeti a outras duas operações para segurar o que
estava caindo um pouco. Agora chega. Se não tiver mais jeito, o melhor é
assumir as imperfeições. Não dá para repuxar até deformar. É bom
aprender a conviver bem com todas as quedas.
Grupo Magno de Teatro: A ditadura da balança é forte entre os atores?
Eva: É fortíssima, inclusive porque, quando aparecem no vídeo, as
pessoas parecem ser mais gordas do que realmente são. Até as camareiras
da TV costumam dizer: "Nossa, como você está bem. Perdeu quantos
quilos?" Embora não deseje virar nenhuma dona balofa, recuso essa
esqualidez compulsória que martiriza tanta gente. Quero viver a vida,
ter o prazer de uma alimentação saudável e me manter em forma.
Grupo Magno de Teatro: O que é melhor para um ator: o teatro ou a
televisão?
Eva: Não existe nada que se compare ao que você sente quando está no
palco, no espaço cênico livre. É uma sensação e tanto receber a resposta
imediata do público, ainda que seja apenas um suspiro. Passados tantos
anos de carreira, aprendi também a ter um prazer solitário com o
exercício da minha profissão. Depois de preparar bem uma cena, gosto de
me surpreender com o que surge de dentro de mim espontaneamente, de uma
maneira não calculada. Esse sopro divino pode traduzir-se na forma de
uma gargalhada aos prantos ou de lágrimas que chegam ao riso aberto. É
indescritível.
Grupo Magno de Teatro: Agradecemos pela entrevista; ficamos muito
enriquecidos com suas respostas e encantados em conhecê-la. Obrigado.
Eva: Eu que é fico muito agradecida pelo nível de conhecimento do grupo
e de seus alunos; e, quando quiserem, contem comigo. Nasci para a
parceria.
Vocês é que foram muito encantadores.

Eva Wilma e Raul Cortez sendo
premiados
Agradecimento: Jornalismo Rádio Eldorado FM 92,7 MHZ.
Eva Wilma e a tietagem do grupo Magno dos pais, após entrevista no Masp
Próximas entrevistas:
FIQUE LIGADO!
Se existissem deusas, seriam uma... VERA FISCHER, estonteante, em pleno
ensaio de sua próxima montagem.
FERNANDO MEIRELLES e Kátia Lund, diretor e co-diretora do filme Cidade
de Deus, em entrevista na sua produtora O2, para delírio dos cinéfilos
alunos do teatro MAGNO.
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