Entrevista

Deborah Colker

 

O Teatro no Colégio Magno

 

Entrevista
Deborah Colker

A diversidade, a inquietação, não são uma marca do trabalho de Deborah Colker por acaso. Ela cursou Psicologia, foi jogadora de vôlei e estudou piano durante dez anos, dando vários concertos. A partir de 1980, Deborah dançou, coreografou e deu aulas durante oito anos no grupo Coringa, sob a direção de Graciela Figueroa.

Em 1984, convidada por Dina Sfat para coreografar os movimentos da peça "A Irresistível Aventura", com direção de Domingos de Oliveira, Deborah deu início ao que seria a vertente mais importante de sua carreira nos dez anos seguintes: diretora de movimento, uma expressão sugerida por Ulisses Cruz para definir seu trabalho. Como diretora de movimento, Deborah Colker trabalhou com os principais diretores e atores do país em espetáculos como "Escola de Bufões" de Moacyr Góes, "Macbeth" de Ulysses Cruz com Antônio Fagundes, "Sonhos de Uma Noite de Verão" de Werner Herzog, "A Serpente" de Antônio Abujamra e "Uma Noite na Lua" de João Falcão com Marco Nanini.

O momento de fundar a Companhia de Dança Deborah Colker chegou em 1994, quando recebeu o convite para participar do Carlton Dance Festival, depois que Monique Gardemberg assistiu a uma performance de seus alunos no Panorama da Dança RJ.



 

Deborah é também a coreógrafa de shows e videoclips de artistas como Fernanda Abreu, Kid Abelha, Fausto Fawcett, Legião Urbana e Adriana Calcanhoto. Por três anos consecutivos, coreografou a Comissão de Frente da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira. Em 1997, sua coreografia "Paixão" foi remontada para o Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, passando a fazer parte do repertório do Teatro.

O reconhecimento por seu trabalho também veio por meio de vários prêmios que recebeu, incluindo o "Prêmio Coca-Cola", "Prêmio Ministério da Cultura Troféu Mambembe", "Dez Mulheres de 1999" do Conselho Nacional da Mulher do Brasil /Academia Brasileira de Letras, "Personalidade do Ano" da Revista Bravo, Medalha do Mérito Artístico do Conselho Brasileiro da Dança, representante do Conseil International de La Danse (UNESCO).

Com o espetáculo MIX, Deborah Colker foi a primeira brasileira a ser agraciada com o prêmio Laurence Olivier, um dos mais prestigiados das artes cênicas em Londres. Deborah foi a vencedora da categoria "Outstanding Achievement in Dance”.

Criou os espetáculos :

. Vulcão – 1994;

.Velox e Mix – 1995;

. Rota – 1997;

.Casa – 1999;

 .4 por 4 – 2002;

.Nó – 2005;

. Dínamo – 2006. 

Recebeu o prêmio Laurence Olivier, das artes cênicas, em Londres, como Destaque em Dança, na edição 2001.

Após o espetáculo, juntamo-nos a diferentes grupos para conhecer esta talentosa artista. Segue entrevista com as idéias incríveis da genial Deborah Colker.

Grupo Magno de Teatro – Deborah, como você poderia definir dança, arte e forma de expressão?

"A dança é a arte da forma" Deborah Colker

 

GMT – Como é o processo de criação? Inspiração? Utilização de músicas?

D.C. – Trabalhamos com um espetáculo direto que busca entrar em contato com o público, como a idéia de um jogo, onde as duas partes têm que participar. A comunicação se dá através da emoção, da possibilidade de pensar o movimento, de falar sobre assuntos e poder traduzi-los para o movimento. A inspiração de nosso trabalho está em assuntos próximos de nossa vida cotidiana, em perguntas pessoais, turbulências, prazeres, satisfações, pensamentos que podem ser expressos através da dança. A comunicação se estabelece porque estamos falando com simplicidade. A ambição é a comunicação direta.

 

GMT – Como está a carreira internacional da companhia?

D.C. – Estamos participando do circuito de dança internacional, depois do reconhecimento através do prêmio Laurence Olivier, em 2001. Estamos levando o repertório completo da companhia para o exterior. Acabamos de chegar de Londres, e, depois dessa turnê pelo Brasil, nós voltamos para passar um mês, a convite do governo inglês para nos apresentarmos em algumas cidades do Reino Unido, em uma reunião de diretores de teatro e produtores de artes cênicas que gostariam de levar para suas cidades nossa produção. Depois vamos dançar em Cingapura, Áustria, Alemanha, China, não estamos só na Europa ou nas Américas, estamos começando a conquistar outros continentes.

GMT – Como é a preparação corporal da companhia?

D.C. – Fazemos aulas de ballet, dança contemporânea, yoga e musculação.

                            

GMT – Que corpo é este que você está construindo? O que ele pretende comunicar?

D.C. – É um corpo inteligente, saudável com propriedade para poder utilizar todas as possibilidades que ele tem, questionar a horizontal, vertical. Um corpo possível.

GMT – Como foi sua parceria?


D.C. –O espetáculo Nó teve sua estréia dentro do Festival Internacional de Dança Movimentos, que acontece durante 31 dias em Wolfsburg, a terra da Volkswagen. A produção é fruto de uma parceria entre a Companhia de Dança Deborah Colker e a cidade, tendo sido criada ao longo dos dois últimos anos.  

 

GMT – Como foi, em 4x4 (vasos espalhados pelo palco), o cenário e objetos cênicos?

    

 

D.C. – Depois dos vasos que a coreógrafa espalhou pelo palco em 4 por 4, trouxe um emaranhado de 120 cordas, manipuladas através de uma técnica que permite o controle da dor, do movimento e do prazer. O título remete às amarras do desejo, que ao mesmo tempo libertam e prendem.

 

GMT – Em relação a , uma co-produção da Companhia Deborah Colker com a cidade de Wolfsburg: quais paralelos você traça entre a dança contemporânea e a mobilidade proporcionada pelo automóvel? partiu desta associação? O espetáculo pode ser visto como uma releitura, pela linguagem da dança, da velocidade do mundo proporcionada pelo automóvel?

D.C. – Não. é um espetáculo inspirado no desejo. Bailarinos amarrados com cordas, corpos que se aprisionam e se libertam, movimentos inspirados em um cavalo, dançarinos entrelaçados, uma mulher presa pelos cabelos. No primeiro ato, os bailarinos se movimentam em meio a um emaranhado de 120 cordas. Cordas que dão nós e que simbolizam os laços afetivos que nos amarram. Cordas que servem para aprisionar, para puxar, para ligar, para libertar.


GMT – E as questões do espaço, como foi a modificação nos espetáculos? E no processo criativo?

D.C. – Mix traz questões novas da relação espaço/movimento como a questão da gravidade e da verticalidade; Rota traz musicalidade, a idéia de brincar com a seriedade e também através da roda, novas propostas entre espaço e movimento; em Casa eu trouxe a questão da arquitetura para a dança; em 4 por 4 as artes plásticas.   

Acho que esta afirmação é a mistura de todas essas idéias cujo centro é conectar o mundo contemporâneo com a dança contemporânea. No meu processo criativo, as idéias, o espaço e também a música (como já é para muitos coreógrafos) são determinantes na construção do meu imaginário coreográfico.

GMT – Uma jornalista alemã afirmou que você pode ser considerada “a coreógrafa mais interessante do presente, contanto que se entenda a dança não como uma forma acentuada das artes cênicas, mas, sim, como uma manifestação que mais se assemelha ao esporte ou à música”. O que você acha dessa observação?

 D.C. – Acho meio sem sentido ficar querendo determinar o que é dança ou não, o que é arte ou não, se um trabalho é atlético ou, como você mencionou, acrobático. Já houve um momento em que se perguntava se o trabalho da Pina Bausch era dança ou teatro, ou se um quadro de Pollock é apenas um borrão ou é arte, ou, ainda, se o trabalho do Damien Hirsch tem um valor estético.

Esta demarcação do meu trabalho – se é dança ou não, não contribui muito nem para mim nem para o espectador. O meu trabalho precisa ser instigante, surpreendente, inteligente, sensível, dinâmico, criativo e, de preferência, trazer novos pensamentos e novas questões para o mundo. Acredito que cada vez mais as artes estão se misturando, se integrando, e o que importa é se ela é capaz de comunicar se esta arte é boa.
 

GMT – Uma coreógrafa contemporânea, em todos os sentidos?

 

D.C. – Sou uma artista contemporânea, porque não preciso de rótulos e não os busco, porque não me importo com fronteiras e barreiras, porque eu as quebro.

GMT – O teu trabalho sempre dialogou com outras expressões artísticas, como, por exemplo, com as artes plásticas, em 4x4. Você busca isso na sua carreira ou acredita que esse diálogo é um movimento natural contemporâneo?

 

D.C. – Eu acho que é um movimento natural da arte contemporânea, uma necessidade de comunicação e mistura de linguagens, quanto à questão do rótulo de uma obra, se ela é dança teatro, ópera, música, acredito que seja uma preocupação que está ficando cada vez menor e, sim, uma preocupação maior no sentido do quanto esse trabalho é bom com relação ao que ele causa, o que ele modifica, quais perguntas ele traz e quais os pontos de interseção e identificação entre essas distintas atividades artísticas.
 

GMT – A cada espaço surge algo no seu processo de criação. Como é isso?

D.C. – Eu percebo que, a cada novo espaço que eu proponho, eu descubro novos movimentos, novas possibilidades de pensar o movimento. Então as coisas estão realmente interligadas. O espaço do movimento é um espaço que se constrói e se cria.

GMT – E esse que dá nome ao espetáculo, de que nó você está falando ou querendo trazer para o público?

D.C. – O nó é o do desejo. O tema central, a inspiração, o foco deste espetáculo é falar e pensar sobre o desejo, fazer emergir desejos muitas vezes secretos, trágicos, violentos, proibidos, como também desejos que estão mais ao alcance dos nossos olhos e da nossa consciência e talvez até mais delicados. Então, o nó de que eu estou falando é o nó do desejo, administrar essa intensidade de desejos tão grandes, nós nascemos seres desejantes, desde bebezinho. E administrar isso da infância para adolescência e até a idade adulta – tudo isso é um nó. O desejo é um nó que a gente ata e desata. E o desejo te aprisona e te liberta, te amarra e te solta te confunde e esclarece, por mais transparente que possa ser, é inatingível. O desejo, quando se alcança, se quer outro e outro...

GMT - Ouvir você falar é muito curioso, porque ver seu espetáculo é sempre ter um impacto visual muito grande. E eu sei que você fez Psicologia, e, falando sobre esse espetáculo, dá para perceber que, além do estético, tem uma preocupação que não é social, mas uma preocupação em questionar, discutir e debater também. Tem um limite entre o estético e o que é a sua preocupação com o conteúdo do espetáculo.

D.C. – Eu acho que essas duas preocupações existem, a necessidade da emoção, da percepção, da parte sensitiva de questões filosóficas muito importantes. Eu acredito que a estética que se vai concebendo, a parte visual, tem que interagir com o conteúdo. O grande amadurecimento do artista é este, o da forma carregada de intenção, emoção e conteúdo; quando tudo se transforma numa coisa só, quando o que você tem em cena visualmente e mesmo plasticamente com o que os bailarinos estão dançando, é o que precisa ser dito, nada mais, nada menos. E eu estou trabalhando para isso, para conseguir cada vez mais me comunicar simplesmente com o público, por mais complexo que seja aquilo do que você está falando, por mais sofisticado, você tem que se comunicar.

A síntese é muito importante. Por exemplo, eu me sinto feliz de ter encontrado um objeto como corda para falar sobre o desejo, porque corda é um objeto fetichista. É um objeto carregado de sentido, da idéia de liberdade, selvageria, movimento, leveza, pode se transformar em muitas coisas. E é um objeto erótico também, como a técnica do bondage, por exemplo. No eu consegui visualmente, emocionalmente e o conteúdo, tudo "amarrado".

GMT – Falamos em diálogos entre manifestações artísticas. Você trabalhou como coreógrafa de várias comissões de frente de escolas de samba, da Mangueira e até neste ano com a Viradouro. Há alguma diferença no processo de criação, de transportar o espaço da dança do palco para a avenida, o público é diferente, a comunicação é diferente?

D.C. – É, a comunicação é diferente e todo o público é diferente. Não dá nem para fazer um consenso do público no Brasil, dá para fazer um consenso do público no Reino Unido. Cada um dos públicos tem sua peculiaridade.

Com relação ao samba, o palco é um palco em movimento, é uma coreografia que se repete. Por exemplo, você passa por cinco jurados, você tem que repetir a mesma coisa para os cinco. Você tem certas regras, um tempo estabelecido que a escola tem para passar, e para começar, o carnaval é uma competição, a gente não pode esquecer disso. Eu não penso nisso, mas isso existe. Quando crio, quero fazer uma coisa que ninguém nunca tenha visto, de uma maneira que todo mundo fique sem respirar, e não tenho medo, não, eu faço do mesmo jeito que faço no João Caetano, no Barbican, para cem mil pessoas e para ser televisionado para o mundo inteiro.

Quanto ao tamanho, aquilo é uma grande ópera, você tem que pensar que estão na arquibancada e têm que entender o movimento que você está fazendo e pensar na dimensão, no tamanho, na quantidade de gente, na luz. Tem que pensar que pode chover, que aquilo está em movimento o tempo inteiro, que está ligado a um enredo, a um samba. Então, o conteúdo é o que está sendo dito e precisa ser compreendido. Eu acho que, na verdade, você se surpreender e surpreender o público tem alguns pontos em comum, mas é um desafio diferente, não é um desafio qualquer. O samba dura dois minutos e os integrantes da bateria tocam na adrenalina, às vezes vai mais rápido do que o samba que está ensaiado. Você faz uma ou outra diferença, porque o público é sempre diferente, então você pensa que é muito mais fácil do que fazer um espetáculo... porque dura dois minutos, mas se você tem três minutos para fazer uma coisa diferente para o jurado, você tem que ensaiar três meses.

GMT – Sabemos do sigilo que envolve as produções do Cirque Du Soleil, mas você vai dirigir o Cirque?
Parabéns!

D.C. – É incrível, após estar em cartaz no Rio com o espetáculo “Dínamo”, fui convidada pela trupe do Cirque du Soleil para dirigir um de seus próximos espetáculos, e devo logo viajar para Los Angeles para conferir o novo trabalho da companhia canadense, que é composto de músicas dos Beatles. Os primeiros detalhes de meu projeto com o Cirque serão acertados na viagem.
 

 

 


, coreografia de Deborah Colker

 

GMT – O que é fundamental para o seu sucesso?

D.C. – Sempre acreditei na criatividade e irreverência. A concentração, disciplina, formação e o foco são a base e a possibilidade criativa de qualquer indivíduo.

GMT – Foi um prazer podermos conhecer suas idéias. Parabéns e muito sucesso no Cirque du Soleil.

D.C. – Foi um prazer expor minhas idéias, o pessoal do grupo Magno de Teatro é muito bem informado e conhece bem minha trajetória. É muito legal conhecer jovens empolgantes e inteligentes. Um grande abraço e sorte para todos vocês.