Daniel Filho

 

    O Teatro no Colégio Magno

 

O nome de Daniel Filho é João Carlos Daniel. Nasceu a 30 de setembro de 1937, na cidade do Rio de Janeiro. Seu pai, Juan Daniel, começou sua carreira como bailarino, em Buenos Aires.

Era espanhol de Barcelona. A mãe, Maria Irma, era de família de circo. Daniel é a quinta ou sexta geração circense. E, como ocorre entre as pessoas de circo, eram todos parentes. Assim, temos a família de Piolin, de Misiara, de Bibi Ferreira e a de Daniel Filho. O primeiro filme de Oscarito era em dupla com um tio de Daniel. O casamento de seus pais foi meio escondido, tendo como padrinho o grande cantor Silvio Caldas. Juan Daniel, o pai, projetou-se como cantor, e foi dele o primeiro lançamento da famosa "Solamente una vez". Era a época dos cassinos e dos teatros de revista. Daniel, filho único, entrou no circo do pai. Estava com seis ou sete anos. Era o Circo Atlântico, que tinha picadeiro e palco. Entrava e ficava de ladinho, só para enrolar e desenrolar os tapetes. Depois já apareceu dentro de um caixote, de onde saía em uma determinada hora, para assustar o palhaço, com um pano branco na cabeça. Daniel gostava de fazer esse "fantasma" e era no circo que ele passava todos os seus dias. Era maquinista do teatro e conseguia montar toda a lona "numa pancada só". Também foi eletricista, ponto, fez de tudo. Assim mesmo deu para estudar, pois a família, isto é, os avós, moravam fixos no Rio, e ali ficava Daniel, pois os pais viajavam para os cassinos. Já mocinho, foi para o teatro de revista. Fez isso escondido dos pais, pois era fascinado por aquele mundo. Era tímido. Não davam certo suas "paqueras", embora estivesse ficando um rapaz muito bonito. Profissionalmente começou na companhia dos pais, em 1952, e já tinha feito várias peças quando foi convidado para a TV Tupi do Rio de Janeiro. Heloisa Helena, principal figura da televisão daquele tempo, e que era muito amiga de seus pais, foi quem o chamou. Ao mesmo tempo, Eva Todor o chamou para participar de "Aventuras de Eva". Continuou, porém, em teatro e fez o galã de "Maria Caxuxa", de Juracy Camargo. Estava lançado como "mocinho" de televisão e teatro. Foi para a TV Rio. Fazia sistematicamente as duas emissoras de televisão. Sua memória era muito boa. Participou também várias vezes do "Câmera um", de Jacy Campos. Logo fez sucesso e trabalhou em muitos programas ao mesmo tempo. Quanto mais trabalhava, mais cachê ganhava. Depois foi para São Paulo, para a TV Paulista. E era a "Ponte Aérea" toda semana. Era o tempo da televisão ao vivo, antes do vídeo-teipe. Havia uma grande união, uma grande amizade entre todos. Foi nessa mesmo época que Daniel Filho começou a fazer cinema, em filmes do Manga, do Ronaldo Lupo. Fez "Colégio de brotos", trabalhou com Zé Trindade. O rapaz estava em todas. Trabalhou com Tônia Carreiro, com Gildo Ribeiro. Seu grande sucesso foi "Os cafajestes", com o chamado Cinema Novo. Depois  "Boca de Ouro". Sobrava tempo, nem sabe como, para fazer inúmeras dublagens. Foi então para a TV Excelsior, Canal 9 em São Paulo, e 2 no Rio. Fazia programas de humor, cantando também. Foi quando se deu uma grande virada em sua vida e ele começou a dirigir, no programa de grande sucesso que se chamava "Time Square", onde trabalhava ao lado de Dorinha Duval, com quem depois se casou. Em São Paulo, passou a dirigir o "Chico Anysio Show". Isso sem deixar as novelas, como "A grande viagem", em que fazia o galã de Regina Duarte. Aí foi formado o Telecentro e Daniel ficou trabalhando ao lado de Boni, que viria a ser o grande homem da televisão. Quando o Boni foi para a Globo, Daniel Filho foi como diretor de "A Rainha Louca", de Gloria Magadan. Dirigia simultaneamente duas novelas, uma com o nome trocado, para não parecer que o cast da Globo era fraco. Dirigiu "Sangue e areia". Foi ele quem levou Janete Clair para a Globo. Ela fez a novela "Anastácia", na qual houve o "famoso terremoto" em que ela matou todo mundo. Nisso, por pequeno desentendimento com Boni, Daniel foi para a TV Rio. Voltou seis meses depois. E nessa época a TV Globo de São Paulo pegou fogo e tudo foi transferido para o Rio. Daniel dirigia simultaneamente "Rosa Rebelde" e "A cabana do Pai Tomás". Fez "Irmãos Coragem", dirigiu "O primeiro baile" e inúmeras outras novelas, como: "Pecado Capital", "O Astro", "Dancin’ Days". Foi ele também quem mais fez "séries brasileiras",  como: "Malu Mulher",  "Plantão de Polícia", "Carga Pesada", "Confissões de Adolescente", "A Justiceira", "Mulher". Todas séries de imenso sucesso, sem contar "Grande Sertões Veredas", que ele dirigiu ao lado de Walter Avancini. Trabalhou ainda como ator em mais de vinte filmes, e na Globo ajudou a criar a Globo Filmes. Esse é Daniel Filho. Um homem inteiramente ligado à arte, desde a mais tenra idade, e que até hoje dedica toda a sua vida à sua profissão. Ele tem orgulho de dizer que a Globo, onde é o Diretor de Programação, faz um trabalho sério, cumprindo seu dever junto à população. Daniel Filho casou-se quatro vezes e se dá maravilhosamente bem com seus filhos, assim como também é muito amigo de suas ex-mulheres. Sua mais forte marca é  o orgulho de ser um homem de televisão. Quando perguntado acerca de quem ele é, responde rápido: "Sou um ser de televisão, que é uma coisa da máxima importância, e que hoje é respeitada internacionalmente. Esse era o meu sonho de menino. Esse é o meu orgulho como ser humano. Eu ajudei a fazer a televisão".

Em uma “ disputada entrevista “ de seu último filme, “ A Partilha”, conseguimos ouvir, perguntar e refletir com as idéias deste genial ator, diretor e ícone da televisão.  


Nome completo: João Carlos Daniel

Nome Artístico: Daniel Filho
Aniversário: 30/09

Signo: Libra
Local de Nascimento: Rio de Janeiro (RJ)

 TRABALHOS NA TV

Ator

Pecado capital
A justiceira
Rainha da sucata - Renato Maia
Que rei sou eu? - Bergeron
Vale tudo - Rubinho
Parabéns pra você - Mendonça
Espelho mágico - João Gabriel
A rainha louca

A grande viagem - Dr. Renato

 Diretor
Suave veneno
Mulher
A justiceira
Confissões de adolescente
O primo Basílio
Quem ama não mata
Brilhante
Plantão de polícia
Malu Mulher
Dancin' days
O astro
Espelho mágico
Duas vidas
O casarão
Pecado capital
Selva de pedra
O homem que deve morrer
Irmãos Coragem
Véu de noiva
A cabana do Pai Tomás
Rosa rebelde
Acorrentados
A gata de vison
Sangue e areia
Demian, o justiceiro

A rainha louca

 Diretor geral
Brilhante
Dancin' days
O astro
Duas vidas
O casarão
Irmãos Coragem 

Participação especial
Dancin' days

 Produtor

A invenção do Brasil
O auto da Compadecida
Mulher
O primo Basílio
A muralha

 Supervisor de direção

Escalada
O rebu
Corrida do ouro
O espigão
Carinhoso
A patota
Minha doce namorada

 

Durante esta coletiva de lançamento de seu mais novo filme, A Partilha, o diretor Daniel Filho estava descontraído e animado. Seu longa traz nos papéis principais quatro estrelas globais: Andrea Beltrão, Glória Pires, Lília Cabral e Paloma Duarte.

A Partilha chegou às telas oito anos depois do sucesso da peça, dirigida por Miguel Fallabela. Na época, Daniel quis adaptá-la, mas acabou desistindo por causa do panorama do cinema nacional, e só há dois anos começou a reavivar o projeto, através do incentivo da Globo Filmes e das Leis do Audiovisual e Rouanet.

Segundo o diretor, um dos pontos que ele tentou conservar do teatro foi a estrutura dramática das personagens, mesmo que o gênero predominante fosse a comédia. Para isso, optou por atrizes que tivessem o ritmo do humor, que, segundo ele, é mais difícil. "Quem tem a veia da cômica passeia pelo drama."

Daniel conta que não foi fácil captar investimentos para o filme. Segundo o diretor, mesmo tendo seu nome à frente da produção e um elenco de primeira, os patrocínios não apareceram. "Eu achei que tinha essa bola toda. Mas não foi nada como eu imaginei. Há três dias do término das filmagens, eu não tinha dinheiro para a finalização".

"Essas leis são confusas. Eu não entendo muito bem os benefícios que elas trazem. Na verdade, são muito burocráticas. A Globo Filmes ajudou na captação e na administração do filme. Foi ela quem buscou as empresas para a captação de investimentos, mas não conseguimos quase nada. Foi tudo muito difícil, mesmo tendo atrizes de peso."

Embora a trajetória de Daniel Filho misture-se com a história da TV no Brasil, da qual tornou-se um dos mais consagrados e premiados diretores, ele tem também um importante percurso cinematográfico, como ator e como diretor.

Cinéfilo assumido "desde que abriu os olhos", Daniel Filho assinou cinco filmes como diretor: Pobre Príncipe Encantado (1968), O Impossível Acontece (1969), A Cama ao Alcance de Todos (1969), O casal (1975, que lançou a dupla romântica Sônia Braga e José Wilker, depois repetida em Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Bruno Barreto) e O Cangaceiro Trapalhão (1983).

Como produtor e diretor independente de TV de 1991 a 1996, Daniel Filho foi o primeiro a filmar um seriado em película (Confissões de Adolescente). De volta à TV Globo, continuou a experiência com A Vida Como Ela É e A Justiceira (que lhe renderam o prêmio de melhor diretor pela Associação Paulista dos Críticos de Arte / APCA em 1996 e 1997 e o Prêmio Ondas 97), prosseguindo com Mulher, Luna Caliente e O Auto da Compadecida, de Guel Arraes, que, ao chegar aos cinemas, transformou-se no primeiro filme brasileiro a cruzar a barreira dos 2 milhões de espectadores em dez anos.

Diretor artístico da Globo Filmes, da qual foi um dos fundadores, e da Central Globo de Criação, Daniel Filho é um grande entusiasta da produção em película, tendo se associado como produtor aos seis filmes realizados pela Globo Filmes - Orfeu (1998); Simão, o Fantasma Trapalhão (1998); Zoando na TV (1998); O Trapalhão e a Luz Azul (1999) e O Auto da Compadecida (2000).

 

 

Grupo Magno de Teatro: Daniel, em primeiro lugar, gostaríamos de agradecer pela entrada do Grupo Magno de Teatro nesta coletiva. Aqui está o nosso folder e aí vai a nossa primeira pergunta.

Há dez anos, logo depois de assistir à peça A Partilha, você assegurou os direitos de filmagem. A que você atribui esse entusiasmo tão imediato?

Daniel Filho: É muito difícil achar no Brasil uma história tão boa e tão clara como era a peça do Falabella. Fiquei cativado pela história que estou contando no filme e também pela estrutura dramática da peça, uma das melhores que já vi. O subtexto das personagens vinha cheio de referências – a filhos, maridos, ao corretor de imóveis – e já me propunha um roteiro. Sem falar de que fiquei imediatamente cativado por aquelas mulheres. Ao longo da minha vida, quando penso que estou contando uma nova história, sou traído por mim mesmo e me pego contando a mesma história, como já dizia Glauber Rocha. Isso acontece desde Malu Mulher, passou por Mulher, Confissões de Adolescente, Quem Ama Não Mata, Primo Basílio, Justiceira, e agora volta com A Partilha. Gosto da psicologia feminina e tenho a sorte de ter muitas amigas mulheres. Acho que consigo entender a alma feminina sem ser de uma forma satírica, como o Almodóvar.

GMT: Que aspectos do universo feminino retratado em A Partilha você achou mais interessantes e quis levar para a tela?

Daniel Filho: Em primeiro lugar, fiquei cativado pela mulher urbana, pela mulher comum tão bem abordada no texto. As quatro irmãs vivem histórias muito próximas de mim e, acredito, de todo mundo – histórias de casamento, de família, de irmãos, mãe, pai, separação. São dramas ou comédias da vida cotidiana que eu identifico também quando faço Nelson Rodrigues, um autor que adoro. Por conter ao mesmo tempo elementos de drama e comédia, fica difícil definir o gênero de A Partilha, mas gostei do que disse Cláudio Torres, que o filme era do tipo "vem rir que eu te faço chorar".

GMT: Na elaboração do roteiro, as quatro irmãs tiveram o mesmo peso?

Daniel Filho: Quando comecei a trabalhar no filme, vi que a personagem que mais me atraiu foi a Selma (Glória Pires), a dona-de-casa. Agora, depois do filme pronto, parece que voltei a falar da Malu outra vez. A Selma é a anti-heroína por excelência, a dona-de-casa absolutamente comum, que depois de 15, 16 anos de casada, vive deprimida em sua vida monótona e está certa de que em algum lugar está acontecendo uma festa maravilhosa da qual não está participando. De um modo geral, pessoas como a Selma são vistas como quadradas, antiquadas, bobas. Para mim, no entanto, elas são as grandes heroínas – a famosa dona-de-casa comum.

GMT: E o que essa dona-de-casa comum faz de tão extraordinário?

Daniel Filho: Ela faz tudo. Ela é a nossa mãe, a nossa companheira, a nossa amiga. No caso de A Partilha, as outras personagens, que parecem tão fascinantes, dificilmente seriam escolhidas como companheiras: uma quer viajar, viver suas aventuras; a outra é independente, vive sozinha; a terceira é uma intelectual. São todas muito interessantes, mas não seriam a companheira. Na peça, a personagem da Selma aparecia menos que as irmãs, mais divertidas e engraçadas, e defendidas por atrizes brilhantes, como Arlete Salles e Suzana Vieira. No filme, a Selma passa a personagem principal, embora as outras três também sejam muito importantes, até pela relação que desenvolvem.

GMT: Quando você garantiu os direitos de filmagem, imaginou que levaria dez anos para realizar o projeto?

Daniel Filho: Não. Ao deixar a TV Globo, em 91, comprei algumas histórias e preparei projetos para cinema e TV. Achava que podia sair da TV e encontrar um mercado aberto para novos produtos. Produzi Confissões de Adolescente – o primeiro programa de TV filmado em película, e tentei viabilizar A Partilha. Eu e o Miguel Falabella fizemos um primeiro tratamento e fui para os Estados Unidos trabalhar com um americano. Pensamos em fazer A Partilha em inglês, com a Amy Irving, que faria a Selma, e a Marsha Mason (faria a Lúcia), mas não consegui tocar o projeto. Retraduzimos o roteiro para o português e deixei A Partilha encostada. De vez em quando, a idéia me voltava, embora de três, quatro anos para cá, achasse que o filme não sairia mais. Só retomei o texto no início de 2000.

GMT: E a emoção original voltou?

Daniel Filho: Quando retomei o roteiro, temia que o filme estivesse superado e que a história tivesse dançado. Achei que algumas coisas precisavam de uma mexida e chamei o João Emanuel Carneiro, roteirista de Central do Brasil. Contei outra vez a história do filme que eu queria fazer, falei da Selma como personagem central. Ele ouviu, fez algumas propostas que resultaram na versão que está agora na tela. Nisso tudo, a relação com o Falabella foi excelente. Quem o conhece, sabe que ele faz mil coisas ao mesmo tempo e não pára. Realizamos um trabalho muito próximo na primeira versão e continuamos em contato nas versões seguintes. Quando enviei a versão final, ele me disse: "Daniel, eu estive pensando, o filme é teu, a peça é que é minha”.

GMT: A peça se passava basicamente em uma sala de apartamento e se fechava nas quatro irmãs. Como foi a abertura para o Rio de Janeiro e também para outros personagens e situações?

Daniel Filho: Acho que A Partilha poderia ocorrer em qualquer cidade, mas o Rio de Janeiro está de tal forma incorporado à minha vida, que nem preciso pensar; a cidade sai pelos poros. A preocupação de abrir para outros personagens esteve presente desde o início. Já na primeira versão, o Miguel criou a Bá Toinha – que cuidou da mãe e ajudou a criar as quatro irmãs. Depois fomos atrás dos maridos e dos filhos. Não cometemos nenhuma traição ao original, apenas representamos personagens e histórias mencionadas pelas personagens. Nossa única mudança foi em relação à namorada da Laura (Paloma Duarte), morta na peça, mas viva no filme. Além disso, eu achava que alguém deveria despertar um interesse romântico na Selma, que estava muito fragilizada, e por isso facilmente apaixonável. Na primeira versão, o roteirista americano chegou a propor que essa possibilidade romântica viesse do agente funerário, mas eu disse: "Olha, não dá. Pode ser que nos Estados Unidos as pessoas achem divertido, mas no Brasil ninguém vai achar engraçado". Decidimos que o corretor (Marcello Antony) desempenharia este papel.

GMT: A música de Dancin'Days é uma homenagem a essa longa história com a Glória?

Daniel Filho: Até o ano passado havia uma discussão se eu utilizaria o elenco original. Concluí que não, porque estaria fazendo uma coisa anacrônica. Se elas se lembrassem da juventude e dançassem o hully-gully, como na peça, não estaríamos falando de mulheres de 40 anos, com filhos adolescentes, mas de mulheres mais velhas, com outras histórias. Queríamos um filme contemporâneo e não de época. Refiz as idades das personagens, e quando voltei à adolescência da Selma, caí em 1978, quando a Glória tinha 14, 15 anos e fazia Dancin' Days. Se eu tivesse feito o filme há dez anos, teria escolhido uma música do final dos anos 60.

GMT: Como foi o trabalho com as atrizes? Houve algum confronto de egos?

Daniel Filho: De forma nenhuma. Tivemos três semanas de ensaios intensos e completos. O filme, com todas as suas cenas, foi inteiramente ensaiado e marcado em todos os seus detalhes – diálogos, emoção, ritmo, movimentação, expressão corporal, posição e movimentos de câmera. Ao final dos ensaios, elas eram capazes de fazer o filme inteiro, de ponta a ponta, como se fosse uma peça. O período de ensaios serviu também para uma grande aproximação entre elas. A Glória e a Andrea são atrizes mais experientes, mas o filme é o primeiro longa da Lilia, e o segundo da Paloma. Antes de começar a filmar, temi que a minha emoção com o texto, depois de tanto tempo, não existiria mais, e pensei em chamar outro diretor. Mas devo dizer que aprendi muito com as atrizes e que a nossa troca foi fantasticamente estimulante. Como são brilhantes, inteligentes, perseverantes, estudiosas! Elas trabalharam muito, foram abertas, corajosas, carinhosas, e assistir à troca que aconteceu entre elas foi muito bonito e emocionante.

GMT: Na escolha das atrizes, era fundamental que elas pudessem jogar no drama e na comédia?

Daniel Filho: Sem dúvida – e este foi o nosso maior desafio. Acho que a nossa história, a nossa herança, o que sabemos fazer bem, são chanchadas e melodramas – essa é a nossa praia. Não somos policialescos, não somos intelectuais. E A Partilha contém esses dois aspectos. Às vezes, acho que o filme é uma chanchada, numa boa, de um jeito legal. Ela entra sem você notar, aproximando o espectador daqueles personagens de uma forma muito direta. E no final, ocorre uma situação próxima do Vaudeville, proposta pelo João Emanuel. Mas o filme tem também uma estrutura dramática bem armada, e essas situações fluem com naturalidade.

GMT: Você tem uma vasta experiência de direção para a TV. Como foi voltar a filmar para a tela grande, para o cinema?

Daniel Filho: Não mudou nada para mim. Não teve pompa e eu não tenho preconceitos. Fiz vários produtos para TV filmados em película, e a única mudança no caso de A Partilha foi ter filmado, pela primeira vez, em cinemascope com a lente 2:35, que tem uma coisa curiosa: ela tira o chão e tira o teto, permitindo um tipo de enquadramento com muito mais gente em cena. Depois que se pega o jeito, fica bonito. Quando essa lente surgiu, Fritz Lang dizia que só servia para filmar cobra ou trem passando. Chamei o Euclydes Marinho, produtor associado, para fazer no meu filme o que eu faço no filme dos outros: dar palpites. Devido ao detalhamento dos ensaios, tivemos um excelente aproveitamento de um por um, ou seja, do primeiro take de cada plano. Como Cláudio Torres observou, A Partilha não é um filme televisivo ou teatral, e sim um dos poucos filmes brasileiros que usa as quatro paredes, e o espectador sente essas quatro paredes o tempo inteiro. Ele não se sente uma terceira parede, e sim no meio do filme.

GMT: Como foi a escolha das atrizes que interpretaram as quatro irmãs?

Daniel Filho: A chegada a esse elenco foi um longo caminho, resultado de muitas possibilidades e coincidências. A única atriz que nunca foi mexida foi a Glória Pires. Falei com ela há dois anos – quando fazíamos Suave Veneno. A Glória é uma atriz excepcional, uma fera, e nós temos uma história de vida. Ela diz que eu a traumatizei quando vetei sua participação, aos seis anos, na novela Meu primeiro amor, mas a aprovei em sua estréia na TV, quando ela tinha sete anos, em Selva de Pedra. E a dirigi no papel que a consagrou em Dancin' Days. A Paloma é uma atriz jovem extraordinária. A Lilia Cabral é absolutamente especial, muito engraçada, e a Andrea Beltrão, a última a chegar ao elenco, é simplesmente uma grande estrela. Várias atrizes fizeram a leitura do roteiro, mas a sorte me conduziu para o elenco que está aí. E posso adiantar que a Glória Pires vai surpreender como comediante.

GMT: Como foi a sua relação com o diretor de fotografia Felix Monti?

Daniel Filho: Uma descoberta. Ele foi fundamental para que eu conseguisse filmar na velocidade que pretendia. Primeiro, porque ele seguiu à risca o que eu disse antes de começar a rodar: "A Partilha é um filme de mulher e eu quero tê-las bonitas". E não há um plano em que elas não estejam absolutamente lindas, levando em conta as características de cada uma. Eu filmo rápido, mas pela primeira vez eu tive um diretor de fotografia que não pedia "um minuto para mim". A iluminação dele é rápida, precisa, segura, e ele estava sempre pronto antes de mim. Filmamos em cinco semanas.

GMT: Um longa em cinco semanas não é pouco tempo? Não teve estresse de filmagem?

Daniel Filho: O melhor de tudo foi ter tido a sensação de não estar fazendo um filme. Eu estava absolutamente relaxado para poder ouvir. Eu sabia muito bem o filme que queria fazer, mas queria também ouvir contribuições das atrizes e da equipe técnica. A Partilha foi um filme de muitas somas, como a do diretor de arte Marcos Flaksman, da figurinista Marília Carneiro, da maquiadora Juliana, da Tiza na produção de arte. Depois do primeiro corte, mostrei o filme para muita gente, sem a minha presença, para que pessoas pudessem discutir entre si e depois comentar comigo, o que contribuiu para outras mudanças. Fiquei muito feliz com tantas somas.

GMT: Principalmente depois de O Auto da Compadecida, discute-se muito as fronteiras entre cinema e TV. Você ficou preocupado que A Partilha pudesse ficar com jeito de produto de TV?

Daniel Filho: Graças a Deus, não. Para tocar jazz, você não pode pensar. Tem que deixar fluir a música no momento que ela pinta pura dentro de você. Se pensar no instrumento, vai tocar mal.

Acho que consegui fazer isso – deixei fluir –, mas em cima de um trabalho anterior, de uma rigorosa decupagem, que não veio de fora para dentro, mas sim de dentro para fora.

GMT: Qual a sua expectativa com a chegada de A Partilha aos cinemas?

Daniel Filho: As mulheres de A Partilha me comovem muito. Em momentos diferentes da vida já fui todas elas. Acredito que a maioria das mulheres conhece ou viveu as situações e sentimentos dessas quatro irmãs. Temos a dona-de-casa convencional, a mulher que abandonou o filho e foi viver a sua vida, e quando volta é rejeitada, ou a que vive sozinha, passa uma noite com alguém que no dia seguinte dá um beijinho e vai embora. E mesmo quem não é homossexual pode passar por períodos de rejeição e sentimento de exclusão. Acho que essas quatro mulheres falam de uma mulher e de todas as mulheres ao mesmo tempo. Espero que o filme tenha a mesma comunicação e emoção da peça do Miguel, e que eu tenha conseguido acrescentar alguma coisa a vidas tão comuns, mas que não são fáceis de viver.

GMT: Gostaríamos de agradecer por esta entrevista e esperamos você para assistir a alguma de nossas montagens deste ano. Obrigado.

Daniel Filho: Foi um prazer atendê-los. Vocês todos são muito simpáticos. Desejo muito sucesso ao Magno e toda sua gente. Só este estudo que vocês fizeram da minha obra já achei genial e é ótimo ser abordado por um grupo altamente culto e bem informado. Sucesso a todos vocês.

 

 

    

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