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A
fama de autoritário do diretor de teatro Antunes Filho, 73 anos, já
percorreu o Brasil, mas nada melhor que uma espiadela em uma aula
ministrada por ele no Centro de Pesquisa Teatral (CPT), coordenado por
ele, para ver que há muito de exagero e alguma verdade na afirmação. Não
que ele seja amável. Mas, das suas exigências, vêm à tona toda paixão
pelo teatro de um dos maiores encenadores brasileiros.
Desde moleque de rua Zequinha, que segundo ele, 'apanhava e desobedecia
sempre'.
Sofreu influências dos diretores Ziembinski, Osmar Cruz e até de Bob
Wilson no seu trabalho, na paixão pelo cinema e no trauma de atuar.
- Não posso dizer que Bob Wilson não me influenciou. Ele mostrou que eu
queria fazer outra coisa, lidar com tempo e espaço de outra forma - diz
ele.
- Aprendi muito com Ziembinski e Osmar Cruz, mas não valorizei
corretamente. Não pude repor o tanto que me deram - afirmou.
Outra curiosidade é a que Antunes admite ter verdadeira fobia de subir
ao palco, o que o fez abandonar um espetáculo no início da carreira,
dirigido por Osmar Cruz.
- Estar no palco para mim é traumático - diz.
Formou inúmeros quilates do nosso cenário teatral como Raul Cortez ,
Laura Cardoso , Stênio Garcia , Luis Melo, Cacá Carvalho e Giulia Gam.
Aprendizes eternos também deste mestre sabemos que os seus melhores
momentos acontecem quando Antunes dirige ou expõe toda sua autoridade e
paixão nas aulas do CPT.
- Não quero que vocês (os alunos) se ilustrem, quero que vocês se
transformem. É como dar um mergulho na piscina e ter que chegar até o
fundo para conseguir impulso para subir de novo - diz o mestre para seus
alunos.
Dessa forma, O Grupo Magno de Teatro teve a preocupação em fazer com que
seus alunos conhecessem e fizessem um curto estágio com o mestre
irretocável do teatro e expuséssemos suas idéias , sobre a nossa paixão
incomum: O TEATRO.
Como arte é cultura e ele é sem dúvida um dos maiores diretores teatrais
do mundo, segue abaixo a essência do conhecimento; enfim: Antunes Filho.
GMT - Existe uma forte ligação e paixão declarada sua ao cinema. Você já
fez algum curso ou algo assim ?
Antunes – Sim. Fiz um curso .Foi lá que eu vi pela primeira vez a "Joana
D'Arc" do Dreyer. Fiquei maluco. Eu falei: "Não agüento. O que se pode
fazer". Eu chorava, não acreditava naquele tipo de imagem. E trabalhava
já o loucão, como é que chama?
GMT - Artaud.
Antunes - Artaud trabalhava no filme. Foi uma época legal. Eu
freqüentava todas as companhias estrangeiras que vinham a São Paulo.
Passava muita companhia de balé, teatro. E tinha um cara no Teatro
Municipal, que até hoje está lá, que deixava a gente entrar. Eu nunca
gastei um tostão para entrar em teatro. Eram todos os balés, teatro, a
companhia do Cocteau, todos os espetáculos do Barrault, Batiste.
GMT - A sua obra deu um grande salto com "Macunaíma". O que iniciou o
projeto?
Antunes - Eu olhei para o espelho em determinado momento, fazendo teatro
comercial, e falei: "Não, eu tenho que ir mais fundo". Foi aí que
começou. Eu larguei tudo. Foi um corte bruto.
GMT - Mas depois veio um período longo de preparação.
Antunes - Um ano, um ano e dois meses. Começou em 77, estreou em 78.
GMT - O que fez você se interessar por um texto que não era original de
teatro? O que havia em Mário de Andrade?
Antunes - Eu fazia um teatro comercial, um teatro show business, e de
vez em quando eu fazia umas incursões num outro tipo de teatro, como foi
a "Vereda da Salvação", como foi "Peer Gynt".
GMT - "Yerma."
Antunes - "Yerma." De vez em quando eu entrava por um caminho, que foi
sempre o caminho do meu coração, em que eu queria dizer uma coisa a
mais. Eu vejo muito paralelo, aliás, entre "Peer Gynt" e "Macunaíma". Se
eu não tivesse feito "Peer Gynt", talvez não tivesse chegado ao
"Macunaíma". Aquela aventura, que vai de uma coisa para outra. Eu fazia
corretamente um teatro comercial, mas não estava contente. Isso desde
moleque. Eu, quando tinha 17 anos, eu tinha uma revista literária com os
amigos e já escrevia uns contos surrealistas. Eu sempre tive um outro
lance. Duas coisas foram fundamentais. Desde menino, minha mãe me levava
para ver teatro. Mas para ver teatro assim mais comercial, Beatriz
Costa, Vicente Celestino. Uma vez a cada três meses ela me levava, aos
domingos, ao antigo Cassino Antártica. Depois, a gente achou uma
permanente do circo e ia todo domingo, ver os dramas. Isso eu era
menino. Já no colégio, a gente fez a revista literária. E depois eu
conheci todo esse pessoal do Museu de Arte Moderna, da cinemateca, onde
eu fiz um curso com o (Alberto) Cavalcanti, o Ruggero Jacobbi, esse
pessoal todinho, ali na ladeira da Memória. Então, eu fazia um teatro
comercial que era legal e tudo, mas...
GMT - Você ganhava muito dinheiro naquela época?
Antunes - Que profissão. O teatro nunca foi profissão, nunca deu
dinheiro. É que nem futebol. A gente fazia por amor mesmo. E era
comercial, mas eu dava um jeitinho de ter uma outra aura lá dentro. Os
meus espetáculos ditos comerciais sempre tinham uma coisa a mais. Não
ficavam numa eficiência tola. Havia já uma espiritualidade pingando, uma
goteira. Quando eu fiz o "Macunaíma", era uma atitude que eu tomava, de
não fazer mais aquele tipo de teatro. No "Macunaíma", eu falei assim:
"Não consigo olhar para mim, eu não me gosto". Era muito triste fazer
aquele tipo de teatro. Fazia sucesso, até, mas não era a minha. E com
essa influência toda... No Museu de Arte Moderna, eu convivia com o
Volpi, com o Marcelo Grassmann, até hoje sou amigo.
GMT - Maria Bonomi.
Antunes - Maria Bonomi eu até casei, não é? (ri). Foi por aí que eu a
conheci. Mas eu era amigo de todos. A gente ficava sempre no bar lá do
museu, o Lima Barreto, o Delmiro Gonçalves, Paulo Emilio Salles Gomes, o
Lourival Gomes Machado.
GMT - Há uma presença muito grande do cinema na sua carreira. Você fez
um filme. Até o seu teatro você iniciou como imagem, teleteatro.
Antunes - Um dos primeiros filmes do Bergman, eu nem sabia que era dele,
eu fui ver, era "Törst" ("Sede de Paixões", 1949). Fiquei louco com o
filme. E esse filme eu só fui saber muitos anos depois que era do
Bergman. Eu adoro cinema.
"Macunaíma" tinha um...
... arranque.
GMT - Um arranque. Você rompeu com todos os atores tradicionais. Era um
grupo de gente desconhecida. Você já estava plantando o seu método?
Antunes - Não. Mas, para poder realizar certas coisas de maneira não
convencional, eu precisava começar um tipo de exercício. Não era "vamos
fazer um método". Era "como é que se vai conseguir tirar o ator
almofadinha?". Eu precisei ir fundo, para poder funcionar. Já na
"Vereda", em 64, o legal foi que o Jorge Andrade, um grande amigo que eu
tive, topou a parada de fazer a coisa daquele jeito. Ele até estimulava.
Quando estreou, foi um escândalo. Naquele tempo tinha escândalo. E isso
foi antes das coisas de 68, das coisas da Europa. Era uma coisa
intuitiva, que eu tenho, de que faço e não sei por quê. Depois de alguns
anos: "Ah, foi por isso". Eu nunca sei porque faço as coisas.
Qual é a herança de "Macunaíma", hoje? Tem o trabalho plástico,
inovador, que era usar material...
... pobre. Sem ser teatro pobre, pelo amor de Deus!
GMT - Tinha um método novo, que você está dizendo que não sabia o que
era.
Antunes - Método que já tinha começado na "Vereda", de colocar em
situação o ator, para ver o que pintava. Improvisar milhares de horas.
GMT - E tinha a coisa literária, de ser um romance.
Antunes - E uma obra literária que ninguém entendia. Todo mundo falava,
no colégio, mas era só citação. O que eu acho legal, no "Macunaíma", é
que eu consegui decodificar para o público, sem fazer concessão. Eu
procurei fazer com que se entendesse a obra. Isso eu achei legal, esse
serviço que eu fiz, de facilitar a leitura. Tornar popular, sem
vulgarizar a obra. Eu não quero banalizar a obra. Nunca. O meu trabalho
é esse, mesmo quando eu corto o Nelson Rodrigues.
GMT - Quem adaptou o texto de "Macunaíma"?
Antunes - Tudo começou com cenas improvisadas. "Dou um capítulo para
você, um capítulo para você, pega uns caras aí, umas mulheres, improvisa
a cena, improvisa, improvisa."
GMT - Foram atores com quem você fez teste?
Antunes - É, Isa Kopelman.
GMT - Cacá Carvalho?
Antunes - O Cacá também.
GMT - Mas você fez teste?
Antunes - Fiz muito teste. O Cacá entrou no palco, fez 30 segundos, eu
falei: "Olha, você é o Macunaíma, pode sentar". Era para ele voltar no
dia seguinte lá para a terra dele e, quando recebeu esse convite, ele
ficou. Eu queria que o Stênio (Garcia) fizesse, ele tinha feito Peer
Gynt, mas na época ele já estava com uns negócios, televisão.
GMT - Esse grupo ficou com você durante um ano?
Antunes - É, ficamos brincando lá no teatro São Pedro. A turma não tinha
dinheiro, se virava de tudo que é jeito. A gente ocupou o espaço.
Queriam tirar da gente o teatro São Pedro, e a gente falou: "A gente não
sai, o teatro é nosso agora". Queriam colocar shows. "Ah, chega de
shows, o teatro é nosso." Aí eles entenderam e deixaram a gente ficar. E
estreamos.
GMT - E a construção do texto?
Antunes - "Você vai fazendo, improvisa dentro daquilo que está escrito."
Aí alguém escrevia. A gente avançou assim, cena por cena. Quando juntou
mais ou menos tudo, dava seis horas de espetáculo. Aí a gente chamou o
homem que estava vertendo para o francês, Jacques Thiériot. "Fica ali na
mesinha escrevendo", outro ficava fazendo a cena, e foi assim. Foi assim
que foi criado, na base da improvisação o tempo todo. E depois eu
precisava armar também as cenas, para dar o fluxo. Eu dava, aí ele
pegava e colocava dentro das especificações solicitadas pelo senhor
Mário de Andrade.
GMT - Por que você se interessou por "Macunaíma"?
Antunes - A idéia do "Macunaíma" sabe quem deu? Foi o próprio Jacques
Thiériot, na mesa do Gigetto (restaurante em São Paulo). Foi aí que eu
fui pegar. Eu peguei e li.
GMT - E o que você viu em "Macunaíma"? Você já viu alguma relação com "Peer
Gynt"?
Antunes - Não, nenhuma. O "Peer Gynt"... Eu gosto muito do Ibsen, me
encanta. É um dos autores de que eu mais gosto. Eu até fiz na televisão.
Eu adoro os personagens. São visionários, são proféticos, tudo maluco. O
Macunaíma me encanta, também, se não o senso de... O Mário de Andrade,
ele se inspirou no Oswald de Andrade. Tanto é que tem passagens da vida
do Oswald que ele coloca como Macunaíma.
GMT - Você acha que o próprio Macunaíma tem algo de Oswald de Andrade?
Antunes - Eu não posso falar "tenho certeza", porque aí vem o pessoal lá
da USP criticar, mas tem coisas da vida do Oswald que ele tenta colocar.
Sabe aquelas coisas meio levianas do Oswald de Andrade? Ele coloca tudo
no Macunaíma. Que não é o mau-caráter. É o sem-caráter, que não tem
memória. Ele vai em frente. Ele está indo para cá, vê um negócio lá e
muda. É bem o brasileiro, irresponsável (ri). Sem querer, através do
"Macunaíma", eu cheguei a coisas, através da indiaiada brasileira, dos
mitos brasileiros, depois Nelson Rodrigues, isso tudo foi me levando
para os arquétipos, para um tipo de literatura de análise das religiões,
Mircea Eliade. Depois veio Jung.
GMT - "Macunaíma" foi uma peça de pesquisa?
Antunes - Muita pesquisa, muito vídeo, tudo que é livro, milhões de
fotografias. Índios também, quando vinham para São Paulo, a gente trazia
para o ensaio. Os irmãos Villas-Boas também foram de muita ajuda para a
gente. Foi um trabalho duro de pesquisa.
GMT - O diretor norte-americano Bob Wilson apresentou "Vida e Época de
Dave Clark" no Municipal, em 74, e você foi muito veemente.
Antunes - Eu fiquei gritando lá (ri). É claro que aquilo teve uma certa
influência, dos tempos. O Bob Wilson me ensinou que você podia trabalhar
com o subconsciente, e isso me ajudou. Foi um passo importante. Tanto é
que eu fui o cara que gritou no Municipal. Os jornais falavam mais dos
meus gritos do que do espetáculo do Bob Wilson (ri). Eu era maluco. Eu
sempre fui muito maluco no teatro. Não era esse teatro comportadinho, em
que o público se levanta e vai embora. Eu gritava sempre. Outro dia eu
fui ver uma peça do Cacá (Carvalho) e comecei a gritar lá, no fim.
Quando eu vejo coisa muito boa, eu não seguro.
GMT - Qual foi o impacto de "Dave Clark" sobre "Macunaíma"?
Antunes - Foi mais essa coisa de que ele paralisa o tempo e obriga você
a entrar. Depois, eu vi que quem faz isso muito bem, e que me deixa
louco, porque a minha alma e o meu olho emigram, é o Kazuo Ohno. Ele
começa a fazer as coisas, e eu não me pertenço mais, eu vou com ele.
Passo por ele e vou para outro universo.
GMT - Bob Wilson voltou com "Quando Nós Mortos Acordamos", alguns anos
atrás, e você gritou contra.
Antunes - Chato. Depois ele brigou comigo, queria me matar. Mas era uma
droga aquilo tudo.
GMT - O que houve, duas décadas depois?
Antunes - Não interessava mais, aquilo era o xerox do xerox do xerox. Eu
já tinha visto ele fazer umas besteiras na Alemanha. Ele estava fazendo
um "ismo" em cima dele mesmo. Teatro, para mim, é sempre um mergulho no
mistério, no desconhecido, sempre buscando o fogo de algum conhecimento
do lado de lá para trazer para o lado de cá. É esse Prometeu que eu
tenho. Talvez seja influência dos modernistas. A arte é uma forma de
conhecimento. Eu não abro mão disso. Não consigo fazer um espetáculo
repetido. Me dá um tédio. Se eu tenho que fazer um espetáculo qualquer,
sou capaz de fazer, porque tenho muita carpintaria. Mas sabe o que
acontece? Ensaio hoje uma cena, "isso é legal". No dia seguinte, acho um
tédio.
GMT - O que você prioriza nas suas encenações?
Antunes - Tem que ter sempre uma vertigem. Eu, quando coloco uma marca,
tem que ter um sentido para mim. Eu aprendi com o (Adolfo) Celi. Ele
dividia o palco de tal maneira... Ele colocava uma figura em cena, e era
o lugar certo. Era ali, não podia ser em outro lugar. Os diretores hoje
não sabem. O ator pode entrar de qualquer lugar, sair por qualquer
lugar. Não pode. O meio é o meio, tem uma razão. Aí entram as artes
plásticas. O Celi foi o cara que eu conheci que sabia mais da tipografia
do palco. Para você colocar uma pessoa à direita ou à esquerda, no
proscênio, você tem que ter um sentido. Se eu coloco duas pessoas aqui
na frente, tem um sentido. Não é em qualquer lugar. Se eu me aproximo de
você, tem um sentido. As distâncias têm um valor hierárquico. Aproximar,
afastar. Eu cuido muito disso. Não é que eu cuido. É inerente, é
orgânico. E tem gente que eu vejo hoje, que faz teatro, que não tem o
menor sentido. Que faz uma diagonal quando não podia fazer. É uma
barbaridade. Depois eu chego: "Está errado tudo". E falam: "Ah, ele está
com dor de cotovelo". Ficar com dor de cotovelo, na minha idade?
GMT - Com quem você aprendeu?
Antunes - Eu peguei todos os diretores estrangeiros, trabalhei com eles
todos. Eu era assistente do TBC e saí para fazer "Weekend", com a
Nicette Bruno, Paulo Goulart. A minha peça fez mais sucesso do que a
peça do TBC. No dia seguinte à estréia, voltei para o TBC com as minhas
coisinhas e ia buscar café para todos os atores, como assistente de
direção. Eu queria aprender. Eu quero aprender. Hoje em dia, sabe qual é
o erro de vocês? Vocês elogiam as pessoas, e elas não querem mais
aprender. Quando eu fiz sucesso com "Plantão 21", eu pedi uma bolsa para
a Europa e fiquei lá vendo os ensaios do (Giorgio) Strehler e conhecendo
todos os museus. Eu falei: "Não é hora ainda de fazer". Eu sabia que não
estava preparado. O que aconteceu com os diretores novos todos? Vocês
incensaram demais e tiraram a volúpia de aprender. Você elogia o cara e
ele: "Ah, eu sou o tal". Pronto, acabou. Eu nunca vejo um ator crescer,
fazer alguma coisa a mais. Ele vai continuar fazendo aquilo lá, um pouco
melhor, por causa dos macetes, mas não através do conhecimento.
GMT - Você falou de passagem de Adolfo Celi.
Antunes - Adorava o Celi. Ele era meio comercial, mas sabia. Eu olhava
as marcações que ele fazia, a chamada "mise-en-place", e ficava: "Esse
cara sabe". Nem o Ziembinski tinha essa capacidade. O Ziembinski era
outra coisa, mais musical. Eu adorava o Ziembinski como ator. Ninguém
entendia o que ele falava, mas eu entendia. Ele era ótimo. Falava meio
enrolado, mas era excelente ator. Mesmo em "Pega Fogo", em que a Cacilda
estava muito bem, eu achei ele melhor. Embora ele falasse um brasileiro
polaco (ri), era muito musical. Ele era no som. O Celi era nos volumes,
na distribuição dos volumes.
GMT - E Ruggero Jacobbi?
Antunes - Ruggero Jacobbi era a cabeça, o intelectual. Ninguém sabia de
Brecht na Europa, e ele estava falando de Brecht aqui.
GMT - Você chegou a ser assistente de Ruggero?
Antunes - De todos eles, menos do belga, (Maurice) Vaneau. Do resto eu
fui. Fui do Ziembinski, do (Flamínio) Bollini, fui do Celi, do Ruggero.
GMT - Em que Ruggero influenciou você?
Antunes - Na pesquisa, na inteligência, que eu sempre admirei. E foi ele
quem deu chance aos diretores brasileiros. Nós conseguíamos dirigir
porque ele dava força aos diretores brasileiros. Eu sou da primeira
leva.
GMT - Flávio Rangel veio depois?
Antunes - Flávio já é cria minha.
GMT - Como foi a sua relação com a crítica, nesse início?
Antunes - Do Décio (de Almeida Prado) eu não abro mão. Tenho respeito
profundo por ele. Pelo Sábato (Magaldi), também.
GMT - Você acha que o crítico aponta as suas fraquezas?
Antunes - O Décio conseguia me dizer... Sabe o que é? Havia humanidade
no que ele escrevia. Mesmo metendo o pau, havia humanidade. Havia: "Vai
por aqui, garoto. Vai por ali". A função do crítico é da maior
importância. A função social, de ter um crítico para a comunidade, é da
maior importância.
GMT - Sebastião Milaré descreve em "Antunes Filho e a Dimensão Utópica"
uma das primeiras encenações, talvez até a sua primeira encenação, como
"expressionista".
Antunes - Ah, porque na época eu era garotão e eu fui muito influenciado
pelo expressionismo. Mesmo nas coisas que escrevia na época, numa
revista literária do nosso colega.
GMT - Qual foi o papel de Reynaldo Jardim, nessa época?
Antunes - Ah, ele é um poeta magnífico. Ele, o Nelson Coelho, aquele
pessoal todo. Ele era ator também!
GMT - Ele participou das suas primeiras peças.
Antunes - Era tão engraçado. Todo mundo era ator. Nós brincávamos. Você
vê que era uma turma da pesada. Eu me orgulho dessa turma da pesada.
Esse contato foi vital, na cinemateca, no Museu de Arte Moderna. O
(Sérgio) Milliet também, da biblioteca. Falta esse contato, hoje, da
molecada com essa "intelligentsia" paulista.
GMT - Na carta, o homem, um senhor agora, descreve como você era na
época, como encenador.
Antunes - Como é que ele descreve? Quero saber.
GMT - Ele fala várias coisas, mas o que ele diz insistentemente é que
você era muito jovem, mas a intensidade, o fervor do diretor já estava
presente. Já estava evidente. Antunes Filho já era Antunes Filho.
Antunes - Está me comovendo, isso que você está me dizendo agora. Na
vida, né, sempre... (pausa). É uma força muito grande, essa coisa
espiritual. Sempre acreditei nisso. É por isso que não há dinheiro que
me compre, que me seduza. Não me seduz. Foram outras coisas que sempre
me seduziram. Você pode mandar fazer uma proposta de trilhões. Manda
fazer uma proposta de uma televisão ou de outra coisa. Eu agradeço,
obrigado. Não é isso. O Sesc me paga razoavelmente, dá para viver, dá
para comer. Não preciso de mais nada. Não quero mais nada.
GMT - Por que teatro? Você teve e tem uma paixão também pelo cinema.
Antunes - Ah, as duas coisas, teatro e cinema. A expressão dramática
sempre me pegou. A aventura humana sempre me tocou fundo.
GMT - Como é que você via o combate de Decio de Almeida Prado e outros,
na época, contra o teatro dos velhos comediantes, como Procópio
Ferreira, Jaime Costa?
Antunes - Não estava legal mesmo essa comédia que os velhos atores
faziam. Eu cheguei a desistir de ver teatro, depois que eu assisti "Deus
Lhe Pague" com o Procópio. Independente de ele ser um grande ator, era
um comércio, uma coisa que não tinha nem pé nem cabeça, com ponto. Eu vi
muito teatro de ponto. Eu era um garoto ainda sonhando e de repente via
aquelas coisas. Eu via com horror aquilo. Então, desisti de teatro.
Desisti mesmo. Não fosse um amigo meu, Moacir Rocha, que me levou para o
Centro de Estudos Cinematográficos... Pouco a pouco fui vendo TBC, Osmar
Rodrigues Cruz, a quem devo muito, e aí voltei a gostar de teatro. Mas
eu achei aquilo uma casa dos horrores.
GMT - Decio, em particular, mas também grande parte da escola do TBC,
tinha um projeto ligado ao Cartel francês.
Antunes - A nossa cultura era toda européia, na época. Era a vanguarda,
o Alfredo Mesquita trazendo as primeiras coisas, na Escola de Arte
Dramática. Nós íamos e nos deliciávamos com aquilo. Mesmo na minha
influência expressionista, sartriana, prevalecia a cultura francesa.
Isso já vinha do modernismo. Isso foi muito forte em São Paulo.
GMT - E quanto aos preceitos específicos do Cartel?
Antunes - Do Cartel do (Charles) Dullin, aquele pessoal todinho? Nós
adorávamos. Quando eles vinham para cá, (Louis) Jouvet, tudo isso. A
influência era grande, de ver o Jouvet em cena, o Barrault. Aliás, sabe
por que o Décio me convidou para o TBC? Porque ele viu o espetáculo que
eu fiz, "Os Outros", e gostou da minha direção, embora muito
expressionista. Foi aí que ele fez o convite para ir de assistente. Para
aprender. Isso foi legal. Isso também me comove. Eu não era ninguém, e o
Decio vai lá no camarim, me convidar. "Claro, claro." Quero realçar
isso: eu fiquei um ano no TBC como assistente, depois fiz sucesso com o
"Weekend" no teatro da rua Aurora, mas nem por isso deixei de, no dia
seguinte, ir ao TBC continuar como assistente de direção, buscando café.
E buscar café para a Cacilda (Becker), o Ziembinski é magnífico (ri).
Agora, buscar café para certas pessoas era muito chato. Mas eu ia. Eu
tinha que aprender. Tinha que pagar o preço pelo aprendizado. Porque eu
queria chegar, um dia, a um lugar em que pudesse fazer uma coisa
significativa.
GMT - Voltando um pouco mais no tempo, que influência os seus pais, que
vieram de Portugal, tiveram sobre o artista Antunes Filho?
Antunes - Meu pai e minha mãe vieram com uma mão atrás e outra na
frente. Era terrível aquela realidade, mesmo tendo terras, mesmo fazendo
as próprias uvas, tudo isso. Ele veio para o Brasil e aqui comeu o pão
que o diabo amassou. Só depois de dez anos é que veio a minha mãe. (ri)
Eu sou o fruto do reencontro. Meus dois irmãos eram portugueses, eu sou
o único brasileiro. Eu sempre quis saber essas histórias. Minha mãe me
contava, meu pai nunca. Sabe essas pessoas fechadas, do campo? Mas aqui
o meu pai, para me ensinar a ser adulto, me colocou como entregador de
laboratório. "Tem que aprender a vida." Depois eu fui funcionário da
prefeitura, office boy (ri). E andava em tudo o que era prostíbulo e
casa de jogo. Fiz de tudo. Não era o (Antônio) Abujamra, fanático, mas
jogava tudo o que era jogo. Quanto salário eu recebia na prefeitura que
depois deixava todo ele no Jóquei Clube e voltava a pé, eu e os meus
amigos! E vivia nos lugares mais terríveis. Ao mesmo tempo em que vivia
no meio daquela malandragem toda, no meio de prostitutas, de gays, que
na época não eram bem-vistos, eu comecei a freqüentar o Museu de Arte
Moderna, o Centro de Estudos Cinematográficos do Cavalcanti. Não me
arrependo. Essa experiência é que me propiciou dirigir teatro. Foi
fundamental a malandragem. Fui muito malandro. Era amigo de ladrão. Mas
isso me ajudou, hoje em dia, a me aproximar dos atores e falar da
aventura humana, falar dos caracteres, falar como é que é a reação
humana.
GMT - Depois de "Macunaíma", você ancorou numa dramaturgia mais
tradicional. O alvo já estava estudado, era Shakespeare, Nelson
Rodrigues. Por que você não continuou na sua reinvenção de uma
dramaturgia?
Antunes - Sabe por quê? Porque todo mundo começou a fazer "Macunaíma" aí
fora. Eu saí dessa. Além do mais, uma coisa que eu sempre quis fazer foi
Nelson Rodrigues. Sempre quis fazer Nelson Rodrigues no seu valor real,
o grande poeta dramático que ele foi. Ninguém reconhecia. Reduziam o
Nelson Rodrigues a autor de costumes. E eu vi tudo, no Rio e em São
Paulo. Só não vi o "Vestido de Noiva" do Ziembinski, lá nos Comediantes.
GMT - Na sua viagem plástica, com a direção, você se manteve preso a uma
dramaturgia mais ortodoxa, Shakespeare, Nelson Rodrigues. Isso era para
poder começar a plantar o seu método?
Antunes - Eu não pensava nisso, então. Mas eu fiz muito Shakespeare. Em
que momento?
GMT - "Romeu e Julieta."
Antunes - Não, ainda tinha o espírito moleque do "Macunaíma". Era
adaptada por mim, era muito livre, muito solta. Tinha asinhas, voava,
não era uma coisa rígida, presa. Eu adapto tudo. A única peça que não
adaptei muito foi o "Gilgamesh", em que foram as 12 tábuas quase na
íntegra. Eu queria fazer um ritual num convento fechado, com cheiro de
batina, de vela, de mofo. Não era para palco. Era quase um mistério,
dentro de um convento, mas aí tive que fazer no palco.
GMT - Para definir sua visão da dramaturgia, gostaria de perguntar sobre
"Xica da Silva".
Antunes - Ah, não deu certo o meu papo com o (Luís Alberto de) Abreu. Eu
queria fazer uma comédia rasgada, da boba da Xica da Silva, que pensava
que iria tirar proveito. Eu pensava numa comédia, o Abreu pensou numa
tragédia, e não deu certo. Saiu uma coisa que não é nada. O híbrido
quase sempre é legal, mas não deu liga. A gente brigou feio, na época.
GMT - Na época, o seu método estava quase lapidado, ou não?
Antunes - Eu estava caminhando, numa etapa. Não era o método. Tinha mais
uma ideologia, alguns passos. Mas não tinha alcançado as estações. Não,
não.
GMT - A impressão era que você estava procurando desenvolver uma relação
com uma nova dramaturgia.
Antunes - Eu sempre quis, mas não podia fazer. Depois entendi que não
era possível fazer uma nova dramaturgia. Não dava certo. Não vai surgir
uma nova dramaturgia enquanto não houver o ator novo. É como em pintura,
em poesia também. Você lê um Fernando Pessoa, você vê um Cézanne, um
Leonardo da Vinci, eles nunca estão na superfície. Você vai afundando,
lá embaixo é que vai ver o artista. Eu sou muito maluco. Quando vejo
Leonardo da Vinci, começo a olhar e, através do esfumaçado dele, vou
passando por ele e, no fim, vejo a cara dele, sempre. Ele me olhando
(ri). Nos grandes artistas, eu consigo ver o olho do artista. Uma obra
de arte nunca está na superfície. É aquilo que o Eco diz: uma obra é
mais artística quanto mais conotativa ela for. É óbvio.
GMT - E a dramaturgia?
Antunes - Eu acho que, se você escrever um texto para valer, você dá
para essa molecada fazer, para esses diretores, e eles vão fazer uma
gritaria. Não vai sobrar nada. Eu vou fazer um Shakespeare, posso até
entender, mas não consigo falar aquilo de maneira correta, no palco. E o
que acontece com o diretor? Você coloca um penico na cabeça do ator e dá
uma vassoura. Porque a peça tem que ser levada. Foi aí que o Shakespeare
começou a ser "clownerie". Porque não se conseguia resolver
dramaticamente o jogo. Faltava a técnica. Não a técnica no sentido que a
minha geração tem, "ah, a técnica empobrece, é uma camisa-de-força".
Não, eu vi que sem técnica você não consegue desenvolver sua
sensibilidade. Sensibilidade é cultura. Todos nós temos sensibilidade,
mas para desenvolvê-la precisa de cultura.
GMT - O autor novo depende de um ator com técnica?
Antunes - Não há possibilidade de surgir um novo autor brasileiro, além
do Nelson Rodrigues, enquanto você não tiver o ator novo. O ator vai dar
segurança ao autor. Ele precisa de ator. Se você pegar um texto e der
para a molecada fazer, vão ficar fazendo palhaçada, fazendo bobagem. É
chato, e não vai sobrar nada do texto. O texto só serve de pretexto. É
um pretexto para que façam lá umas acrobacias, umas formas bonitinhas,
teatrais, umas estéticas consumistas.
GMT - Desde 90 a sua dramaturgia tem sido heterodoxa. Você até chegou a
transformar a língua, criar uma língua nova. A palavra, para você, não
fazia mais sentido. Só o som. Por quê? Como você chegou à conclusão de
que o foco é o ator, não o texto?
Antunes - Eu tentei fazer duas tragédias, "Medéia" e "Antígone". As
pessoas iam falar, e não dava samba. A não ser que eu colocasse a
vassoura na mão e o penico, para ver se a coisa funcionava. Eu sempre
achei o português uma língua eufônica. Mas no palco eu acho uma
porcaria. Pedras, pedras, pedras. Dói, dói. A projeção da voz é feia. Eu
gosto de música, gosto de coisa eufônica. Não agüentava mais. Eu falava:
"Tenho que me retirar da língua portuguesa, para voltar depois. Tenho
que começar tudo do zero". Daí o fonemol. Além do mais, teve o Muro de
Berlim. Eu tinha que recontar a história da humanidade, ação e reação
não dava mais certo. Isso só provocava um dominó que deu no que deu este
século.
Então, o mito do Chapeuzinho Vermelho era para que as pessoas... Todos
nós temos todas as personagens dentro da gente. Temos todos os seres
humanos, todos os arquétipos. A gente tem o Hitler, tem o Stálin. O
importante é você, pela civilidade, conseguir colocar o mal no lugar.
Foi aí que comecei. Eu falava: "Não vamos matar o bandido, vamos
colocá-lo no lugar certo". Tudo isso aí vem de lendas, do Oriente, de
colocar o bandido no lugar certo, sem matar. E qual era a história mais
popular do mundo? "Chapeuzinho Vermelho." Eu ia começar ali a ética:
"Esse lobo fez isso, então vamos matar? Não. Vamos colocá-lo de castigo,
no fundo do mar". Nas fábulas orientais, o mal você coloca no fundo do
mar. Eu falei: "Vamos colocar no céu, em vez de matar. Não adianta fazer
ação e reação que vai voltar tudo aos crimes, aos genocídios que
aconteceram no século".
GMT - E o fonemol?
Antunes - Eu queria usar uma linguagem pré-mítica, uma pré-linguagem, e
dar autoria a cada espectador. Com o fonemol, você pode imaginar o
diálogo que quiser. Foi isso que tentei. Ao mesmo tempo, tentei me
afastar um pouco da língua portuguesa, para depois me reaproximar de
outra maneira.
GMT - Não é assustador fazer um espetáculo em uma língua inexistente e
as pessoas entenderem? Você conseguiu provar a sua dúvida de que o texto
é desnecessário.
Antunes - Não, mas tinha o texto de cada espectador. Você lia com a sua
sintaxe, eu lia com a minha sintaxe. Eu criava a situação, mas o texto
quem criava era o espectador. Aí também entra o Bob Wilson. É trabalhar
com o subconsciente e o inconsciente de cada um. Isso eu aprendi muito
bem foi com o Kazuo Ohno. Cada vez que eu o vejo, a minha alma emigra.
Eu saio do lugar e vou não sei para onde. Depois, no fim, eu volto. É
meio xamânico o troço dele. Ele me leva para viagens estranhas. É
xamanismo puro.
GMT - Para onde você está indo, na dramaturgia? Você largou os romances,
teve uma época em que você queria fazer "Os Sertões" e também falava
muito em Guimarães Rosa.
Antunes - Eu fiz o Guimarães, que não foi entendido. Fiquei fulo da
vida. Até eu fazer o "Augusto Matraga", a crítica não conhecia Guimarães
Rosa. Quando se fazia, era um bangue-bangue. E, na verdade, o Guimarães
é uma viagem ao fundo da alma. É uma viagem interna. Eu acho que a
sintaxe todinha do "Grande Sertão: Veredas" é um monólogo dele com ele
mesmo. A sintaxe fica torta, porque ele está perturbado, porque está
querendo se saber. É um processo de autoconhecimento. Mas estavam
acostumados a ver Guimarães no lado externo. Foi por isso que inventei a
expressão "ser tao". Não é sertão, é "ser tao". E você sabe que ele era
um homem que tinha uma certa tendência, muito cuidado com essa palavra,
esotérica? Todo mundo sabe, menos a nossa crítica, que acha que ele é
bangue-bangue.
GMT - E Nelson Rodrigues?
Antunes - Posso falar a verdade? Adeus, Nelson Rodrigues, estou em
outra. Agora eu quero do círculo de dramaturgia do CPT (Centro de
Pesquisa Teatral) para frente. É a nova dramaturgia. Daqui a pouco eu
vou ajudar os textos já escritos lá, de peça de um ato, pequenas ainda.
Devagar, com pouca gente, duas, três personagens, depois vai aumentando.
É assim que se chega lá. Se eu quiser chegar no fim, já, não vai sair
nada. Então, eu estou brigando para o pessoal de dramaturgia ir devagar,
lento.
GMT - Quando você começou a consolidar o seu método?
Antunes - No "Prêt-à-Porter" eu vi que primeiro precisava limpar o ator,
através do processo de corpo e através da mente, da sensibilidade. Tirar
o ator de uma grosseria, da ansiedade, deixar ser mais simples, de ser
estereotipado. Noventa e oito por cento do teatro brasileiro é
estereotipado. As interpretações são estereotipadas. O estereótipo é uma
coisa morta. Você coloca a máscara e aquilo não funciona, é morto.
Quando um ator está no palco, ele pensa que está com sentimentos. Mas
ele não está com sentimentos da personagem. Os atores que eu vejo em
cena quase nunca estão colocando o sentimento programado para a
personagem. Estão colocando o confinamento, a ansiedade, a angústia de
estar no palco. Porque para isso precisa educar o ator. Quer queira,
quer não, por mais tolo que possam achar, o músculo conta. Se eu ficar
com o ombro duro, já vou para a projeção e perco a sensibilidade.
GMT - Com "Prêt-à-Porter" você alcançou a sensibilidade?
Antunes - O "Prêt-à-Porter" é a busca do afastamento, para chegar à
sensibilidade. O afastamento nada mais é do que "saia da paixão e vá
para a sensibilidade". Se você ficar tomado de emoção, fica travado. Mas
o "Prêt-à-Porter" ainda não é a sensibilidade plena, que o ator só vai
poder alcançar com a colocação vocal. Corpo e voz são uma coisa só. Não
adianta só ensaiar voz, que não vai resolver; não adianta só ensaiar
corpo. Tenho que ensaiar as duas coisas. No "Prêt-à-Porter" ensaiei
muito corpo, mas havia muita ansiedade ainda. Para mim, a voz é a coisa
fundamental do teatro. Estou chegando agora a essa conclusão, com
"Fragmentos Troianos", embora as pessoas não saibam ler e estejam
estranhando o espetáculo. No início, nos primeiros dias, a maioria era
contra esse tipo de voz. Agora, já mudou. Estão vendo a eufonia da
língua portuguesa. Porque não é mais feito com projeção. É feito por
ressonância.
GMT - Como é a ressonância?
Antunes - Na projeção, é a consoante que leva a vogal para você. Na
ressonância, é a vogal que leva a consoante. A consoante é impressa na
vogal. E é tecla por tecla. No coloquial, a gente fala com um impulso
só. Agora, não. É de música. A música não está no fim da frase, do
teatro clássico que você viu até hoje. Não está mais no fim. Não tem
mais isso de você cantar no fim da frase e achar que é clássico, como
nós sempre vimos. Não havia um espetáculo que não tivesse a cantadinha
no final. Aqui, não. A música é durante. Quando você vai ver teatro
grego, é todo mundo igual. Aquela voz empostada, ridícula, que me dói o
ouvido. E fica todo mundo gritando. (exaltado) Não vai poder ter texto,
o grande texto em profundidade, enquanto não tiver ator falando muito
bem. Porque fica uma gritaria, e gritaria por gritaria eu vou escrever
para a televisão, fazer porcaria. Agora, na hora em que houver o ator
com sensibilidade...
GMT - "Prêt-à-Porter" já anuncia uma nova dramaturgia?
Antunes - "Prêt-à-Porter" é um degrau. Só depois de ter o
"Prêt-à-Porter" e depois de ter alguma experiência, depois de os garotos
fazerem alguma dramaturgia, é que nós começaremos com o círculo de
dramaturgia. E não é uma camisa-de-força. Não vamos pregar Aristóteles,
que mata a possibilidade de autor. Se o Aristóteles tivesse existido
antes dos grandes trágicos, não existiria a tragédia. Eu sou a favor da
retórica, mas não da poética do Aristóteles. Você pode chegar à poética
do Aristóteles um dia, mas não de cara. Agora, a retórica é fundamental
para o autor e para o ator. Quando falo retórica, é a nova retórica, a
metafórica, a da imaginação, da metade do século para cá. Não é de
chicaneiro. Porque tem ética. É aí que entra o pensamento oriental. Eu
vejo os filmes e mando o pessoal assistir os filmes do (John) Gielgud.
Esse cara sabe tudo de técnica, mas dá uma porcaria. Ele está fazendo
para ele. É chato, é egoísta.
GMT - John Gielgud, a voz.
Antunes - Sim, mas é uma porcaria, é chato. Quando falo do ator
ilusionista, é que ele está iludindo, mas antes de iludir ele tem uma
ética. Não é simplesmente gostar daquilo, para o seu narcisismo, para o
seu egocentrismo. É um ato coletivo, de festa coletiva. É fundamental
uma ideologia. Tivesse o Gielgud ou o (Laurence) Olivier essa ideologia,
e eles seriam os atores mais maravilhosos. Mas eles fizeram para eles
mesmos. Tanto é que você vê o Olivier, no fim da vida dele, que
porcaria. O Gielgud, que porcaria. Fala tão bem, mas não tem para onde
ir. É por isso que a ideologia é fundamental, esses livros todos. O
ilusionismo é dirigido. O ator ilude, mas é para o bem.
GMT - Você não tem um modelo claro para a dramaturgia, como você tem
para a interpretação. Qual é a sua visão da dramaturgia?
Antunes - Cada um é um. Você é capaz de escrever uma peça, ele é capaz.
Agora, é preciso dar condições para trazer a sua poesia à tona. Você não
tem condições, porque não tem atores. Os atores não têm técnica para
isso. Se escrever uma obra profunda, de uma sensibilidade
extraordinária, ela vai ser gritada, vai ser um contorcionismo. Com o
novo ator, você vai poder escrever até versos, que ele vai dizer esses
versos maravilhosamente bem. Sabe para que serve a ressonância? O ator
não dá mais o ritmo na garganta. Na projeção, ele dá o ritmo na
garganta. Isso é fundamental. Ninguém mais vai ficar com calo na voz,
porque o ritmo não será dado na garganta. Aquele cara, aquele negrinho
do espetáculo do Shakespeare... Ele falava as coisas mais delicadas do
mundo.
GMT - Adrian Lester, em "As You Like It".
Antunes - É esse o método. Ele foi um dos modelos. Eu fiquei nele o
tempo todo, na apresentação. Você vai fazer uma cena de "Romeu e
Julieta" no Brasil e é tudo sambinha de uma nota só, tudo na garganta.
Inglês falando dá o ritmo aqui (demonstra), não dá mais na gargantinha.
Foi por isso que eu larguei.
GMT - Você comentou um dia, de passagem, que combatia a entonação
portuguesa do teatro brasileiro, herdada dos atores portugueses e que,
apesar de não ter mais o sotaque...
Antunes - Como é que não? Doisss, trêsss, pixxxina, "i" em lugar de "e".
Isso é coisa de Portugal. É o modelo gutural, alemão, feito por
Portugal. O paradigma que se está falando aqui ainda é o português.
Ainda precisamos fazer a Semana de Arte Moderna da eufonia da língua
portuguesa falada no Brasil. Mas eu vou chegar lá, vou.
GMT - E você contrapõe a isso a entonação inglesa, sem esse tipo de
vício.
Antunes - Mas que tem outro vício, que é não ter a ideologia.
GMT - Ao mesmo tempo, é maravilhosa.
Antunes - É maravilhosa! Você pega o inglês, o russo também. É lindo
como eles falam. Ali é que está a ressonância.
GMT - Os ingleses chegaram a isso com Shakespeare.
Antunes - Os atores russos falam do mesmo jeito. Os eslavos falam do
mesmo jeito. Eu vou fazer Tchecov desse jeito, vou fazer Shakespeare
desse jeito. Vou fazer tudo com a ressonância. Tanto é que a menina que
faz a Hécuba, em "Fragmentos Troianos", consegue criar uma voz com o
arrastado da velha, para dizer que ela é velha, com a ressonância. Isso,
em vez de fazer vovózinha. Ela é uma nobre. Ela tem que falar secamente.
Ela deve ficar chorando? Se você é chefe, você é seca. Ela não é do
povo. Ela é uma rainha, ela não pode ceder, tem que ser dura consigo
mesma.
Quando você vê Hécuba por aí, é uma imbecilidade. Fica tudo igual, as
carpideiras, o povo, a rainha. Aqui tem hierarquia, tem rainha, tem
princesa e tem povo. E cada uma tem seu timbre, seu ritmo. Quando você
vê tragédia grega, todo mundo fala igual. Em "Fragmentos Troianos", você
não perde um fonema. Quando eu fazia espetáculos, antes, você não
entendia frases inteiras. O Sábato (Magaldi) foi o meu maior crítico
nesse sentido, e nisso me ajudou bastante. Ele foi um dos propulsores.
Agora você entende tudo. Essa é que é a minha batalha. Eu fiquei me
dedicando. Fazia estudos sozinho. Nunca tomei uma aula de voz. Fui
aprender sozinho, para poder ensinar. Mandava vir umas pessoas para dar
aula de voz, e dava tudo errado. As pessoas perdiam a voz.
GMT - Você abandonou o Desequilíbrio, o exercício de corpo que usava
tanto, dez anos atrás?
Antunes - Não abandonei. Faço de outra maneira. Estava virando uma coisa
mecânica, de ginástica. E as pessoas iam para o palco fazer aquilo. O
Desequilíbrio servia para as pessoas lidarem com os músculos, para
deixarem os músculos a serviço da sua vontade, não as pessoas a serviço
dos músculos. Era para amolecer todo o seu corpo e deixá-lo uma argila,
para você fazer o que quisesse com ele, qualquer papel. Era uma maneira
de dominar os seus músculos sem ser aquela coisa chata, inglesa, de
dizer "esse é o músculo tal".
GMT - Mas o Desequilíbrio foi a base.
Antunes - Ele foi a base, de certa maneira. Com a ressonância, agora,
você também pode fazer qualquer papel. Tanto é que a Gabriela (Flores)
foi interpretar uma velha nos "Fragmentos Troianos" e criou uma voz de
velha. Até perguntam: "Onde é que está aquela velha?". Foi na
ressonância que ela criou aquela voz. Ela pode falar 20 horas, que não
perde a voz. Pode gritar 200 anos, que não vai perder a voz. E ela pode
falar muito baixo, que chega ao fundo da platéia. Desculpe dizer, mas eu
vejo as coisas que essa menina faz e vejo os filmes das grandes estrelas
da Inglaterra, está ali.
GMT - Voltando ao Desequilíbrio...
Antunes - O problema é que tem atores que ouvem o galo cantar e não
sabem onde. Tudo quanto é escola começou a adotar. Eu via atores assim
(se contrai). Aí eu parei. Agora eu faço outros exercícios, para
conhecer os músculos. Mas eram vários exercícios, o Desequilíbrio, a
Bolha. A Bolha era ainda mais terrível. Cortei esses exercícios, porque
levavam a erro. Agora vou de outra maneira. O meu método é legal, porque
foi uma prática que depois resultou numa teoria. Aprendi através desses
anos todos. Não queria fazer método nenhum, nem gosto da palavra, mas eu
queria o ator. E precisei desenvolver. Se isso é método, vamos chamar de
método, então.
GMT - O seu método é, de certa maneira, uma desconstrução.
Antunes - Você desconstrói o estereótipo físico do ator. A persona.
Tento destruir a persona. A pessoa tem que estar ciente de que usa uma
persona, uma defesa. Eu tenho que destruir essa defesa.
GMT - Quando você pegou um Raul Cortez, por exemplo, como foi essa
relação? Você conseguiu?
Antunes - Da minha relação com Raul eu não posso falar muito, porque ela
é muito amorosa, sempre.
GMT - Mas como você encaixou o ator no método?
Antunes - O Raul começou numa época, comigo, e ele é extraordinário. Só
que eu fui enveredando por um caminho, e é lógico que ele não foi me
acompanhando o tempo todo. Mas foi harmoniosa a nossa relação, sempre. O
"Matraga", por exemplo, saiu perfeito, do ponto de vista do trabalho. Se
tivesse convivido com ele todos aqueles anos em que ele fez umas coisas,
e eu outras, o resultado seria ainda superior, embora já tenha sido
excelente.
GMT - Você estava formando atores jovens e, no meio desse processo,
entrou um Raul Cortez.
Antunes - O resultado da Laura Cardoso, na "Vereda da Salvação", de 93,
também foi extraordinário. O que ela fez me surpreendeu. Foi o melhor
trabalho da vida dela, tenho certeza. A gente brigou muito, mas pouco a
pouco eu fui levando. Que nem com o Paulo Autran, numa peça do Vianinha.
Minha vida com ele foi briga o tempo todo. Chegou um momento em que não
conversava mais com ele. Um dia, no botequim, a gente conversou e se
acertou. Aí ele fez um trabalho extraordinário, dos melhores.
GMT - O seu trabalho no CPT deixa a impressão de que você exige um
compromisso até mais ético do que estético.
Antunes - Eu acho que a ética pertence à estética.
GMT - E com essa exigência você trabalha os atores por um tempo. Quando
eles estão prontos, você deixa que partam. É isso, é assim?
Antunes - Claro. O Centro de Pesquisa Teatral é uma praça do Sesc, que
tenta produzir alguns, a palavra é pretensiosa, mas é por aí, alguns
paradigmas que venham em benefício da sociedade, a médio e longo prazo.
São bens imateriais que vão se transformar, em algum tempo, em bens
materiais. A minha preocupação é muito grande, de formação das novas
gerações. Quando o cara sai do CPT, às vezes ele não está ainda muito
preparado. Mas a semente ficou. Eu sempre digo que teatro é arte. Muitos
atores fazem teatro pelo sucesso, para se locupletar. Eu tento tirar
essa visão. É um pouco aquela coisa do Mário de Andrade, de doação. O
lema dele era doação. E eu sou muito Mário de Andrade.
GMT - O "Tao da Física" era um carro-chefe do CPT, dez anos atrás. Ele
foi encostado?
Antunes - Não. Foi um movimento de ruptura, mais um, assim como eu não
poderia chegar ao taoísmo, ao budismo, se não tivesse antes passado por
Jung. O Jung começou muito tarde na minha vida. Foi depois de
"Macunaíma". Eu comprei um livro, no Rio, do Mircea Eliade. Li e dali
fui para Jung. Antes, o processo nosso tinha, no máximo, Freud, essas
reações freudianas, de todos os espetáculos no Brasil. Lendo Mircea
Eliade e chegando ao Jung, eu vim a saber o que tinha feito no
"Macunaíma", vim a decodificar tantas e tantas cenas. Eram todas
arquetípicas. Hoje em dia, no CPT, os nossos atores já leram todos esses
livros, pelo menos têm contato.
GMT - Você introduziu agora, no CPT, textos sobre retórica.
Antunes - A retórica entrou para os atores poderem explicar o
"Prêt-à-Porter" ao público. Para ter um diálogo sobre uma cena, é
preciso ter referenciais, um balizamento. E a retórica deu isso. A
retórica ajuda o imaginário, ajuda você a falar, a pensar. Nós estamos
fazendo com que os atores pensem. Você está convidado a pegar qualquer
um dos atores que trabalham comigo e colocar na parede. Respondem tudo,
e de maneira bem razoável. Com o tempo, vai ser melhor. Esse é o
primeiro grupo de atores absolutamente independente. Eles dominam a sua
expressão, porque têm conhecimento, têm cultura para isso. São eles que
têm que levar essa bandeira adiante.
GMT - Você não acha que surge um impasse no ator que começa a ler o
texto de uma peça, sendo que ele não tem que ler, mas fazer o texto?
Antunes - Não. Quando você dá um texto, o ator tem que ler aquilo
friamente, com cuidado. De maneira racional, não de maneira emocional.
Vê a programação primeiro, para saber a função das cenas, causa e
efeito. Dentro da programação é que ele vai, racionalmente,
conquistando, até chegar ao imaginário.
GMT - Primeiro a técnica.
Antunes - Primeiro a técnica. Teatro é inteligência. Mas, veja bem, eu
estou falando em arte. Não estou falando de espetáculos burocráticos,
dos diretores burocratas que nós temos. Estou falando de arte, de coisas
espirituais, mais altas. E não da funcionalidade, do regulamento. Não,
não. Eu odeio espetáculo burocrático, bem-feitinho. Eu odeio aquelas
coisas bem ajustadinhas, bem certinhas. Não vem que eu não engulo, não.
É por isso que eu adoro o Zé Celso e gosto do Gerald (Thomas). Mesmo que
errem muito, eles são artistas. Não são burocratas. É esse o meu amor, a
minha admiração profunda por eles. Eu vou ver espetáculos deles, posso
não gostar, mas tiro o chapéu e falo: "São artistas". Agora, os
burocratas que têm lá tudo direitinho não me falam ao coração. Tudo o
que não tiver arte eu acho chato.
GMT - Você cria uma dinâmica ao redor de você, no CPT, que lembra um
pouco uma seita. As pessoas cultuam você, com amor e ódio, medo e
admiração. Você acha que o diretor tem que ter essa reverência?
Antunes - Não, mas eu até concordo que possa existir isso. As pessoas me
admiram e podem até me odiar, tudo bem, mas saibam que eu não estou
brincando em serviço. Não há dinheiro que me seduza. Num mundo tão
consumista, tão terrível como o que nós estamos vivendo, isso incomoda.
Eu faço com que as pessoas se aproximem e se afastem. É lógico, se as
pessoas se vendem... Eu sei o que eu quero. Só posso ser feliz se der
uma contribuição social. Você pode dizer que eu sou uma personagem
ibseniana, utópica, mas o que vou fazer? Tenho um compromisso com
aqueles que me assistem. Se tenho privilégios, uma infra-estrutura
legal, eu tenho obrigações, deveres. Eu tenho que continuar com o meu
trabalho.
GMT - Essa sua utopia é o encontro do ator perfeito, do espetáculo
perfeito, do país perfeito?
Antunes - Eu adoro o sublime. A hora em que nós fizermos o ator
perfeito, o país será menos imperfeito. A estética altera tudo. É por
isso que eu falei que a ética, para mim, faz parte da estética. Tem que
ter umas flores. Você melhora, organicamente você melhora. Se é utopia,
o que eu vou fazer?
GMT - A construção dessa personagem, dentro do CPT, aponta para uma
imagem autoritária, de um personagem que dá o método, que indica
bibliografia, aonde deve ir. A arte tem que ter essa figura autoritária?
Antunes - Se você usar esses termos, hoje em dia, para o meu elenco,
eles vão se ofender. Se eu sou o primeiro a pedir "faça isso, estude
aquilo", estou fazendo de você um igual. Eu quero diálogo.
GMT - Você quer trazer o ator para você?
Antunes - Não, eu estou querendo ajudá-lo a se tornar um cara com
consciência. Ser autoritário, para mim, é bater nas costas do outro,
jantar nos botequins de teatro, fazer as coisas assim, docemente, e
deixar o outro cada vez mais à margem da vida. Eu trago as pessoas para
a vida. Pego pessoas que talvez não saibam nada e falo: "Vem". É só você
perguntar para as 15 pessoas que eu tenho no meu elenco. Guia, sim, você
pode dizer. Mas, nesse Brasil, quem vai ajudar o outro é autoritário...
Isso não existe aqui dentro. Pega o telefone de uma das pessoas do
elenco e pergunte, detalhe por detalhe, das dez horas que eles passam
aqui. Pergunte os mais íntimos detalhes, a respeito do meu
comportamento. Você vai ver que é o contrário do autoritarismo. É a
favor da liberdade absoluta.
GMT - Estamos incomensuravelmente satisfeitos pela sua recepção a todos
nós e sua entrevista para o GRUPO MAGNO DE TEATRO , somos e seremos
eternos aprendizes da sua obra. Obrigado, Antunes.
Antunes – Foi um prazer este encontro, foi de um altíssimo nível,
parabéns a todos .
GMT - E quem, certamente, ganha com esta entrevista serão os leitores e
toda a comunidade Magno. Espero que tenham gostado. Obrigado !
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