Walter Salles

      O Teatro no Colégio Magno 


D
e tanto o Grupo Magno de Teatro ir assistir a filmes no Espaço Unibanco de Cinema, em São Paulo, além das grandes obras cinematográficas, jamais deixamos de notar, apesar de fingirmos, a presença vip de artistas das mais variadas áreas e colunáveis da terra da garoa. Foi num desses passeios culturais que encontramos, sentado ao nosso lado, Walter Salles. Para quem não o conhece, um dos mais renomados diretores do cinema nacional atual, que transborda seu incomparável talento em outros países, mais conhecido pelo brilhante trabalho em Central do Brasil. Agendamos com ele um bate-papo para que pudéssemos satisfazer nossa curiosidade sobre cinema, interpretação, indústria cinematográfica brasileira e mundial e pitadas de curiosidades pessoais sobre este "menino prodígio". E foi com extrema cordialidade e atenção que fomos recebidos na própria sala vip do Espaço Unibanco. Chique, não? ... (risos).
É com muita satisfação que abrimos este milênio com esta entrevista para a comunidade Magno/Mágico de Oz. Com vocês: Walter Salles.


 Grupo Magno de Teatro

Walter, aqui está um release de todos os trabalhos cênicos e montagens realizadas pelo grupo em sua trajetória, e agradecemos sua atenção em nos receber.

Walter Salles

Olha, se todo mundo, principalmente alunos de teatro, cinema - aqueles que gostam e conhecem a arte, como vocês –, quiserem "papear" comigo e chegarem com tamanho interesse pela minha obra, isso me motiva a dar esta entrevista para todo o pessoal aí do Magno. Eu gosto de falar para quem gosta de pensar (olhando o release das montagens teatrais).

GMT Bom, gostaríamos que você falasse, em primeiro lugar, sobre sua vida antes da fama.
Walter Salles

Parece uma história de cinema (risos)... Eu sou o segundo de quatro filhos do meu velho (que é o conhecido banqueiro e embaixador Walter Moreira Salles, que foi fundador do Unibanco, quarto maior banco brasileiro, e está com 88 anos)... Detesto que falem de quem eu sou ou deixo de ser filho... Eu até pedi para a bendita da (revista) Veja deixar de publicar esta relação... Eu, Sérgio, fiz muitas coisas antes de ser cineasta.

GMT Como o quê?
Walter Salles

Me formei em Economia, no Rio de Janeiro. Economia é duro...

GMT Nem me diga! Me formei aqui no Mackenzie. Mas você tinha alguma afinidade com este universo?
Walter Salles

Foi "a última chance que eu dei para as finanças" (risos)... E aí que fui fazer mestrado em comunicação visual na Califórnia, e foi indo... Fui para a publicidade, dirigi uns 300 filmes publicitários (sendo interrompido).

GMT

E o que esta função ajudou na sua carreira como diretor cinematográfico?

Walter Salles

Ximena, foi com a propaganda que eu aprendi muito da gramática do cinema, técnica, recursos, mas de comerciais chega... Não me interessam mais.

GMT E esportes? Você pratica algum?
Walter Salles

Fui bicampeão carioca de kart e campeão em provas de esqui aquático. Hoje ainda me divirto nestas atividades. 

GMT Além de comerciais, onde mais você exercitou seu talento artístico (risos)?
Walter Salles

(risos) É, só eu sei as esquinas por que passei (risos)... Fiz diversos programas para a TV. 

GMT Quais?
Walter Salles

Conexão Internacional; Outras Palavras; especiais de música para Caetano Veloso, Marisa Monte, João Gilberto, Tom Jobim e documentários como "Japão, uma viagem no Tempo", sobre o escultor Krajcberg...

GMT Franz Krajcberg?
Walter Salles

Isso mesmo! Vocês assistiram?

GMT Várias vezes! Sensacional! Vimos também o da Tomie Ohtake e um que me emocionou muito: o do Tancredo Neves... A atividade artística sempre nos leva a sermos compulsivos pelo trabalho. Como é com você?
Walter Salles

É este o termo. Sou um trabalhador compulsivo!

GMT Qual é o fato, ou os fatos que mais marcaram sua vida?
Walter Salles

A morte da minha mãe... (respira) Foi trágico... Uma barra... (Sabemos que houve uma tragédia na morte da sua mãe, e respeitosamente preferimos deixar de lado.). E vou confessar uma coisa para vocês: levar o Urso de Ouro, no Festival de Berlim foi legal. Agora, torcer para a Fernandona (Fernanda Montenegro, atriz protagonista do filme Central do Brasil) e Central do Brasil como melhor filme estrangeiro levar o estatueta (Oscar 1999), já valeu.

GMT

Então, como foi ter ganho o URSO DE OURO?

Walter Salles É, estava lá a nata do cinema, e ter ganho como melhor filme, de diretores consagrados como Quentim Tarantino, entre outros, foi... foi muito legal.
GMT Toda a classe artística sabe das controvérsias suas e de Neville D´Almeida (cineasta). O bicho pegou mesmo?
Walter Salles

Em 1991, no meu primeiro filme, "A grande arte" (triller com Raul Cortez e Peter Coyote), ele (Neville) desceu o sarrafo dizendo que meu estilo da fazer cinema é o estilo "mauricinho"...

GMT E aí ?
Walter Salles Aí eu respondi que o NEVILLE é o único quadrúpede do mundo a usar echarpe... Caprichei... (risos)
GMT Mas eu li uma crítica dele muito favorável a seu segundo filme, Terra Estrangeira.
Walter Salles É. Foi uma modesta Brasil/Portugal de U$ 600.000, que eu dirigi com a Dani (Daniela Tomas), mas foi aí também, Sérgio, que eu vi que fui muito impetuoso no episódio da briga. Águas passadas...
GMT E Central do Brasil, como foi?
Walter Salles

NÃO... Agora eu é que quero saber a sua opinião, Sérgio. Como você resumiria para seus alunos o meu filme, se você tivesse que fazê-lo? Te peguei! (risos) 

GMT Eu definiria como uma saga brasileira "cortando" a fundo um país destroçado. O que impressiona é que ficou absolutamente real, e que escancara uma pergunta que saltava da tela: O QUE FIZERAM COM O BRASIL?
Walter Salles

Esta é a minha maior satisfação: ser entendido no ponto, no objetivo, na ferida. Judiaram muito do Brasil. Nossa elite não é apenas cruel, é pra lá de cruel. Lei aqui só existe da classe média para baixo. O que vale é a impunidade.

GMT O que você poderia falar para os alunos do Magno, que possuem uma formação educacional de primeiro mundo?
Walter Salles

Eu poderia ter sido aluno do Magno. Minha formação e minhas possibilidades só me deixaram mais próximo de pensar no Brasil, no ser humano, sob o ângulo do afeto, do humanismo.

GMT Poderíamos afirmar então que você e seu cinema são essencialmente "humanistas"?
Walter Salles

Esse é o cinema que me interessa fazer: um cinema humanista.

GMT Quanto custou Central do Brasil?
Walter Salles

Foram U$2.900.000, e na ponta do lápis já foram pagos (sorri como uma criança), e o mais legal: foi munnnndddo afora.

GMT Quer dizer que a viagem da "escrevedora" (risos) Dora e do menino Josué deixou o Brasil para ser sucesso lá fora... E a esse respeito, é verdade que o ator Vinícius de Oliveira (Josué), o engraxate de 11 anos, foi encontrado, ou melhor, você o achou no Aeroporto Santos Dumont?
Walter Salles

Foi ele quem achou o filme (risos), foi ele. Eu estava lá numa tarde chuvosa, ele veio dar um "brilho" nos meus sapatos e disse: - Será que o senhor podia me pagar metade de um sanduíche? Quando o senhor voltar eu prometo que pago.

GMT

E aí?

Walter Salles

Te pago um sanduíche inteiro, e em troca você faz um teste para o cinema, ok?! E foi assim.

GMT

Como é o Vinícius?

Walter Salles Vinícius é daqueles talentos naturais que brotam por aqui. Foi a prova do destino, da sorte.
GMT E trabalhar com Fernanda Montenegro? Aos 68 anos dar essa aula ao mundo... Como é o processo dela ao interpretar?
Walter Salles Ela é pura, carismática, autêntica. Viva a Fernanda! Ela é grande em todos os aspectos possíveis e imagináveis.
GMT Gostaríamos de fazer uma superentrevista com ela, Walter. Será que você poderia fazer essa "ponte" para nós?.
Walter Salles É EVIDENTE!... É maravilhoso ver (conta os alunos) 23 alunos atentos a tudo que falo. Vocês respiram, pensam minhas idéias, e é esse tipo de gente que quero. É para vocês que faço meus filmes; para pessoas sensíveis, cultas, gente de "carne e osso" e de alma grande. É bom saber que existem jovens com uma forte educação e formação cênica séria e dedicada, como é feito aí no MAGNO. Dá seu telefone, Sérgio, que eu agendo isso para vocês. (Palavra dada, ficaremos em cima, hein?!) Só não falem para ela de novelas (risos).
GMT Walter, sinceramente: perderemos você para HOLLYWOOD?
Walter Salles Hollywood não me interessa; não estou atrás de carreira. Nesta sala ninguém está. Me sinto mais um documentarista do que um ficcionista. Quero fazer um cinema humanista, e humanismo e fraternidade não têm cotação na bolsa. Por isso, Sérgio, é que nós nos afastamos dos números e contas e de toda a economia de mercado. Sentimentos são indispensáveis para nossa sobrevivência.
GMT Mais uma vez gostaríamos de agradecer e entregar-lhe esta estatueta (demos a ele um Oscar, um livro de fotos do cinema mundial de 1920 a 1990, da Actor´s Studio, e uma saraivada da palmas; afinal, ele merece).
Walter Salles Só mesmo artistas verdadeiros para entenderem o sentido da vida. Eu, vocês e todo o MAGNO estamos buscando o nosso próprio sentido de viver e fazer um mundo mais próspero, mais consciente, repleto de educação, arte e igualdade. Sucesso e Felicidades para todos vocês. E na entrevista com a Fernanda, dêem a ela, se possível, um Oscar também. Vindo de vocês é muito mais sincero, honroso e inigualável... E genuinamente BRASILEIRO

 

    

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