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Grupo
Magno de
Teatro
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Walter,
aqui está um release de todos os trabalhos cênicos e
montagens realizadas pelo grupo em sua trajetória, e
agradecemos sua atenção em nos receber.
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Walter
Salles
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Olha,
se todo mundo, principalmente alunos de teatro, cinema -
aqueles que gostam e conhecem a arte, como vocês –,
quiserem "papear" comigo e chegarem com
tamanho interesse pela minha obra, isso me motiva a dar
esta entrevista para todo o pessoal aí do Magno. Eu
gosto de falar para quem gosta de pensar (olhando o
release das montagens teatrais).
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| GMT |
Bom,
gostaríamos que você falasse, em primeiro lugar, sobre
sua vida antes da fama. |
| Walter
Salles |
Parece
uma história de cinema (risos)... Eu sou o segundo de
quatro filhos do meu velho (que é o conhecido banqueiro
e embaixador Walter Moreira Salles, que foi fundador do
Unibanco, quarto maior banco brasileiro, e está com 88
anos)... Detesto que falem de quem eu sou ou deixo de
ser filho... Eu até pedi para a bendita da (revista)
Veja deixar de publicar esta relação... Eu, Sérgio,
fiz muitas coisas antes de ser cineasta.
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| GMT |
Como
o quê? |
| Walter
Salles |
Me
formei em Economia, no Rio de Janeiro. Economia é
duro...
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| GMT |
Nem
me diga! Me formei aqui no Mackenzie. Mas você tinha
alguma afinidade com este universo? |
| Walter
Salles |
Foi
"a última chance que eu dei para as finanças"
(risos)... E aí que fui fazer mestrado em comunicação
visual na Califórnia, e foi indo... Fui para a
publicidade, dirigi uns 300 filmes publicitários (sendo
interrompido).
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| GMT |
E
o que esta função ajudou na sua carreira como diretor
cinematográfico?
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| Walter
Salles |
Ximena,
foi com a propaganda que eu aprendi muito da
gramática do cinema, técnica, recursos, mas de
comerciais chega... Não me interessam mais.
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| GMT |
E
esportes? Você pratica algum? |
| Walter
Salles |
Fui
bicampeão carioca de kart e campeão em provas de esqui
aquático. Hoje ainda me divirto nestas atividades.
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| GMT |
Além
de comerciais, onde mais você exercitou seu talento artístico
(risos)? |
| Walter
Salles |
(risos)
É, só eu sei as esquinas por que passei (risos)... Fiz
diversos programas para a TV.
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| GMT |
Quais? |
| Walter
Salles |
Conexão
Internacional; Outras Palavras; especiais de música
para Caetano Veloso, Marisa Monte, João Gilberto, Tom
Jobim e documentários como "Japão, uma viagem no
Tempo", sobre o escultor Krajcberg...
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| GMT |
Franz
Krajcberg? |
| Walter
Salles |
Isso
mesmo! Vocês assistiram?
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| GMT |
Várias
vezes! Sensacional! Vimos também o da Tomie Ohtake e um
que me emocionou muito: o do Tancredo Neves... A
atividade artística sempre nos leva a sermos
compulsivos pelo trabalho. Como é com você? |
| Walter
Salles |
É
este o termo. Sou um trabalhador compulsivo!
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| GMT |
Qual
é o fato, ou os fatos que mais marcaram sua vida? |
| Walter
Salles |
A
morte da minha mãe... (respira) Foi trágico... Uma
barra... (Sabemos que houve uma tragédia na morte da
sua mãe, e respeitosamente preferimos deixar de lado.).
E vou confessar uma coisa para vocês: levar o Urso de
Ouro, no Festival de Berlim foi legal. Agora, torcer
para a Fernandona (Fernanda Montenegro, atriz
protagonista do filme Central do Brasil) e Central do
Brasil como melhor filme estrangeiro levar o estatueta
(Oscar 1999), já valeu.
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| GMT |
Então,
como foi ter ganho o URSO DE OURO?
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| Walter
Salles |
É,
estava lá a nata do cinema, e ter ganho como melhor
filme, de diretores consagrados como Quentim Tarantino,
entre outros, foi... foi muito legal. |
| GMT |
Toda
a classe artística sabe das controvérsias suas e de
Neville D´Almeida (cineasta). O bicho pegou mesmo? |
| Walter
Salles |
Em
1991, no meu primeiro filme, "A grande arte" (triller
com Raul Cortez e Peter Coyote), ele (Neville) desceu o
sarrafo dizendo que meu estilo da fazer cinema é o
estilo "mauricinho"...
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| GMT |
E
aí ? |
| Walter
Salles |
Aí
eu respondi que o NEVILLE é o único quadrúpede do
mundo a usar echarpe... Caprichei... (risos) |
| GMT |
Mas
eu li uma crítica dele muito favorável a seu segundo
filme, Terra Estrangeira. |
| Walter
Salles |
É.
Foi uma modesta Brasil/Portugal de U$ 600.000, que eu
dirigi com a Dani (Daniela Tomas), mas foi aí também,
Sérgio, que eu vi que fui muito impetuoso no episódio
da briga. Águas passadas... |
| GMT |
E
Central do Brasil, como foi? |
| Walter
Salles |
NÃO...
Agora eu é que quero saber a sua opinião, Sérgio.
Como você resumiria para seus alunos o meu filme, se
você tivesse que fazê-lo? Te peguei! (risos)
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| GMT |
Eu
definiria como uma saga brasileira "cortando"
a fundo um país destroçado. O que impressiona é que
ficou absolutamente real, e que escancara uma pergunta
que saltava da tela: O QUE FIZERAM COM O BRASIL? |
| Walter
Salles |
Esta
é a minha maior satisfação: ser entendido no ponto,
no objetivo, na ferida. Judiaram muito do Brasil. Nossa
elite não é apenas cruel, é pra lá de cruel. Lei
aqui só existe da classe média para baixo. O que vale
é a impunidade.
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| GMT |
O
que você poderia falar para os alunos do Magno, que
possuem uma formação educacional de primeiro mundo? |
| Walter
Salles |
Eu
poderia ter sido aluno do Magno. Minha formação e
minhas possibilidades só me deixaram mais próximo de
pensar no Brasil, no ser humano, sob o ângulo do afeto,
do humanismo.
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| GMT |
Poderíamos
afirmar então que você e seu cinema são
essencialmente "humanistas"? |
| Walter
Salles |
Esse
é o cinema que me interessa fazer: um cinema humanista.
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| GMT |
Quanto
custou Central do Brasil? |
| Walter
Salles |
Foram
U$2.900.000, e na ponta do lápis já foram pagos (sorri
como uma criança), e o mais legal: foi munnnndddo
afora.
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| GMT |
Quer
dizer que a viagem da "escrevedora" (risos)
Dora e do menino Josué deixou o Brasil para ser sucesso
lá fora... E a esse respeito, é verdade que o ator Vinícius
de Oliveira (Josué), o engraxate de 11 anos, foi
encontrado, ou melhor, você o achou no Aeroporto Santos
Dumont? |
| Walter
Salles |
Foi
ele quem achou o filme (risos), foi ele. Eu estava lá
numa tarde chuvosa, ele veio dar um "brilho"
nos meus sapatos e disse: - Será que o senhor podia me
pagar metade de um sanduíche? Quando o senhor voltar eu
prometo que pago.
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| GMT |
E
aí?
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| Walter
Salles |
Te
pago um sanduíche inteiro, e em troca você faz um
teste para o cinema, ok?! E foi assim.
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| GMT |
Como
é o Vinícius?
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| Walter
Salles |
Vinícius
é daqueles talentos naturais que brotam por aqui. Foi a
prova do destino, da sorte. |
| GMT |
E
trabalhar com Fernanda Montenegro? Aos 68 anos dar essa
aula ao mundo... Como é o processo dela ao interpretar? |
| Walter
Salles |
Ela
é pura, carismática, autêntica. Viva a Fernanda! Ela
é grande em todos os aspectos possíveis e imagináveis. |
| GMT |
Gostaríamos
de fazer uma superentrevista com ela, Walter. Será que
você poderia fazer essa "ponte" para nós?. |
| Walter
Salles |
É
EVIDENTE!... É maravilhoso ver (conta os alunos) 23
alunos atentos a tudo que falo. Vocês respiram, pensam
minhas idéias, e é esse tipo de gente que quero. É
para vocês que faço meus filmes; para pessoas sensíveis,
cultas, gente de "carne e osso" e de alma
grande. É bom saber que existem jovens com uma forte
educação e formação cênica séria e dedicada, como
é feito aí no MAGNO. Dá seu telefone, Sérgio, que eu
agendo isso para vocês. (Palavra dada, ficaremos em
cima, hein?!) Só não falem para ela de novelas
(risos). |
| GMT |
Walter,
sinceramente: perderemos você para HOLLYWOOD? |
| Walter
Salles |
Hollywood
não me interessa; não estou atrás de carreira. Nesta
sala ninguém está. Me sinto mais um documentarista do
que um ficcionista. Quero fazer um cinema humanista, e
humanismo e fraternidade não têm cotação na bolsa.
Por isso, Sérgio, é que nós nos afastamos dos números
e contas e de toda a economia de mercado. Sentimentos são
indispensáveis para nossa sobrevivência. |
| GMT |
Mais
uma vez gostaríamos de agradecer e entregar-lhe esta
estatueta (demos a ele um Oscar, um livro de fotos do
cinema mundial de 1920 a 1990, da Actor´s Studio, e uma
saraivada da palmas; afinal, ele merece). |
| Walter
Salles |
Só
mesmo artistas verdadeiros para entenderem o sentido da
vida. Eu, vocês e todo o MAGNO estamos buscando o nosso
próprio sentido de viver e fazer um mundo mais próspero,
mais consciente, repleto de educação, arte e
igualdade. Sucesso e Felicidades para todos vocês. E na
entrevista com a Fernanda, dêem a ela, se possível, um
Oscar também. Vindo de vocês é muito mais sincero,
honroso e inigualável... E genuinamente BRASILEIRO |