O Teatro no Colégio Magno

 

 

Arnaldo Jabor

É com muito entusiasmo, que colocamos para o seu enriquecimento cultural, um dos maiores artistas multimídia (cineasta, escritor, compositor, articulista) e grande “cabeça pensante“ do nosso país. Sua personalidade, idéias fortes e consistentes. Simplesmente, Arnaldo Jabor, para toda comunidade Magno/Mágico de Oz.

Arnaldo Jabor começou a carreira em 1962, em O Metropolitano, jornal ligado ao movimento estudantil. Ao longo das décadas de 60, 70 e 80, dedicou-se ao cinema. Antes de lançar Pindorama (1970), seu primeiro filme de ficção, foi assistente de Carlos Diegues, Leon Hirszman e Paulo César Saraceni. Entre seus filmes mais famosos estão Toda Nudez Será Castigada (1973) e Eu Sei Que Vou Te Amar (1984). Em 1991, abandonou o cinema e iniciou colaboração semanal na Folha de S.Paulo, tornando-se uma das personalidades mais polêmicas da imprensa brasileira. Em 1995, começou a trabalhar como comentarista dos telejornais da Rede Globo. Jabor já lançou cinco coletâneas de crônicas: Os Canibais estão na Sala de Jantar (1993), Brasil na Cabeça (1995), Sanduíches de Realidade (1997), A Invasão das Salsichas Gigantes e Amor é Prosa, Sexo é Poesia (2004). Em toda sua obra, seja no cinema ou no jornalismo, ele faz uma crônica dos vícios da classe média do país. Vem daí sua ligação com Nelson Rodrigues, cujo universo temático ele compartilha. Foi dele que Jabor herdou o gosto pela hipérbole e pelo adjetivo, abundantes em seus textos. Capaz de escrever com fluência em estilos variados, é pródigo em aliar citações eruditas a uma visão debochada da realidade brasileira.
Nascimento - 12 de dezembro de 1940 – Rio de Janeiro/RJ

Formação

- Rio de Janeiro/RJ – Colégio Santo Inácio
- Rio de Janeiro/RJ – Curso de Direito na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro

Contatos/Influências
Identificação confessa com o realismo crítico de Balzac, Flaubert e Eça de Queiroz e com o ‘new journalism’ americano, representado por Norman Mailler, Gore Vidal, Tom Wolfe, entre outros.
Afinidade profissional e colaborações com Carlos Diegues, Júlio Bressane, Leon Hirszman e Paulo César Saraceni.
Afinidade intelectual e influência de Nelson Rodrigues, Glauber Rocha e Paulo Francis.

Atividades literárias/culturais
1962 – Trabalha no jornal O Metropolitano (ou O Movimento), ligado ao movimento estudantil
1963 – Começa trabalho no cinema como técnico de som de Ganga Bruta, de Carlos Diegues, e de Maioria Absoluta, de Leon Hirszman
Trabalha como assistente de direção e produtor executivo de Integração Racial, de Paulo César Saraceni
1964 – Faz o curso de cinema Itamaraty-Unesco
1965 – Realiza o curta-metragem O Circo
1967 – Realiza o documentário Opinião Pública
1970 – Realiza Pindorama, seu primeiro filme de ficção
1973 – Estréia Toda Nudez Será Castigada, baseado em obra de Nélson Rodrigues
1975 – Estréia O Casamento, baseado em obra de Nélson Rodrigues
1978 – Estréia Tudo Bem, com roteiro original seu e de Leopoldo Serran
1980 – Estréia Eu Te Amo
1984 – Estréia Eu Sei Que Vou Te Amar
1990 – Estréia Love at First Sight (Amor à Primeira Vista), uma produção da Rette Italia e Telecip, em parceria com a Skylight-Brasil
1991 – Escreve coluna semanal na Ilustrada, da Folha de S.Paulo
1995 – Começa a trabalhar como comentarista de telejornais da Rede Globo
2001 – Estréia coluna semanal no Caderno 2 de O Estado de S.Paulo

10 Livros Preferidos


1) Os Maias, de Eça de Queiroz
2) O Vermelho e o Negro, de Stendhal
3) Dom Quixote, de Miguel de Cervantes
4) No Caminho de Swann, de Marcel Proust
5) Palmeiras Selvagens, de William Faulkner
6) Molloy, de Samuel Beckett
7) Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis
8) Os Sertões, de Euclides da Cunha
9) A Montanha Mágica, de Thomas Mann
10) O Estrangeiro, de Albert Camus


A Palestra e a Entrevista

Em sua apresentação chamada Quem é o Brasil?, Jabor traça um cenário político e econômico do país desde o período colonial até os dias atuais. Com o objetivo de despertar no público um processo de reflexão, ele expõe, de forma provocante, as raízes do comportamento político brasileiro. Seu estilo irônico e mordaz é decisivo para descontrair a platéia e tornar o assunto mais leve. A palestra ainda destaca a importância do mercado e do mundo global para o Brasil. Foi nesta sua última palestra que conseguimos, junto com os alunos do Grupo Magno de Teatro, desfrutar sua intelectualidade e seus impagáveis comentários, os quais seguem abaixo, para nossos assíduos amigos internautas da comunidade Magno.

Grupo Magno de Teatro: O que você achou da eleição dos Estados Unidos?
Arnaldo Jabor - É inacreditável! É quase um golpe de Estado. Acho impressionante... está gravando isto?
GMT: Está sim, é para a entrevista...
Arnaldo Jabor - Ok, tudo bem! Foi uma decisão política de nível. Não há dúvida nenhuma. O Supremo Tribunal Americano é republicano. Então, ele fez uma coisa absurda. Antes, a justiça americana tinha autorizado a contar os votos manualmente, pois o Supremo Tribunal da Flórida é democrata; em seguida, impediu essa contagem de uma maneira absurda porque existiam 44 mil votos que deviam ser contados manualmente e as pessoas emperraram...
GMT: Todo mundo sabia que o Gore iria ganhar!
Arnaldo Jabor- Podia ter sido prorrogado até o dia 18, dia da reunião do Colégio Eleitoral. Quer dizer, prorrogar a contagem até o dia 18, mas é muito típico do republicano esse tipo de truculência; desde o Watergate ocorre esse tipo de eleição. Os republicanos são competentes. Quando eles têm uma chance de entrar, eles entram. Mas foi uma vergonha. Acho que vai ficar um governo sem legitimidade, um presidente sem crença, sem confiança da população. Muitos achavam e eu, por exemplo, achava que o Gore ganharia. Mas dizem que para o Brasil é bom, porque tem o negócio do protecionismo que diminui, porque eles não dão colher de chá para os sindicatos, que exigem esse protecionismo e que financiaram o Gore. Os republicanos dizem isso. Eu vejo o aspecto mais geral da coisa; eu acho que está começando uma nova onda conservadora no mundo. Você vê que o mundo tem uns ciclos bem misteriosos. Eu acho que o Clinton enterrou um ciclo mais liberal e agora acho que vai entrar um período conservador... Não só no Brasil, mas em Israel, por exemplo, o Barak quebrou a cara, quem entrou foi o Sharon. Eu acho que os Estados Unidos estão entrando numa, em que o mundo mudou, mas eles estão entrando em uma postura de reorganizar o controle sobre os países periféricos, principalmente da América Latina; é uma reacomodação do controle.
GMT:Mas como você analisa essa questão, frente à organização independente da Europa em relação aos EUA?
Arnaldo Jabor - Não sei, depois a gente chega lá. Quero terminar, agora dizendo que a gente sente essa reorganização no controle. Esse negócio da ALCA é extraordinário porque eu conheço os americanos direitinho, não só porque eu morei lá, mas porque o negócio do cinema dá uma brecha muito grande de negociação com americanos, apesar de que é um troço pequeno. Cinema é uma besteira, mas é um bom modelo para saber como eles negociam; eles são invencíveis! Eles estão hoje aqui e estão planejando um negócio para daqui a 10 anos. Então a ALCA já faz parte dessa reorganização do controle, como é o plano da Colômbia. Não é que seja conspiratório, mas eles só pensam em controle e poder. A capacidade de negociação dos Estados Unidos, eles não abrem mão. Eles morrem, mas não perdem uma negociação. Eu acho que estamos num período desse. Acho isto muito preocupante para o Brasil. Eu estava meio otimista, mas agora estou começando a ficar preocupado porque se essa ALCA for negociada como eles querem, aí acho que vai ser barra pesada. Essa possibilidade, essa esperança de uma certa autonomia que eles propagam, mas é uma autonomia paradoxal. Eles querem a gente vivo, mas doente, dependente. Esse é o paradoxo, porque eles precisam de mercado, eles precisam que a gente tenha poder aquisitivo. Existe esse paradoxo no capitalismo atual. Eles precisam realmente que a gente cresça.
GMT: Ao mesmo tempo, não é um paradoxo. Eles administram muito bem o mercado deles, abrindo e desregulamentando o nosso.
Arnaldo Jabor - É o que eles estão fazendo...
GMT: A ALCA, no fundo, é uma proposta de desgoverno?
Arnaldo Jabor- Eles já estão dividindo a gente. Nos colocaram contra o Chile; a Argentina já está beijando os pés dele. Esse negócio do Equador...
GMT: Como é que você vê o Fernando Henrique Cardoso frente a isso?
Arnaldo Jabor - O Fernando Henrique falou que o pessoal reagiu demais ao negócio do Chile, mas acho que o Fernando Henrique Cardoso, o governo atual, teve uma função "desconstrutiva" importante, porque o Brasil era um grande erro e tinha que ser "desconstruído", mas está chegando a hora de uma construção prospectiva. Está chegando a hora realmente de uma nova postura geopolítica, não na visão "desenvolvimentista", mas uma outra visão estratégica. Eu acho que a parte "desconstrutiva" era importante para minar essa estrutura clientelista que existe no Brasil.
GMT: A própria visão do BNDES dessa estrutura não acabou. Quando você vê um investimento no Jóquei Clube no Rio de Janeiro, você fala: "é isso realmente investimento?"
Arnaldo Jabor - É outra idéia que não posso discutir tecnicamente. BNDES é uma coisa importante, certo? Mas eu não estou falando disso. Eu estou falando da coisa mais geral da política brasileira. Eu acho que tem que haver um "repensamento", porque está entrando em outro período. Está na hora de um governo mais de esquerda, mais nacionalista, mais protecionista, mas entrando na globalização. O paradoxo todo é esse. A dificuldade é essa. Quem entra no mar se molha, mas se protege. Não adianta você entrar no mar, abrir tudo e morrer afogado sem saber o que pode acontecer. O primeiro ponto é entrar no mar, que a gente entrou, agora está na hora da gente se proteger. Tem que ter bóia, tem que ter apoio.
GMT: Mas e a estrutura administrativa "Malan" do Brasil: o mercado define a glória, define a visão?
Arnaldo Jabor - O Malan é de direita! Eu acho que o mercado é importante.
GMT: Se o mercado define como agregar valor para competir neste contexto, como é que nós vamos entrar para competir?
Arnaldo Jabor - Eles dizem que é só abrir e eles prometem nichos, levando em conta as vantagens comparativas.
GMT: A laranja, por exemplo, seria um dos nossos nichos?
Arnaldo Jabor - Mas eles estão cobrando 45% de taxa para nosso produto entrar no mercado deles.
GMT: Então não é mais nosso nicho. Qual é a regra do jogo?
Arnaldo Jabor - Eu sei, mas esse é que o grande problema. Os americanos negociam assim: falam uma coisa e fazem outra. "Você é quem sabe!" O Malan é um cara legal, é um homem de bem, mas ele foi muito estrito na aplicação da receita americana, da receita de Washington. Agora, nós estamos precisando de um troço mais parecido com Mendonça de Barros, José Serra, que é um cara que eu acho que seria nessa linha. Não é ser "desenvolvimentista", mas menos dependente, menos filial e menos subserviente.
GMT: Você veja o seguinte: o nosso próprio industrial, veja o caso do Cutrale, ele mesmo acabou indo para os Estados Unidos e hoje é um grande exportador do suco de laranja concentrado para a Europa. Como é que nós podemos entender isso dentro do contexto?
Arnaldo Jabor - É difícil entender porque esse tipo de análise, esse tipo de fenômeno econômico e político é muito envolvente, é muito dinâmico. Não dá para definir "fechadamente". Não dá para definir de uma forma fixa. É como definir um trem em movimento. Eu gosto muito do Armínio Fraga, porque ele tem essa visão dinâmica; ele pensa com uma prática. Ele é um americano, foi treinado lá. Eu estive lá em Washington com ele, na reunião do FMI de dois anos atrás. É impressionante, ele é um deles! Só que ele é brasileiro. Eu o conheço muito bem. Ele é um tremendo patriota, brasileiro, a favor do Brasil. Não tem nada de subjugado, como ficam dizendo os babacas, que ele é o homem do Soros. Só que ele conhece tudo, eu vi os caras transando com ele. Ele é da turma, sabe tudo. Está no mercado há 25 anos. Ele é muito competente. O Malan é mais deslumbrado, é meio papo-furado, é um "embaixador político". Ele fica dizendo que os americanos gostam dele. Diz que o filho do Stanley Fisher e o filho dele estudam no mesmo prédio... Sabe esse tipo de coisa? O Armínio não. É mais moderno.
GMT: Uma vez você falou no programa "Manhattan Connection"...
Arnaldo Jabor – Ximena, aquele programa não é muito sério. Naquele programa, temos que ficar dizendo bobagens o tempo todo...
GMT: Nós estávamos falando de Cingapura. O modelo de Cingapura é um modelo peculiar. O que deu certo lá e porque não dá certo aqui?
Arnaldo Jabor - Primeiro que Cingapura é do tamanho do Estado do Rio de Janeiro. É enorme... Segundo que foi repressão política barra-pesada. Quem dirige aquele país é um tirano esclarecido e que há 30 anos atrás, 1969, começou a fazer tudo ao contrário do que o Terceiro Mundo fazia. O Terceiro Mundo, em plena Guerra Fria, tinha o negócio de defesa contra os americanos. Ele não, ele fazia tudo ao contrário. Ele abriu a economia. Implorava para as firmas americanas se instalarem lá. Ele abriu tudo na base da porrada política. Ele exterminou os comunistas, comprou a classe média com o negócio de fazer "casinha" própria. Deu crédito para isso e criou lá um regime meio barra-pesada e isso desenvolveu muito. Ele andou muito antes do tempo sem querer e aí o tempo mudou, e Cingapura saiu muito desenvolvida. Não é modelo para nada para a gente.
GMT: Vamos pegar um ponto interessante que é o Fernando Henrique. O Alain Tourraine é muito amigo do Fernando Henrique e até a visão política é muito semelhante. Só que hoje, até ele, começou a falar mal da visão política do Fernando Henrique, com alguns pontos muito bem colocados. É verdade ou você acha que é bobagem?
Arnaldo Jabor - Eu acho o seguinte: eu acho que o Fernando Henrique... Aí é uma longa história... Eu conheço o Fernando Henrique há muitos anos, sou amigo há 20 anos. Ele é um cara que tem uma personalidade muito gelada. É... Ele não tem paixão. Mas ele é o melhor cara que nós tivemos na presidência. Não existe uma pessoa mais preparada do que ele, nem nunca teremos. Ele é o presidente mais bem preparado do mundo. Eu acho que as coisas que ele está errando é por conta da personalidade dele, da incapacidade que ele tem de enfrentar problemas.
GMT: Quer dizer que é característica do intelectual?
Arnaldo Jabor - Não, isso é característica dele. Por outro lado, a paciência dele é maravilhosa e aos poucos ele está conseguindo muita coisinha. Por exemplo, a Lei de Responsabilidade Fiscal é uma questão fundamental.
GMT: O problema do Brasil está no Congresso Nacional?
Arnaldo Jabor - É um problema muito grande. É o problema do Congresso, é o problema das instituições rarefeitas, das instituições autoritárias. Toda a problemática brasileira. Foi muito bom o Fernando Henrique ter aparecido, pois ele, apesar dos defeitos, é um estadista. Ele manteve uma certa paz brasileira. Muita coisa tem melhorado sim. É muito fácil a gente só esculhambar o Fernando Henrique, porque é aquela figura de pai, mas muita coisa está melhorando, coisas imperceptíveis.
GMT: A melhor contribuição dele foi a "desconstrução" que você falou?
Arnaldo Jabor - É... "Desconstruir." O Brasil tinha que ser "desconstruído", para poder construir de novo, em novas bases... Ele pegou o país quebrado.
GMT: Como você promove essa nova construção? Como fazê-la sem ainda ter concluído a "desconstrução" que você fala? Ainda existe muita coisa a ser mudada, ainda tem muita intervenção do governo. Veja esse projeto de quebra do sigilo fiscal.
Arnaldo Jabor - É uma farsa a aprovação desse projeto de quebra de sigilo. Que é fundamental que se combata a sonegação, é indiscutível, mas essa lei é uma farsa. O Congresso sabe que vai ser derrubado. O Senado votou por unanimidade.
GMT: Mas ela é inconstitucional.
Arnaldo Jabor - É, mas aí eles vão dizer: "Não, a gente tentou tudo."
GMT: Como então fazer essa nova construção?
Arnaldo Jabor - Ainda faltam dois anos. Se conseguir fazer a reforma da previdência, a reforma tributária. Se for feita a reforma administrativa mais organizadamente, se fizer a reforma eleitoral. Isso é fundamental, além da reforma do judiciário... O problema é esse, é muito difícil.
GMT: A colocação do difícil é por causa da existência do impossível? Mas quem reflete no impossível são os partidos políticos. Eles é que controlam o impossível.
Arnaldo Jabor - Não são só os partidos, mas toda estrutura brasileira, toda atitude psicológica. É difícil modificar uma prática secular. A minha opinião é esta, mas posso estar enganado. Por outro lado, a gente não pode ficar sem partidos, tem que ter partido, tem que ter democracia.
GMT: Democracia tem que ter. E a cultura brasileira dentro da globalização? Está indo para cima ou para baixo? Queremos agora explorar o cineasta. Você fez vários filmes, desde "Eu te Amo", que teve bilheteria maravilhosa; "Eu sei que vou te amar", onde a Fernanda Torres ganhou em Cannes o prêmio de melhor atriz. De repente, Jabor larga o cinema...
Arnaldo Jabor - O cinema brasileiro é inviável, é impossível. Mercado é mercado.
GMT: Quer dizer que eu, que estou fazendo meu futuro para trabalhar em cinema, serei inviável... (todos riem - aluna do Magno, que faz curso para cinema na ECA)
Arnaldo Jabor - É. Talvez. (todos riem) Eu não filmo mais.
GMT: E o cinema francês, alemão, inglês...?
Arnaldo Jabor - Também são. (todos riem)
GMT: O iraniano também?
Arnaldo Jabor - O iraniano é outra coisa, Marcela. No cinema iraniano, surgiu um cineasta lá que faz os filmes bem baratinhos e conseguiu ingressar no mercado de artes da Europa, um pouquinho também no mercado de artes americano. Aquilo ali é um fenômeno bonito, mas é nada.
GMT: É como foi o nosso? O Cinema Novo?
Arnaldo Jabor - No Cinema Novo, se você observar os melhores filmes, as melhores bilheterias, não tem nem cem mil espectadores. Foi um fenômeno num tempo em que a cultura de marketing não estava consolidada ainda e que a manifestação artística existia com seu valor intrínseco. Hoje, o valor de mercado é o que manda. Então, você quer fazer um filme que vai ter 100 mil espectadores; pode ser o melhor filme do mundo, aquilo não existe. Não acontece, mas isso é uma longa discussão.
GMT: Mas, e o Cacá Diegues, seu grande amigo? Ele ainda está filmando!
Arnaldo Jabor - Primeiro que ele foi um herói da persistência, um trator, uma tartaruga, ele vai onde ninguém agüenta...
GMT: Então, nesta situação é melhor entrar para a igreja evangélica? Essa é a pergunta. Já que está tudo ferrado, entramos todos para a igreja evangélica...
Arnaldo Jabor - Hum...
GMT: Vamos entrar ou não?
Arnaldo Jabor - Vamos rezar! (todos riem)
GMT: Jabor, você acha que no cenário atual, após as eleições municipais, há alguma perspectiva das esquerdas avançarem no Brasil?
Arnaldo Jabor - Acho que essas eleições passadas foram geniais, porque as esquerdas tomaram o poder municipal em muitos lugares, o que é bom para treinar e, ao mesmo tempo, preparar-se para a guerra e para a realidade, pois eles pensam que o mundo é uma ideologia abstrata.
GMT: Então, quer dizer que hoje em dia a esquerda é o sustentáculo da globalização no Brasil?
Arnaldo Jabor - Eu não falei isso. É uma situação muito dinâmica. Não dá para você fazer uma avaliação fechada. A gente tem que suportar um pouco essa indefinição.
GMT: Mas, no fundo, a esquerda está promovendo a sobrevivência do processo?
Arnaldo Jabor - Mas a esquerda só tomou o poder em alguns lugares. É importante que haja uma visão oposicionista mais forte, para a própria oposição crescer, senão a oposição fica só capotando, o que não é legal.
GMT: O que não interessa.
Arnaldo Jabor - Não interessa, tem que ter uma posição propositiva. Senão vai acabar destruindo orelhão. Não pode, tem que participar do processo.
GMT: Jabor, onde surgiu a idéia de seu novo livro?
Arnaldo Jabor -Foi uma idéia da Isa Pessoa, editora, de reunir meus textos mais nostálgicos, afetivos e relacionados com a sexualidade. Acho que as pessoas, principalmente as mulheres, estão muito carentes de amor, mas não no sentido de mulher, homem. Estão carentes de um pouco mais de gentileza, de delicadeza na vida, porque o Brasil está muito barra pesada, está uma guerra. Então dá uma fome de carinho, de amor, paz.
GMT: O livro é um contraponto ao excesso de erotismo que você costuma criticar?
Arnaldo Jabor -O problema, Sérgio, não é bem excesso de erotismo, mas a supervalorização da sexualidade como uma coisa milagrosa, mitológica. Nos anos 60, 70, a sexualidade era uma coisa política, importante, os direitos da liberdade sexual, a pílula. Hoje, virou uma coisa meio vulgar, porque já pode tudo. Virou um exibicionismo, uma espécie de salvação. A única salvação é a sacanagem. Você pega as revistas que mostram as celebridades, como a IstoÉ Gente, e o cara casou num dia, depois separou, e já mudou de mulher. É um harém rotativo de homens e mulheres. Pode ser até que eu esteja com inveja, mas é uma coisa muito louca.
GMT: Inveja? Mas você não tem sido apontado como símbolo sexual, não foi casado três vezes?
Arnaldo Jabor - Imagina, eu, símbolo sexual? E casamento é sofrimento, não é sexo. Quando separa, dá um trabalho danado. Já fui casado três vezes, são três sofrimentos, não é brincadeira. Quem sabe curtir são esses garotões que não casam e ficam comendo todo mundo.
GMT: Como foi a experiência de fazer uma música com Rita Lee (a crônica que dá título ao livro virou sucesso da cantora)?
Arnaldo Jabor - A Rita leu a crônica, adorou, me ligou e disse: “Jabor, vamos fazer uma música com essa letra?” Topei e ficou do cacete, adorei. Conheço a Rita há muito tempo, mas nunca tinha feito música com ela, é minha primeira letra. Já fiz muita coisa na vida, mas música ainda não tinha feito. Agora, estou com vontade de fazer outras com a Rita.
GMT: E cinema, tem vontade de voltar a fazer?
Arnaldo Jabor -Por enquanto, não. Descobri que sou mais jornalista do que cineasta. Gosto mais de escrever do que de filmar. Não tenho mais saco para as aporrinhações que antecedem e sucedem o cinema. Fazer o filme eu gosto. Não gosto da aporrinhação que vem junto, a captação, o lançamento, distribuição. E acho que faço uma espécie de cinema pessoal, particular. Falo para 50 milhões na tevê, faço performances. Mas minha filha, Carolina, filma muito melhor que eu.
GMT: Ela pede conselhos?
Arnaldo Jabor - Eu é que peço. Quando tenho alguma dúvida sobre cinema, ligo para ela. A Carolina sabe tudo. Essa juventude é craque. Eu levo esporro das duas filhas. Uma, que é antropóloga, me diz para não falar bobagem. A outra, que é cineasta, filma melhor que eu. Acho ótimo! Os filhos têm que ser melhores que os pais. Tenho também um filhinho de 5 anos, o João Pedro, que mora em São Paulo com a mãe.
GMT: Qual a sensação de ter sido pai aos 58 anos?
Arnaldo Jabor - É uma vertigem, e filho homem é uma coisa maravilhosa, porque ele se identifica com você. Você vai fazer a barba, ele quer fazer também. Você ensina a fazer xixi, a dar as três batidinhas, é um barato. Estou completamente apaixonado pelo João Pedro, que é um menino extraordinário. Deu uma luz na minha vida. Não posso morrer já, é aquela história de acompanhar o crescimento dele.
GMT: Tem se cuidado mais?
Arnaldo Jabor – Claro! Faço exercícios. Estou querendo emagrecer mais, porque ainda estou gordo. Faço ginástica, como comidas leves, não fumo, não bebo. Quero viver bastante para ver esse menino adulto, para orientá-lo, ajudá-lo a crescer nesse mundo mau. Ele é um alento de vida.
GMT: Quando aderiu ao jornalismo?
Arnaldo Jabor - Comecei a escrever há 12 anos, na Folha de S.Paulo, porque estava duro. O cinema brasileiro tinha acabado por causa do Collor. Fiquei passando fome. Esse apartamento aqui (na Lagoa, um dos pontos nobres da zona sul carioca) estava hipotecado e não tinha dinheiro para pagar a hipoteca. O Babenco (cineasta Hector Babenco) me emprestou
US$ 10 mil e vivi cinco meses com esse dinheiro. Arranjei um emprego na Folha, mudei para São Paulo, depois passei a escrever para outros jornais e começou a melhorar. Mas fiquei mal. Estava com 49 anos, com sete filmes no currículo, premiado em festivais como Cannes e Berlim, e sem dinheiro para dar às minhas filhas, para pensão.
GMT: O que acha do cinema brasileiro após a retomada?
Arnaldo Jabor - É um barato. O cinema que se faz agora no Brasil é muito bom, técnica e esteticamente. Os mais moços têm uma relação mais dinâmica e atualizada com o cinema. E tem filmes fantásticos, desde Cidade de Deus, Deus É Brasileiro, Carandiru, esse Contra Todos, do Roberto Moreira, os filmes do Guel Arraes, esse Ônibus 174, que é uma obra-prima. Uma coisa maravilhosa. Aí vêm esses chatos encher o saco com esse negócio da Ancinav.
GMT: É contra a Ancinav (Agência Nacional de Cinema e do Audiovisual, criada pelo governo Lula)?
Arnaldo Jabor - É o lado bolchevista do governo Lula. Os caras querem controlar a realidade, coisa que o Lula jamais fez. Ele não é burro de achar que realidade se controla, mas esses caras têm a velha mentalidade leninista de fiscalizar, controlar, censurar. A Ancinav é desnecessária. Já tem legislação, já tem tudo, isso aí é o cara que entra e diz: “Agora eu vou controlar esse negócio”. É o Juca Ferreira (secretário-executivo do Minc), o Orlando Sena (secretário do Audiovisual).
GMT: O governo não deve se meter no cinema?
Arnaldo Jabor - O cinema hoje se faz livremente, em associação com vários grupos, até com empresas estrangeiras. Não tem mais aquele papo estatista. O Estado pode ajudar com subsídio, dar força, mas não pode ser um escritório dizendo qual filme vai ser produzido. Isso é coisa da antiga União Soviética.
GMT: Como avalia o desempenho de Gilberto Gil no Ministério da Cultura?
Arnaldo Jabor - O Gil é ótimo, um grande artista, mas politicamente é meio ingênuo, se deixa controlar por uns comunas lá do Ministério. Ele deve estar fazendo coisas boas, mas esse negócio da Ancinav é um bode que jogaram no colo dele. Logo o Gil, um dos líderes da liberdade de criação no Brasil, que foi expulso do país pelos militares, teve que passar três anos em Londres. O Gil é uma flor. Não o estou criticando, mas acho complicado como ele se deixou envolver. O Gil tinha que estar preocupado, por exemplo, com o candomblé, que está sendo exterminado pelos evangélicos na Bahia. Não ficar preocupado se a Globo vai exibir qual filme, quantas vezes, ou como o cinema brasileiro tem que ser. Isso é antidemocrático.
GMT: Qual sua opinião sobre o governo Lula?
Arnaldo Jabor - Vi o filme do João Moreira Salles sobre o Lula (Entreatos). É impressionante como ele é superior aos seus correligionários. O Lula é intuitivo, tá vendo tudo acontecer. O Palocci (Antônio Palocci, Ministro da Fazenda) é outro cara admirável, mas o Lula sabe tudo. O filme mostra como ele é inteligente. Os caras falando bobagem e ele rindo, sacando. Aí, quando resolve falar, só diz coisas boas. É ótimo o discurso político do Lula. Acho-o pessoalmente muito bom.
GMT: Jabor, mudando o foco do tema, houve momentos em que você prestou mais atenção a temas culturais, ao Cinema Novo, à sua geração artística?
Arnaldo Jabor - Não separo os temas culturais da política. É tudo parte de um só emaranhado. Escrevo mais sobre política porque, no Brasil, ela assume dimensão monumental.
GMT: Você tem acompanhado as reuniões do Grupo Executivo de Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica (Gedic), que está para dar origem a uma Agência de Cinema?
Arnaldo Jabor - Não. Eu abandonei o cinema. Há dez anos sou jornalista, vivo de jornalismo. Mas não nego que estou tentado a voltar. Até porque minha mulher (a produtora Suzana Villas-Boas) é uma fera na área da produção audiovisual. Ela produziu filmes importantes como Feliz Ano Velho (Roberto Gervitz, 87), Vera (Sérgio Toledo, 86), entre outros. E está voltando a produzir. Minha filha, Carolina Jabor, é uma das melhores diretoras de comerciais do País. Faz um belo trabalho na Conspiração Filmes, aquela badalada produtora carioca. Eu larguei tudo. Nem publicidade faço mais. Só jornalismo.
GMT: E seu trabalho na televisão? Continua motivador?
Arnaldo Jabor - Adoro meu trabalho na TV. Minha geração nutriu-se de um caráter romântico e messiânico. Se você pegar os filmes do Cinema Novo, perceberá em todos eles um desejo de influir na realidade brasileira. Perceberá a busca de estética e ética transformadoras. É assim nos filmes do Gláuber (Rocha), do Nelson (Pereira), do Cacá (Diegues). Me sinto, na TV, cumprindo a missão que o Cinema Novo nos dava. Cada comentário meu traz este desejo de influir, de se meter na vida brasileira, de sentir-se útil. Já fiz coisas louquíssimas no ar. Já explodi ovo, já desenhei mapa, já falei em off, já apaguei a luz e falei segurando uma vela...
GMT: E fazendo cinema, você não se sentia útil?
Arnaldo Jabor - Sentia, mas fazer cinema no Brasil é complicado. Vida de cineasta, aqui, é bater em porta fechada. Na TV e nos jornais, me exercito no dia-a-dia. E ainda tem o Manhattan Connection, que é semanal. Antes eu gravava em Nova York. Agora, gravo no Rio, via satélite. Eles editam e fica parecendo que eu estava com meus colegas no estúdio. O programa é ótimo, líder de audiência na TV a cabo. As pessoas gostam porque é debate vivo, polêmico, com gente de opinião. Todo mundo quer ouvir opiniões. As pessoas estão perdidas, atarantadas com tantas realidades novas a desafiá-las. Por isso, os jornais publicam cada vez mais artigos opinativos.
GMT: Não restou nenhuma vontade de voltar a filmar?
Arnaldo Jabor - Sim, de vez em quando penso nisso, mas jamais a vontade de voltar a viver de cinema. Isso não. Quero viver de jornalismo. Mas o fato de minha mulher ser uma produtora extraordinária e de os amigos viverem me incentivando, pode ser que me façam voltar a filmar. Aliás, comprei os DVDs do (Andrei) Tarkovski (1932-1986) e estou curtindo assisti-los. Ele tem aquela coisa meio mística, aqueles filmes loucos, Nostalgia, O Sacrifício, Andrei Roublev... Filmes maravilhosos. Se eu voltar a fazer cinema, o farei no terreno do cinema poético. Não quero saber de cinema comercial. Já tentei fazer a ponte entre o cinema comercial e o de qualidade. Equação dura e na qual até que me dei bem. Mas agora não estou mais a fim de fazer filminho para conquistar mercado. O mercado brasileiro não é mais conquistável. Já foi conquistado pelos americanos. Quero é fazer filme poético, fazer pelo prazer mesmo do fazer.
GMT: Você vem acompanhando o novo cinema brasileiro? Algum filme recente o estimulou?
Arnaldo Jabor - Acabo de ver O Xangô de Baker Street, do Miguelzinho (Miguel Faria Jr). Ficou ótimo, muito legal mesmo. Vi também Copacabana, da Carla Camurati. Adorei. É um filme delicado, poético, felliniano. Me deu vontade de filmar. Fellini é o máximo. Esta coisa que ele tem, esta compaixão pelas pessoas, pela vida, este amor pela beleza, esta coisa literária e renascentista ao mesmo tempo me encantam. Quanto ao cinema americano atual, ele me causa horror, repulsa. Por sorte, temos os Fellini da vida, o cinema europeu...
GMT: O ensaísta Ismail Xavier sustenta no livro Cinema Marginal e Suas Fronteiras que Pindorama, sua primeira ficção, e Os Deuses e os Mortos (de Ruy Guerra) têm mais a ver com o Cinema Marginal que com o Cinema Novo. Você concorda?
Arnaldo Jabor - Na época em que ambos fizemos esses filmes (69/70), havia duas coisas: absoluta falta de dinheiro para se produzir filmes, o que levou muita gente a fazer qualquer porcaria em dois ou três dias, e o desespero total frente ao AI-5 (13/dez/68). Nunca vi desespero tão grande na história brasileira. As pessoas enlouqueceram. O que é Câncer, ou Pindorama, ou Os Deuses e os Mortos senão filmes loucos? Nós estávamos loucos, buscávamos a autodestruição. Esse é o ponto em comum com o cinema underground. Os filmes do período são descabelados, autodestrutivos, queríamos destruir a linguagem e chegamos a certa afasia. Era uma coisa psicótica. Tem gente, até hoje, que não entende o que é aquilo. Mesmo assim, do meio deles, surgiram obras-primas, como é o caso de O Bandido da Luz Vermelha (68).
GMT: Então você atribui ao momento histórico, e não a um possível diálogo de geração, essas características similares entre filmes cinemanovistas e marginais?
Arnaldo Jabor - Não há influência nenhuma de ninguém sobre ninguém. O que despencou sobre nossas cabeças foi o AI-5. E com ele veio um desespero monumental, uma descrença em qualquer coisa. A mais terrível das descrenças se abateu sobre a esquerda. A derrota foi tão radical, que a esquerda se voltou contra ela própria. Os mais jovens ficaram contra nós, os 'comunas'. Vivemos anos de derrota radical, de piração. Já escrevi isso e repito: a contracultura, no Brasil, não teve nada a ver com hippie e flower power. Tem a ver, isto sim, com porrada, sofrimento, masoquismo, doença, droga, muita droga, guerrilha. O cara atuante tinha duas saídas: a droga ou a guerrilha. O reflexo deste momento no cinema foi esta espécie de suicídio público. Paulo Emílio (Salles Gomes), me lembro bem, observou: "São filmes suicidas".
GMT: O cronista Arnaldo Jabor é tributário de quem? Nélson Rodrigues é sua maior inspiração?
Arnaldo Jabor - Sempre gostei de escrever. Minha formação se deu pela literatura. O cinema chegou mais tarde, depois da literatura e do teatro. Eu já tinha mais de 20 anos quando me interessei por ele. Eu lia Rimbaud, João Cabral, Jorge de Lima e muito teatro: Tennessee Willians, Eugene O'Neil, Edward Albee... Só pensava em poesia e teatro. Até que um dia fui parar num ciclo de cinema italiano, seguido de um ciclo francês. Aqueles ciclos completos, que iam da fase muda até o presente. Descobri ali que o cinema vinha sendo algo secundário na minha vida. Que minha formação era literária. Li muito Eça (de Queiroz). Este sim é minha maior influência. Minha e do Nélson Rodrigues. Me sinto uma espécie de afilhado do Nélson de tal forma, que chego a psicografar (risos) textos dele. E ficam tão convincentes que d. Elza, a viúva, lê e diz que está igualzinho. Na minha formação, há muito da literatura americana: Faulkner, Hunther Thompson, Norman Mailer, Scott Fitzgerald. Meu lance de amor com a literatura e com a dramaturgia é muito grande. Por isso, nos meus filmes, sempre dei muito valor ao roteiro, à dramaturgia, aos personagens. Nunca quis valorizar apenas as imagens. Escrever não é um sacrifício para mim. É um prazer renovado.
GMT: Cinema, teatro, televisão, imprensa. Você se definiria hoje como um artista multimídia?
Arnaldo Jabor - Eu me defino como alguém que fez cinema durante vinte e poucos anos com a mesma perspectiva com que hoje faço jornalismo e comentários em televisão. A perspectiva de entender o Brasil, ajudar a melhorar o país. É um vício iluminista. Tento jogar um pouco de luz num país tão surrealista como o nosso. No jornalismo, é linha direta. Faço uma espécie de filme de mim mesmo. Eu sou o diretor, o ator e a vítima do crime. Me coloco na posição de sujeito e cidadão. Tento ser uma espécie de desbravador do óbvio. Pela primeira vez na minha vida, me sinto como um instrumento de utilidade pública.
GMT: Quais são as principais influências do Arnaldo Jabor, autor destes "Sanduíches de Realidade"?
Arnaldo Jabor - Eu me identifico com os artistas que atacam a realidade aceita como normal. Gosto dos escritores realistas críticos, na tradição de Balzac, Flaubert e, na língua portuguesa, Eça de Queiroz. O new journalism americano também me influenciou muito. Norman Mailler, Gore Vidal etc. A idéia de usar o efêmero do jornal para analisar o eterno erro da vida. O efêmero é mais moderno que o eterno. O efêmero vitaliza a literatura. Nas minhas crônicas, busco a seriedade do texto literário. Se está escrito em jornal ou livro, não importa tanto. "Os Sertões" foi publicado em capítulos no jornal antes de sair em livro. Até penso em escrever um romance em capítulos em jornal. O suporte do jornal é muito moderno e muito profundo.
GMT: Suas crônicas muitas vezes são delirantes. Essa é uma forma de dar conta do surrealismo brasileiro?
Arnaldo Jabor - Acho que a realidade é delirante. Não existe uma separação do mundo do sonho e do mundo da vigília. Inconsciente e mundo são duas coisas intrincadas. Não acredito em sujeito de um lado e objeto de outro. Sujeito e objeto se confundem. Tento ser sujeito e objeto. Os idiotas da objetividade, como dizia o Nélson Rodrigues. Está escrito por um sujeito, um ser vivo, que também é objeto da realidade. No Brasil, principalmente, ficção e realidade são a mesma coisa. A petite histoire brasileira é tão importantre quanto as grandes causas históricas. O Brasil é um país muito novelesco. O que aconteceu conosco no período do Collor foi um melodrama.
GMT: Como um dos principais "analistas" do Brasil, você nutre esperanças em relação ao país?
Arnaldo Jabor - O Brasil progride enquanto dorme. É um país tão rico culturalmente que evolui meio sozinho, a despeito dos seus políticos. Minha esperança é mais na antropologia do que na ideologia. Você vai para a Bahia e vê que aquilo está salvo, que está enraizado na alma das pessoas. Existe uma resistência na força cultural do Brasil que a política não consegue matar. Não vejo nenhuma ameaça na globalização no sentido de acabar com a cultura brasileira, porque essa é uma cultura muito forte. Percebo que o Brasil está num momento de muita curiosidade crítica sobre si mesmo. O Brasil hoje é um enigma, um suspense, não é mais uma ilusão. Nossa história se escreve pela perda progressiva das ilusões. E aos alunos do Magno, que são o futuro deste país, peço que não caiam nesta incrível perda. Vamos modificar aquilo que podemos. O futuro do país depende disto.
GMT: Jabor, muito obrigado por esta entrevista incrível, adoramos este bate papo .
Arnaldo Jabor – Foi um prazer poder conhecê-los e trocar pontos de vistas e idéias. Obrigado! A vocês do colégio MAGNO, um forte abraço !

Jabor comenta no Jornal Nacional
17/dez - A paranóia é uma doença conhecida. O sujeito acha que o mundo inteiro está errado e que só ele está certo. Por isso, todo o mundo o persegue. Mas, hoje em dia, a paranóia é também um grande capital político.
Quanto mais paranóico for um povo, mais fácil de comandar. O Osama deu uma ajuda preciosa ao Bush. Quando ele entrou, não sabia o que fazer. Osama deu-lhe um programa, um projeto.
A espionagem e os órgãos de segurança se enfraqueceram com o fim da Guerra Fria. Ficaram defasados diante da novidade: inimigos invisíveis e suicidas se reproduzindo como coelhos-bomba.
Agora, Bush vai congregar todos os espiões sob seu controle direto. Ele e seus cientistas loucos serão os protetores da América. E protetores precisam de um povo com medo. Mais medo do povo, mais poder. Mais poder menos democracia. Menos democracia e Bush fica mais próximo de seu ideal: uma América isolada, puritana e de marcha à ré.

24/dez - Papai Noel deixou aqui uns presentes para os destaques do ano que passou.
Temos aqui: detector de mentiras para políticos corruptos. Temos um manual de reforma do Judiciário, que não sai nunca. Temos uma ideologia para o PMDB, que não tem nenhuma. Temos óleo de peroba para lustrar caras-de-pau de chefes e investigados de CPIs.
Para o Lula temos: dicionário de metáforas, um boné multiuso - serve do MST até o time do Santos - e remédio para emagrecer obesos e engordar famintos.
Temos a declaração dos direitos do homem, para os assessores do Ministério da Cultura. Medalha para o Palocci, medalha para a Polícia Federal, medalha para o Ministério Público e um pacote de reformas: da Previdência, política, tributária. E também temos um coração para Osama e um cérebro para Bush.
Para os brasileiros, Papai Noel mandou consciência de seus direitos e olho vivo para seus políticos. E também sobrou um saco para todos agüentarem com paciência até o ano que vem.

04/fev - Viva o carnaval! Vamos ver a escola de samba do ano que passou. Vejam a porta-bandeira vermelha com a estrela do PT. E atrás vem a estátua do Lula com as duas alas do governo nas mãos.
Os neoliberais subindo os juros, os radicais apedrejando, seguidos pelos foliões do MST, invadindo as arquibancadas com foices.
A ala da Fome Zero: magros dançando com a ala dos obesos. Gordos e gordas batucando nas barrigas.
E aquilo? São urubus? Não. É a ala dos juízes, de preto, em cima de uma pirâmide de processo até o céu. E atrás deles, felicíssimos, a ala dos corruptos, nus de colarinho branco.
A mais animada é a ala da irresponsabilidade fiscal com centenas de prefeitos rebolando com vereadores jogando dinheiro para o alto. E o povo aplaude a ala das bobagens, destacando o grande bigode do Greenhalgh e o avião do Lula.
Mas a grande expectativa é a alegoria da solução. Mas o alto-falante informa que o carro quebrou. Senhores da avenida, não veremos a solução.

Frases

"Os falsários tentam imitar meu estilo de texto, mas são tão maniqueístas, que os que me conhecem bem sabem que não fui eu que escrevi."

"Tento ser uma espécie de desbravador do óbvio."

"Sempre gostei de escrever. Minha formação se deu pela literatura."

"Eu larguei o cinema, mas não nego que estou tentado a voltar."

"Tanto o Brasil como eu precisamos de uma reforma fiscal, pois vivemos em déficit."

"Não me chame de senhor que eu me deprimo."

"Eu vejo o 'Altas Horas' porque eu tenho insônia. E adoro ver o Serginho e os jovens deste Brasil."

"Gosto de chegar na redação do Jornal e ler a pauta para saber o que falarei. Gosto de escrever sob pressão, pois, o dia que eu não escrever, eu perco o emprego."

"Sou um maluco que anda por aí."

"Nunca mais comento o Oscar."

"Até hoje recebo e-mails de pessoas me xingando de canalha por causa do Oscar."

"Lembro que eu e meu amigo, na nossa infância, nos excitávamos com os livros de medicina legal do pai dele."

"O cinema brasileiro é impossível, é inviável. Mercado é mercado."

"O mundo está tão louco que só a ficção dá conta da análise política ."

"Está limitada a importação desenfreada de filmes estrangeiros no Brasil."

"O melhor cinema do mundo é o ucraniano."

"'Pindorama' foi um fracasso, mas, para compensar, 'Toda nudez será castigada' foi meu melhor filme."

"Na época de 'Pindorama', tinha 27 anos e nunca tinha dirigido um ator. Incrível como deram dinheiro para um estreante fazer um filme histórico."

"’A Vida é Bela’ levou o Oscar porque americano gosta de filme que tenha judeu, criança e cachorrinho."

Estados Unidos

"Os Estados Unidos têm uma postura de reorganizar o controle sobre os países periféricos, principalmente da América Latina; é uma reacomodação do controle."

"Eles querem a gente vivo, mas doente, dependente."

"Osama bin Laden é um símbolo. Os EUA estão errando em atacar o homem, eles têm de atacar o sistema."

Opiniões

"O verdadeiro país é este, o país que produz, o país dos empresários, das coisas do chão, do agribusiness. É muito mais profundo que o país do lero-lero, o país do eixo Rio – Brasília – São Paulo, o país que sai no jornal. O ciclo está sendo quebrado, o Brasil virou um problema da sociedade e não a sociedade um problema do país."

Roberto Marinho: "A importância dele vai além do jornalismo e da televisão. Ele influenciou nossa vida, a linguagem e a cultura do povo brasileiro."

"A miséria não acaba porque dá lucro."

"Tudo vai melhorar quando a maioria das pessoas de bem forem mais ousadas que as canalhas."

"Na TV, mais importante do que ser profundo, é ser claro e interessante todo dia."

"Estou achando isso aqui uma arte maravilhosa, bem melhor do que a Bienal."

"A derrota de ACM abre uma nova era na política do Brasil, o fim do coronelismo vaidoso e autoritário."

"Grossura não tem limites..."

"Cachaça é a metafísica do pobre que, sem saber, está amarrado a tradições de milênios."

"A globalização é a invasão do capitalismo moderno e mais privatista. Isso gera modificações na economia, nas administrações pública e privada e na ética das negociações. Essa é uma das grandes conquistas desse modelo."

"No Brasil, o barroco é sexy, principalmente na Bahia. Você entra em uma igreja barroca e as santas estão lá, com aqueles peitões que mais parecem a Feiticeira."

"Hoje em dia, somos praticamente masturbados pelas propagandas de lingeries em outdoors."

"A bunda virou um instrumento de ascensão social. Nossas pobres meninas românticas, pensando em amor e filhos, lutam por um lugar ao sol e são obrigadas a rebolados cada vez mais desbragados (...). A bunda hoje é um capital."

"Certos deputados querem fechar a imprensa. Desejam uma lei que os defenda da opinião pública. Aí acaba a democracia."

"Brevemente, ouviremos a aeromoça falando: ‘senhores passageiros, em caso de assalto, cairão automaticamente à sua frente coletes de aço e capacetes protetores contra tiros. Coloquem, e depois tenham calma com os ladrões. Não invadam a primeira classe, toda blindada e equipada com kits de sobrevivência, com champanhe e caviar para seqüestros de longa duração.’ O problema no Brasil é que os ladrões principais não viajam armados. São todos bem vestidos e protegidos por nossas leis em vigor. E já que a reforma do Judiciário não sai, o que nós precisamos é inventar um raio X para Lalau, para gatunos de colarinho branco. Raios x para as almas negras dos corruptos, principalmente no aeroporto de Brasília."

"O que está acontecendo no mundo, atualmente, é uma confusão danada: uma história que não vem de hoje, vem de uns 1000 anos atrás, desde a fundação da religião muçulmana. O Oriente é islâmico e o Ocidente é cristão, ou seja, duas religiões monoteístas infalíveis - não há espaço para duas verdades num mesmo mundo.O Ocidente visa ao progresso, à mudança, já o pensamento oriental visa à eternidade, à fixação, ao mundo imóvel. É a guerra da verdade contra a razão, da teologia contra a democracia. Ninguém sabe o que vai acontecer. É feito doença que não tem cura - essa guerra não tem solução."

Agradecimentos
Rede Globo de Televisão (Jornalismo)
Arnaldo Jabor
Rádio Globo
Jornal – O Globo
Site oficial de Arnaldo Jabor
Grupo Magno de Teatro

Obs – Esta entrevista não tem fins lucrativos, serve de consulta para os alunos do colégio Magno, estudantes e internautas, conhecerem mais Arnaldo Jabor, suas idéias e sua extensa obra cultural .


Próximas Entrevistas
Junho 2006 – Grupo Corpo de Dança, Débora Colker, o encontro que aguardávamos, do Brasil para encantar o mundo, com sua nova concepção de dança.
Setembro 2006
Lima Duarte ! Com muita história para contar !
Novembro 2006
Marcello Antony, sua vida, método de trabalho e um pouco de suas idéias. Difícil será segurar as alunas (rs).
Gostou, né!
 

    

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