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É com muito
entusiasmo, que colocamos para o seu enriquecimento cultural, um dos
maiores artistas multimídia (cineasta, escritor, compositor,
articulista) e grande “cabeça pensante“ do nosso país. Sua
personalidade, idéias fortes e consistentes. Simplesmente, Arnaldo Jabor,
para toda comunidade Magno/Mágico de Oz.
Arnaldo
Jabor começou a carreira em 1962, em O Metropolitano, jornal
ligado ao movimento estudantil. Ao longo das décadas de 60, 70 e 80,
dedicou-se ao cinema. Antes de lançar Pindorama (1970), seu primeiro
filme de ficção, foi assistente de Carlos Diegues, Leon Hirszman e Paulo
César Saraceni. Entre seus filmes mais famosos estão Toda Nudez Será
Castigada (1973) e Eu Sei Que Vou Te Amar (1984). Em 1991, abandonou o
cinema e iniciou colaboração semanal na Folha de S.Paulo, tornando-se
uma das personalidades mais polêmicas da imprensa brasileira. Em 1995,
começou a trabalhar como comentarista dos telejornais da Rede Globo.
Jabor já lançou cinco coletâneas de crônicas: Os Canibais estão na Sala
de Jantar (1993), Brasil na Cabeça (1995), Sanduíches de Realidade
(1997), A Invasão das Salsichas Gigantes e Amor é Prosa, Sexo é Poesia
(2004). Em toda sua obra, seja no cinema ou no jornalismo, ele faz uma
crônica dos vícios da classe média do país. Vem daí sua ligação com
Nelson Rodrigues, cujo universo temático ele compartilha. Foi dele que
Jabor herdou o gosto pela hipérbole e pelo adjetivo, abundantes em seus
textos. Capaz de escrever com fluência em estilos variados, é pródigo em
aliar citações eruditas a uma visão debochada da realidade brasileira.
Nascimento - 12 de dezembro de 1940 – Rio de Janeiro/RJ
Formação
- Rio de Janeiro/RJ – Colégio Santo Inácio
- Rio de Janeiro/RJ – Curso de Direito na Pontifícia Universidade
Católica do Rio de Janeiro
Contatos/Influências
Identificação confessa com o realismo crítico de Balzac, Flaubert e Eça
de Queiroz e com o ‘new journalism’ americano, representado por Norman
Mailler, Gore Vidal, Tom Wolfe, entre outros.
Afinidade profissional e colaborações com Carlos Diegues, Júlio Bressane,
Leon Hirszman e Paulo César Saraceni.
Afinidade intelectual e influência de Nelson Rodrigues, Glauber Rocha e
Paulo Francis.
Atividades literárias/culturais
1962 – Trabalha no jornal O Metropolitano (ou O Movimento), ligado ao
movimento estudantil
1963 – Começa trabalho no cinema como técnico de som de Ganga Bruta, de
Carlos Diegues, e de Maioria Absoluta, de Leon Hirszman
Trabalha como assistente de direção e produtor executivo de Integração
Racial, de Paulo César Saraceni
1964 – Faz o curso de cinema Itamaraty-Unesco
1965 – Realiza o curta-metragem O Circo
1967 – Realiza o documentário Opinião Pública
1970 – Realiza Pindorama, seu primeiro filme de ficção
1973 – Estréia Toda Nudez Será Castigada, baseado em obra de Nélson
Rodrigues
1975 – Estréia O Casamento, baseado em obra de Nélson Rodrigues
1978 – Estréia Tudo Bem, com roteiro original seu e de Leopoldo Serran
1980 – Estréia Eu Te Amo
1984 – Estréia Eu Sei Que Vou Te Amar
1990 – Estréia Love at First Sight (Amor à Primeira Vista), uma produção
da Rette Italia e Telecip, em parceria com a Skylight-Brasil
1991 – Escreve coluna semanal na Ilustrada, da Folha de S.Paulo
1995 – Começa a trabalhar como comentarista de telejornais da Rede Globo
2001 – Estréia coluna semanal no Caderno 2 de O Estado de S.Paulo
10 Livros Preferidos
1) Os Maias, de Eça de Queiroz
2) O Vermelho e o Negro, de Stendhal
3) Dom Quixote, de Miguel de Cervantes
4) No Caminho de Swann, de Marcel Proust
5) Palmeiras Selvagens, de William Faulkner
6) Molloy, de Samuel Beckett
7) Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis
8) Os Sertões, de Euclides da Cunha
9) A Montanha Mágica, de Thomas Mann
10) O Estrangeiro, de Albert Camus
A Palestra e a Entrevista
Em sua apresentação chamada Quem é o Brasil?, Jabor traça um cenário
político e econômico do país desde o período colonial até os dias
atuais. Com o objetivo de despertar no público um processo de reflexão,
ele expõe, de forma provocante, as raízes do comportamento político
brasileiro. Seu estilo irônico e mordaz é decisivo para descontrair a
platéia e tornar o assunto mais leve. A palestra ainda destaca a
importância do mercado e do mundo global para o Brasil. Foi nesta sua
última palestra que conseguimos, junto com os alunos do Grupo Magno de
Teatro, desfrutar sua intelectualidade e seus impagáveis comentários, os
quais seguem abaixo, para nossos assíduos amigos internautas da
comunidade Magno.
Grupo Magno de Teatro: O que você achou da
eleição dos Estados Unidos?
Arnaldo Jabor - É inacreditável! É quase um
golpe de Estado. Acho impressionante... está gravando isto?
GMT: Está sim, é para a entrevista...
Arnaldo Jabor - Ok, tudo bem! Foi uma
decisão política de nível. Não há dúvida nenhuma. O Supremo Tribunal
Americano é republicano. Então, ele fez uma coisa absurda. Antes, a
justiça americana tinha autorizado a contar os votos manualmente, pois o
Supremo Tribunal da Flórida é democrata; em seguida, impediu essa
contagem de uma maneira absurda porque existiam 44 mil votos que deviam
ser contados manualmente e as pessoas emperraram...
GMT: Todo mundo sabia que o Gore iria
ganhar!
Arnaldo Jabor- Podia ter sido prorrogado
até o dia 18, dia da reunião do Colégio Eleitoral. Quer dizer, prorrogar
a contagem até o dia 18, mas é muito típico do republicano esse tipo de
truculência; desde o Watergate ocorre esse tipo de eleição. Os
republicanos são competentes. Quando eles têm uma chance de entrar, eles
entram. Mas foi uma vergonha. Acho que vai ficar um governo sem
legitimidade, um presidente sem crença, sem confiança da população.
Muitos achavam e eu, por exemplo, achava que o Gore ganharia. Mas dizem
que para o Brasil é bom, porque tem o negócio do protecionismo que
diminui, porque eles não dão colher de chá para os sindicatos, que
exigem esse protecionismo e que financiaram o Gore. Os republicanos
dizem isso. Eu vejo o aspecto mais geral da coisa; eu acho que está
começando uma nova onda conservadora no mundo. Você vê que o mundo tem
uns ciclos bem misteriosos. Eu acho que o Clinton enterrou um ciclo mais
liberal e agora acho que vai entrar um período conservador... Não só no
Brasil, mas em Israel, por exemplo, o Barak quebrou a cara, quem entrou
foi o Sharon. Eu acho que os Estados Unidos estão entrando numa, em que
o mundo mudou, mas eles estão entrando em uma postura de reorganizar o
controle sobre os países periféricos, principalmente da América Latina;
é uma reacomodação do controle.
GMT:Mas como você analisa essa questão,
frente à organização independente da Europa em relação aos EUA?
Arnaldo Jabor - Não sei, depois a gente
chega lá. Quero terminar, agora dizendo que a gente sente essa
reorganização no controle. Esse negócio da ALCA é extraordinário porque
eu conheço os americanos direitinho, não só porque eu morei lá, mas
porque o negócio do cinema dá uma brecha muito grande de negociação com
americanos, apesar de que é um troço pequeno. Cinema é uma besteira, mas
é um bom modelo para saber como eles negociam; eles são invencíveis!
Eles estão hoje aqui e estão planejando um negócio para daqui a 10 anos.
Então a ALCA já faz parte dessa reorganização do controle, como é o
plano da Colômbia. Não é que seja conspiratório, mas eles só pensam em
controle e poder. A capacidade de negociação dos Estados Unidos, eles
não abrem mão. Eles morrem, mas não perdem uma negociação. Eu acho que
estamos num período desse. Acho isto muito preocupante para o Brasil. Eu
estava meio otimista, mas agora estou começando a ficar preocupado
porque se essa ALCA for negociada como eles querem, aí acho que vai ser
barra pesada. Essa possibilidade, essa esperança de uma certa autonomia
que eles propagam, mas é uma autonomia paradoxal. Eles querem a gente
vivo, mas doente, dependente. Esse é o paradoxo, porque eles precisam de
mercado, eles precisam que a gente tenha poder aquisitivo. Existe esse
paradoxo no capitalismo atual. Eles precisam realmente que a gente
cresça.
GMT: Ao mesmo tempo, não é um paradoxo.
Eles administram muito bem o mercado deles, abrindo e desregulamentando
o nosso.
Arnaldo Jabor - É o que eles estão
fazendo...
GMT: A ALCA, no fundo, é uma proposta de
desgoverno?
Arnaldo Jabor- Eles já estão dividindo a
gente. Nos colocaram contra o Chile; a Argentina já está beijando os pés
dele. Esse negócio do Equador...
GMT: Como é que você vê o Fernando Henrique
Cardoso frente a isso?
Arnaldo Jabor - O Fernando Henrique falou
que o pessoal reagiu demais ao negócio do Chile, mas acho que o Fernando
Henrique Cardoso, o governo atual, teve uma função "desconstrutiva"
importante, porque o Brasil era um grande erro e tinha que ser "desconstruído",
mas está chegando a hora de uma construção prospectiva. Está chegando a
hora realmente de uma nova postura geopolítica, não na visão
"desenvolvimentista", mas uma outra visão estratégica. Eu acho que a
parte "desconstrutiva" era importante para minar essa estrutura
clientelista que existe no Brasil.
GMT: A própria visão do BNDES dessa
estrutura não acabou. Quando você vê um investimento no Jóquei Clube no
Rio de Janeiro, você fala: "é isso realmente investimento?"
Arnaldo Jabor - É outra idéia que não posso
discutir tecnicamente. BNDES é uma coisa importante, certo? Mas eu não
estou falando disso. Eu estou falando da coisa mais geral da política
brasileira. Eu acho que tem que haver um "repensamento", porque está
entrando em outro período. Está na hora de um governo mais de esquerda,
mais nacionalista, mais protecionista, mas entrando na globalização. O
paradoxo todo é esse. A dificuldade é essa. Quem entra no mar se molha,
mas se protege. Não adianta você entrar no mar, abrir tudo e morrer
afogado sem saber o que pode acontecer. O primeiro ponto é entrar no
mar, que a gente entrou, agora está na hora da gente se proteger. Tem
que ter bóia, tem que ter apoio.
GMT: Mas e a estrutura administrativa
"Malan" do Brasil: o mercado define a glória, define a visão?
Arnaldo Jabor - O Malan é de direita! Eu
acho que o mercado é importante.
GMT: Se o mercado define como agregar valor
para competir neste contexto, como é que nós vamos entrar para competir?
Arnaldo Jabor - Eles dizem que é só abrir e
eles prometem nichos, levando em conta as vantagens comparativas.
GMT: A laranja, por exemplo, seria um dos
nossos nichos?
Arnaldo Jabor - Mas eles estão cobrando 45%
de taxa para nosso produto entrar no mercado deles.
GMT: Então não é mais nosso nicho. Qual é a
regra do jogo?
Arnaldo Jabor - Eu sei, mas esse é que o
grande problema. Os americanos negociam assim: falam uma coisa e fazem
outra. "Você é quem sabe!" O Malan é um cara legal, é um homem de bem,
mas ele foi muito estrito na aplicação da receita americana, da receita
de Washington. Agora, nós estamos precisando de um troço mais parecido
com Mendonça de Barros, José Serra, que é um cara que eu acho que seria
nessa linha. Não é ser "desenvolvimentista", mas menos dependente, menos
filial e menos subserviente.
GMT: Você veja o seguinte: o nosso próprio
industrial, veja o caso do Cutrale, ele mesmo acabou indo para os
Estados Unidos e hoje é um grande exportador do suco de laranja
concentrado para a Europa. Como é que nós podemos entender isso dentro
do contexto?
Arnaldo Jabor - É difícil entender porque
esse tipo de análise, esse tipo de fenômeno econômico e político é muito
envolvente, é muito dinâmico. Não dá para definir "fechadamente". Não dá
para definir de uma forma fixa. É como definir um trem em movimento. Eu
gosto muito do Armínio Fraga, porque ele tem essa visão dinâmica; ele
pensa com uma prática. Ele é um americano, foi treinado lá. Eu estive lá
em Washington com ele, na reunião do FMI de dois anos atrás. É
impressionante, ele é um deles! Só que ele é brasileiro. Eu o conheço
muito bem. Ele é um tremendo patriota, brasileiro, a favor do Brasil.
Não tem nada de subjugado, como ficam dizendo os babacas, que ele é o
homem do Soros. Só que ele conhece tudo, eu vi os caras transando com
ele. Ele é da turma, sabe tudo. Está no mercado há 25 anos. Ele é muito
competente. O Malan é mais deslumbrado, é meio papo-furado, é um
"embaixador político". Ele fica dizendo que os americanos gostam dele.
Diz que o filho do Stanley Fisher e o filho dele estudam no mesmo
prédio... Sabe esse tipo de coisa? O Armínio não. É mais moderno.
GMT: Uma vez você falou no programa "Manhattan
Connection"...
Arnaldo Jabor – Ximena, aquele programa não
é muito sério. Naquele programa, temos que ficar dizendo bobagens o
tempo todo...
GMT: Nós estávamos falando de Cingapura. O
modelo de Cingapura é um modelo peculiar. O que deu certo lá e porque
não dá certo aqui?
Arnaldo Jabor - Primeiro que Cingapura é do
tamanho do Estado do Rio de Janeiro. É enorme... Segundo que foi
repressão política barra-pesada. Quem dirige aquele país é um tirano
esclarecido e que há 30 anos atrás, 1969, começou a fazer tudo ao
contrário do que o Terceiro Mundo fazia. O Terceiro Mundo, em plena
Guerra Fria, tinha o negócio de defesa contra os americanos. Ele não,
ele fazia tudo ao contrário. Ele abriu a economia. Implorava para as
firmas americanas se instalarem lá. Ele abriu tudo na base da porrada
política. Ele exterminou os comunistas, comprou a classe média com o
negócio de fazer "casinha" própria. Deu crédito para isso e criou lá um
regime meio barra-pesada e isso desenvolveu muito. Ele andou muito antes
do tempo sem querer e aí o tempo mudou, e Cingapura saiu muito
desenvolvida. Não é modelo para nada para a gente.
GMT: Vamos pegar um ponto interessante que
é o Fernando Henrique. O Alain Tourraine é muito amigo do Fernando
Henrique e até a visão política é muito semelhante. Só que hoje, até
ele, começou a falar mal da visão política do Fernando Henrique, com
alguns pontos muito bem colocados. É verdade ou você acha que é bobagem?
Arnaldo Jabor - Eu acho o seguinte: eu acho
que o Fernando Henrique... Aí é uma longa história... Eu conheço o
Fernando Henrique há muitos anos, sou amigo há 20 anos. Ele é um cara
que tem uma personalidade muito gelada. É... Ele não tem paixão. Mas ele
é o melhor cara que nós tivemos na presidência. Não existe uma pessoa
mais preparada do que ele, nem nunca teremos. Ele é o presidente mais
bem preparado do mundo. Eu acho que as coisas que ele está errando é por
conta da personalidade dele, da incapacidade que ele tem de enfrentar
problemas.
GMT: Quer dizer que é característica do
intelectual?
Arnaldo Jabor - Não, isso é característica
dele. Por outro lado, a paciência dele é maravilhosa e aos poucos ele
está conseguindo muita coisinha. Por exemplo, a Lei de Responsabilidade
Fiscal é uma questão fundamental.
GMT: O problema do Brasil está no Congresso
Nacional?
Arnaldo Jabor - É um problema muito grande.
É o problema do Congresso, é o problema das instituições rarefeitas, das
instituições autoritárias. Toda a problemática brasileira. Foi muito bom
o Fernando Henrique ter aparecido, pois ele, apesar dos defeitos, é um
estadista. Ele manteve uma certa paz brasileira. Muita coisa tem
melhorado sim. É muito fácil a gente só esculhambar o Fernando Henrique,
porque é aquela figura de pai, mas muita coisa está melhorando, coisas
imperceptíveis.
GMT: A melhor contribuição dele foi a "desconstrução"
que você falou?
Arnaldo Jabor - É... "Desconstruir." O
Brasil tinha que ser "desconstruído", para poder construir de novo, em
novas bases... Ele pegou o país quebrado.
GMT: Como você promove essa nova
construção? Como fazê-la sem ainda ter concluído a "desconstrução" que
você fala? Ainda existe muita coisa a ser mudada, ainda tem muita
intervenção do governo. Veja esse projeto de quebra do sigilo fiscal.
Arnaldo Jabor - É uma farsa a aprovação
desse projeto de quebra de sigilo. Que é fundamental que se combata a
sonegação, é indiscutível, mas essa lei é uma farsa. O Congresso sabe
que vai ser derrubado. O Senado votou por unanimidade.
GMT: Mas ela é inconstitucional.
Arnaldo Jabor - É, mas aí eles vão dizer:
"Não, a gente tentou tudo."
GMT: Como então fazer essa nova construção?
Arnaldo Jabor - Ainda faltam dois anos. Se
conseguir fazer a reforma da previdência, a reforma tributária. Se for
feita a reforma administrativa mais organizadamente, se fizer a reforma
eleitoral. Isso é fundamental, além da reforma do judiciário... O
problema é esse, é muito difícil.
GMT: A colocação do difícil é por causa da
existência do impossível? Mas quem reflete no impossível são os partidos
políticos. Eles é que controlam o impossível.
Arnaldo Jabor - Não são só os partidos, mas
toda estrutura brasileira, toda atitude psicológica. É difícil modificar
uma prática secular. A minha opinião é esta, mas posso estar enganado.
Por outro lado, a gente não pode ficar sem partidos, tem que ter
partido, tem que ter democracia.
GMT: Democracia tem que ter. E a cultura
brasileira dentro da globalização? Está indo para cima ou para baixo?
Queremos agora explorar o cineasta. Você fez vários filmes, desde "Eu te
Amo", que teve bilheteria maravilhosa; "Eu sei que vou te amar", onde a
Fernanda Torres ganhou em Cannes o prêmio de melhor atriz. De repente,
Jabor larga o cinema...
Arnaldo Jabor - O cinema brasileiro é
inviável, é impossível. Mercado é mercado.
GMT: Quer dizer que eu, que estou fazendo
meu futuro para trabalhar em cinema, serei inviável... (todos riem -
aluna do Magno, que faz curso para cinema na ECA)
Arnaldo Jabor - É. Talvez. (todos riem) Eu
não filmo mais.
GMT: E o cinema francês, alemão, inglês...?
Arnaldo Jabor - Também são. (todos riem)
GMT: O iraniano também?
Arnaldo Jabor - O iraniano é outra coisa,
Marcela. No cinema iraniano, surgiu um cineasta lá que faz os filmes bem
baratinhos e conseguiu ingressar no mercado de artes da Europa, um
pouquinho também no mercado de artes americano. Aquilo ali é um fenômeno
bonito, mas é nada.
GMT: É como foi o nosso? O Cinema Novo?
Arnaldo Jabor - No Cinema Novo, se você
observar os melhores filmes, as melhores bilheterias, não tem nem cem
mil espectadores. Foi um fenômeno num tempo em que a cultura de
marketing não estava consolidada ainda e que a manifestação artística
existia com seu valor intrínseco. Hoje, o valor de mercado é o que
manda. Então, você quer fazer um filme que vai ter 100 mil espectadores;
pode ser o melhor filme do mundo, aquilo não existe. Não acontece, mas
isso é uma longa discussão.
GMT: Mas, e o Cacá Diegues, seu grande
amigo? Ele ainda está filmando!
Arnaldo Jabor - Primeiro que ele foi um
herói da persistência, um trator, uma tartaruga, ele vai onde ninguém
agüenta...
GMT: Então, nesta situação é melhor entrar
para a igreja evangélica? Essa é a pergunta. Já que está tudo ferrado,
entramos todos para a igreja evangélica...
Arnaldo Jabor - Hum...
GMT: Vamos entrar ou não?
Arnaldo Jabor - Vamos rezar! (todos riem)
GMT: Jabor, você acha que no cenário atual,
após as eleições municipais, há alguma perspectiva das esquerdas
avançarem no Brasil?
Arnaldo Jabor - Acho que essas eleições
passadas foram geniais, porque as esquerdas tomaram o poder municipal em
muitos lugares, o que é bom para treinar e, ao mesmo tempo, preparar-se
para a guerra e para a realidade, pois eles pensam que o mundo é uma
ideologia abstrata.
GMT: Então, quer dizer que hoje em dia a
esquerda é o sustentáculo da globalização no Brasil?
Arnaldo Jabor - Eu não falei isso. É uma
situação muito dinâmica. Não dá para você fazer uma avaliação fechada. A
gente tem que suportar um pouco essa indefinição.
GMT: Mas, no fundo, a esquerda está
promovendo a sobrevivência do processo?
Arnaldo Jabor - Mas a esquerda só tomou o
poder em alguns lugares. É importante que haja uma visão oposicionista
mais forte, para a própria oposição crescer, senão a oposição fica só
capotando, o que não é legal.
GMT: O que não interessa.
Arnaldo Jabor - Não interessa, tem que ter
uma posição propositiva. Senão vai acabar destruindo orelhão. Não pode,
tem que participar do processo.
GMT: Jabor, onde surgiu a idéia de seu novo
livro?
Arnaldo Jabor -Foi uma idéia da Isa Pessoa,
editora, de reunir meus textos mais nostálgicos, afetivos e relacionados
com a sexualidade. Acho que as pessoas, principalmente as mulheres,
estão muito carentes de amor, mas não no sentido de mulher, homem. Estão
carentes de um pouco mais de gentileza, de delicadeza na vida, porque o
Brasil está muito barra pesada, está uma guerra. Então dá uma fome de
carinho, de amor, paz.
GMT: O livro é um contraponto ao excesso de
erotismo que você costuma criticar?
Arnaldo Jabor -O problema, Sérgio, não é
bem excesso de erotismo, mas a supervalorização da sexualidade como uma
coisa milagrosa, mitológica. Nos anos 60, 70, a sexualidade era uma
coisa política, importante, os direitos da liberdade sexual, a pílula.
Hoje, virou uma coisa meio vulgar, porque já pode tudo. Virou um
exibicionismo, uma espécie de salvação. A única salvação é a sacanagem.
Você pega as revistas que mostram as celebridades, como a IstoÉ Gente, e
o cara casou num dia, depois separou, e já mudou de mulher. É um harém
rotativo de homens e mulheres. Pode ser até que eu esteja com inveja,
mas é uma coisa muito louca.
GMT: Inveja? Mas você não tem sido apontado
como símbolo sexual, não foi casado três vezes?
Arnaldo Jabor - Imagina, eu, símbolo
sexual? E casamento é sofrimento, não é sexo. Quando separa, dá um
trabalho danado. Já fui casado três vezes, são três sofrimentos, não é
brincadeira. Quem sabe curtir são esses garotões que não casam e ficam
comendo todo mundo.
GMT: Como foi a experiência de fazer uma
música com Rita Lee (a crônica que dá título ao livro virou sucesso da
cantora)?
Arnaldo Jabor - A Rita leu a crônica,
adorou, me ligou e disse: “Jabor, vamos fazer uma música com essa
letra?” Topei e ficou do cacete, adorei. Conheço a Rita há muito tempo,
mas nunca tinha feito música com ela, é minha primeira letra. Já fiz
muita coisa na vida, mas música ainda não tinha feito. Agora, estou com
vontade de fazer outras com a Rita.
GMT: E cinema, tem vontade de voltar a
fazer?
Arnaldo Jabor -Por enquanto, não. Descobri
que sou mais jornalista do que cineasta. Gosto mais de escrever do que
de filmar. Não tenho mais saco para as aporrinhações que antecedem e
sucedem o cinema. Fazer o filme eu gosto. Não gosto da aporrinhação que
vem junto, a captação, o lançamento, distribuição. E acho que faço uma
espécie de cinema pessoal, particular. Falo para 50 milhões na tevê,
faço performances. Mas minha filha, Carolina, filma muito melhor que eu.
GMT: Ela pede conselhos?
Arnaldo Jabor - Eu é que peço. Quando tenho
alguma dúvida sobre cinema, ligo para ela. A Carolina sabe tudo. Essa
juventude é craque. Eu levo esporro das duas filhas. Uma, que é
antropóloga, me diz para não falar bobagem. A outra, que é cineasta,
filma melhor que eu. Acho ótimo! Os filhos têm que ser melhores que os
pais. Tenho também um filhinho de 5 anos, o João Pedro, que mora em São
Paulo com a mãe.
GMT: Qual a sensação de ter sido pai aos 58
anos?
Arnaldo Jabor - É uma vertigem, e filho
homem é uma coisa maravilhosa, porque ele se identifica com você. Você
vai fazer a barba, ele quer fazer também. Você ensina a fazer xixi, a
dar as três batidinhas, é um barato. Estou completamente apaixonado pelo
João Pedro, que é um menino extraordinário. Deu uma luz na minha vida.
Não posso morrer já, é aquela história de acompanhar o crescimento dele.
GMT: Tem se cuidado mais?
Arnaldo Jabor – Claro! Faço exercícios.
Estou querendo emagrecer mais, porque ainda estou gordo. Faço ginástica,
como comidas leves, não fumo, não bebo. Quero viver bastante para ver
esse menino adulto, para orientá-lo, ajudá-lo a crescer nesse mundo mau.
Ele é um alento de vida.
GMT: Quando aderiu ao jornalismo?
Arnaldo Jabor - Comecei a escrever há 12
anos, na Folha de S.Paulo, porque estava duro. O cinema brasileiro tinha
acabado por causa do Collor. Fiquei passando fome. Esse apartamento aqui
(na Lagoa, um dos pontos nobres da zona sul carioca) estava hipotecado e
não tinha dinheiro para pagar a hipoteca. O Babenco (cineasta Hector
Babenco) me emprestou
US$ 10 mil e vivi cinco meses com esse dinheiro. Arranjei um emprego na
Folha, mudei para São Paulo, depois passei a escrever para outros
jornais e começou a melhorar. Mas fiquei mal. Estava com 49 anos, com
sete filmes no currículo, premiado em festivais como Cannes e Berlim, e
sem dinheiro para dar às minhas filhas, para pensão.
GMT: O que acha do cinema brasileiro após a
retomada?
Arnaldo Jabor - É um barato. O cinema que
se faz agora no Brasil é muito bom, técnica e esteticamente. Os mais
moços têm uma relação mais dinâmica e atualizada com o cinema. E tem
filmes fantásticos, desde Cidade de Deus, Deus É Brasileiro, Carandiru,
esse Contra Todos, do Roberto Moreira, os filmes do Guel Arraes, esse
Ônibus 174, que é uma obra-prima. Uma coisa maravilhosa. Aí vêm esses
chatos encher o saco com esse negócio da Ancinav.
GMT: É contra a Ancinav (Agência Nacional
de Cinema e do Audiovisual, criada pelo governo Lula)?
Arnaldo Jabor - É o lado bolchevista do
governo Lula. Os caras querem controlar a realidade, coisa que o Lula
jamais fez. Ele não é burro de achar que realidade se controla, mas
esses caras têm a velha mentalidade leninista de fiscalizar, controlar,
censurar. A Ancinav é desnecessária. Já tem legislação, já tem tudo,
isso aí é o cara que entra e diz: “Agora eu vou controlar esse negócio”.
É o Juca Ferreira (secretário-executivo do Minc), o Orlando Sena
(secretário do Audiovisual).
GMT: O governo não deve se meter no cinema?
Arnaldo Jabor - O cinema hoje se faz
livremente, em associação com vários grupos, até com empresas
estrangeiras. Não tem mais aquele papo estatista. O Estado pode ajudar
com subsídio, dar força, mas não pode ser um escritório dizendo qual
filme vai ser produzido. Isso é coisa da antiga União Soviética.
GMT: Como avalia o desempenho de Gilberto
Gil no Ministério da Cultura?
Arnaldo Jabor - O Gil é ótimo, um grande
artista, mas politicamente é meio ingênuo, se deixa controlar por uns
comunas lá do Ministério. Ele deve estar fazendo coisas boas, mas esse
negócio da Ancinav é um bode que jogaram no colo dele. Logo o Gil, um
dos líderes da liberdade de criação no Brasil, que foi expulso do país
pelos militares, teve que passar três anos em Londres. O Gil é uma flor.
Não o estou criticando, mas acho complicado como ele se deixou envolver.
O Gil tinha que estar preocupado, por exemplo, com o candomblé, que está
sendo exterminado pelos evangélicos na Bahia. Não ficar preocupado se a
Globo vai exibir qual filme, quantas vezes, ou como o cinema brasileiro
tem que ser. Isso é antidemocrático.
GMT: Qual sua opinião sobre o governo Lula?
Arnaldo Jabor - Vi o filme do João Moreira
Salles sobre o Lula (Entreatos). É impressionante como ele é superior
aos seus correligionários. O Lula é intuitivo, tá vendo tudo acontecer.
O Palocci (Antônio Palocci, Ministro da Fazenda) é outro cara admirável,
mas o Lula sabe tudo. O filme mostra como ele é inteligente. Os caras
falando bobagem e ele rindo, sacando. Aí, quando resolve falar, só diz
coisas boas. É ótimo o discurso político do Lula. Acho-o pessoalmente
muito bom.
GMT: Jabor, mudando o foco do tema, houve
momentos em que você prestou mais atenção a temas culturais, ao Cinema
Novo, à sua geração artística?
Arnaldo Jabor - Não separo os temas
culturais da política. É tudo parte de um só emaranhado. Escrevo mais
sobre política porque, no Brasil, ela assume dimensão monumental.
GMT: Você tem acompanhado as reuniões do
Grupo Executivo de Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica (Gedic),
que está para dar origem a uma Agência de Cinema?
Arnaldo Jabor - Não. Eu abandonei o cinema.
Há dez anos sou jornalista, vivo de jornalismo. Mas não nego que estou
tentado a voltar. Até porque minha mulher (a produtora Suzana
Villas-Boas) é uma fera na área da produção audiovisual. Ela produziu
filmes importantes como Feliz Ano Velho (Roberto Gervitz, 87), Vera
(Sérgio Toledo, 86), entre outros. E está voltando a produzir. Minha
filha, Carolina Jabor, é uma das melhores diretoras de comerciais do
País. Faz um belo trabalho na Conspiração Filmes, aquela badalada
produtora carioca. Eu larguei tudo. Nem publicidade faço mais. Só
jornalismo.
GMT: E seu trabalho na televisão? Continua
motivador?
Arnaldo Jabor - Adoro meu trabalho na TV.
Minha geração nutriu-se de um caráter romântico e messiânico. Se você
pegar os filmes do Cinema Novo, perceberá em todos eles um desejo de
influir na realidade brasileira. Perceberá a busca de estética e ética
transformadoras. É assim nos filmes do Gláuber (Rocha), do Nelson
(Pereira), do Cacá (Diegues). Me sinto, na TV, cumprindo a missão que o
Cinema Novo nos dava. Cada comentário meu traz este desejo de influir,
de se meter na vida brasileira, de sentir-se útil. Já fiz coisas
louquíssimas no ar. Já explodi ovo, já desenhei mapa, já falei em off,
já apaguei a luz e falei segurando uma vela...
GMT: E fazendo cinema, você não se sentia
útil?
Arnaldo Jabor - Sentia, mas fazer cinema no
Brasil é complicado. Vida de cineasta, aqui, é bater em porta fechada.
Na TV e nos jornais, me exercito no dia-a-dia. E ainda tem o Manhattan
Connection, que é semanal. Antes eu gravava em Nova York. Agora, gravo
no Rio, via satélite. Eles editam e fica parecendo que eu estava com
meus colegas no estúdio. O programa é ótimo, líder de audiência na TV a
cabo. As pessoas gostam porque é debate vivo, polêmico, com gente de
opinião. Todo mundo quer ouvir opiniões. As pessoas estão perdidas,
atarantadas com tantas realidades novas a desafiá-las. Por isso, os
jornais publicam cada vez mais artigos opinativos.
GMT: Não restou nenhuma vontade de voltar a
filmar?
Arnaldo Jabor - Sim, de vez em quando penso
nisso, mas jamais a vontade de voltar a viver de cinema. Isso não. Quero
viver de jornalismo. Mas o fato de minha mulher ser uma produtora
extraordinária e de os amigos viverem me incentivando, pode ser que me
façam voltar a filmar. Aliás, comprei os DVDs do (Andrei) Tarkovski
(1932-1986) e estou curtindo assisti-los. Ele tem aquela coisa meio
mística, aqueles filmes loucos, Nostalgia, O Sacrifício, Andrei Roublev...
Filmes maravilhosos. Se eu voltar a fazer cinema, o farei no terreno do
cinema poético. Não quero saber de cinema comercial. Já tentei fazer a
ponte entre o cinema comercial e o de qualidade. Equação dura e na qual
até que me dei bem. Mas agora não estou mais a fim de fazer filminho
para conquistar mercado. O mercado brasileiro não é mais conquistável.
Já foi conquistado pelos americanos. Quero é fazer filme poético, fazer
pelo prazer mesmo do fazer.
GMT: Você vem acompanhando o novo cinema
brasileiro? Algum filme recente o estimulou?
Arnaldo Jabor - Acabo de ver O Xangô de
Baker Street, do Miguelzinho (Miguel Faria Jr). Ficou ótimo, muito legal
mesmo. Vi também Copacabana, da Carla Camurati. Adorei. É um filme
delicado, poético, felliniano. Me deu vontade de filmar. Fellini é o
máximo. Esta coisa que ele tem, esta compaixão pelas pessoas, pela vida,
este amor pela beleza, esta coisa literária e renascentista ao mesmo
tempo me encantam. Quanto ao cinema americano atual, ele me causa
horror, repulsa. Por sorte, temos os Fellini da vida, o cinema
europeu...
GMT: O ensaísta Ismail Xavier sustenta no
livro Cinema Marginal e Suas Fronteiras que Pindorama, sua primeira
ficção, e Os Deuses e os Mortos (de Ruy Guerra) têm mais a ver com o
Cinema Marginal que com o Cinema Novo. Você concorda?
Arnaldo Jabor - Na época em que ambos
fizemos esses filmes (69/70), havia duas coisas: absoluta falta de
dinheiro para se produzir filmes, o que levou muita gente a fazer
qualquer porcaria em dois ou três dias, e o desespero total frente ao
AI-5 (13/dez/68). Nunca vi desespero tão grande na história brasileira.
As pessoas enlouqueceram. O que é Câncer, ou Pindorama, ou Os Deuses e
os Mortos senão filmes loucos? Nós estávamos loucos, buscávamos a
autodestruição. Esse é o ponto em comum com o cinema underground. Os
filmes do período são descabelados, autodestrutivos, queríamos destruir
a linguagem e chegamos a certa afasia. Era uma coisa psicótica. Tem
gente, até hoje, que não entende o que é aquilo. Mesmo assim, do meio
deles, surgiram obras-primas, como é o caso de O Bandido da Luz Vermelha
(68).
GMT: Então você atribui ao momento
histórico, e não a um possível diálogo de geração, essas características
similares entre filmes cinemanovistas e marginais?
Arnaldo Jabor - Não há influência nenhuma
de ninguém sobre ninguém. O que despencou sobre nossas cabeças foi o
AI-5. E com ele veio um desespero monumental, uma descrença em qualquer
coisa. A mais terrível das descrenças se abateu sobre a esquerda. A
derrota foi tão radical, que a esquerda se voltou contra ela própria. Os
mais jovens ficaram contra nós, os 'comunas'. Vivemos anos de derrota
radical, de piração. Já escrevi isso e repito: a contracultura, no
Brasil, não teve nada a ver com hippie e flower power. Tem a ver, isto
sim, com porrada, sofrimento, masoquismo, doença, droga, muita droga,
guerrilha. O cara atuante tinha duas saídas: a droga ou a guerrilha. O
reflexo deste momento no cinema foi esta espécie de suicídio público.
Paulo Emílio (Salles Gomes), me lembro bem, observou: "São filmes
suicidas".
GMT: O cronista Arnaldo Jabor é tributário
de quem? Nélson Rodrigues é sua maior inspiração?
Arnaldo Jabor - Sempre gostei de escrever.
Minha formação se deu pela literatura. O cinema chegou mais tarde,
depois da literatura e do teatro. Eu já tinha mais de 20 anos quando me
interessei por ele. Eu lia Rimbaud, João Cabral, Jorge de Lima e muito
teatro: Tennessee Willians, Eugene O'Neil, Edward Albee... Só pensava em
poesia e teatro. Até que um dia fui parar num ciclo de cinema italiano,
seguido de um ciclo francês. Aqueles ciclos completos, que iam da fase
muda até o presente. Descobri ali que o cinema vinha sendo algo
secundário na minha vida. Que minha formação era literária. Li muito Eça
(de Queiroz). Este sim é minha maior influência. Minha e do Nélson
Rodrigues. Me sinto uma espécie de afilhado do Nélson de tal forma, que
chego a psicografar (risos) textos dele. E ficam tão convincentes que d.
Elza, a viúva, lê e diz que está igualzinho. Na minha formação, há muito
da literatura americana: Faulkner, Hunther Thompson, Norman Mailer,
Scott Fitzgerald. Meu lance de amor com a literatura e com a dramaturgia
é muito grande. Por isso, nos meus filmes, sempre dei muito valor ao
roteiro, à dramaturgia, aos personagens. Nunca quis valorizar apenas as
imagens. Escrever não é um sacrifício para mim. É um prazer renovado.
GMT: Cinema, teatro, televisão, imprensa.
Você se definiria hoje como um artista multimídia?
Arnaldo Jabor - Eu me defino como alguém
que fez cinema durante vinte e poucos anos com a mesma perspectiva com
que hoje faço jornalismo e comentários em televisão. A perspectiva de
entender o Brasil, ajudar a melhorar o país. É um vício iluminista.
Tento jogar um pouco de luz num país tão surrealista como o nosso. No
jornalismo, é linha direta. Faço uma espécie de filme de mim mesmo. Eu
sou o diretor, o ator e a vítima do crime. Me coloco na posição de
sujeito e cidadão. Tento ser uma espécie de desbravador do óbvio. Pela
primeira vez na minha vida, me sinto como um instrumento de utilidade
pública.
GMT: Quais são as principais influências do
Arnaldo Jabor, autor destes "Sanduíches de Realidade"?
Arnaldo Jabor - Eu me identifico com os
artistas que atacam a realidade aceita como normal. Gosto dos escritores
realistas críticos, na tradição de Balzac, Flaubert e, na língua
portuguesa, Eça de Queiroz. O new journalism americano também me
influenciou muito. Norman Mailler, Gore Vidal etc. A idéia de usar o
efêmero do jornal para analisar o eterno erro da vida. O efêmero é mais
moderno que o eterno. O efêmero vitaliza a literatura. Nas minhas
crônicas, busco a seriedade do texto literário. Se está escrito em
jornal ou livro, não importa tanto. "Os Sertões" foi publicado em
capítulos no jornal antes de sair em livro. Até penso em escrever um
romance em capítulos em jornal. O suporte do jornal é muito moderno e
muito profundo.
GMT: Suas crônicas muitas vezes são
delirantes. Essa é uma forma de dar conta do surrealismo brasileiro?
Arnaldo Jabor - Acho que a realidade é
delirante. Não existe uma separação do mundo do sonho e do mundo da
vigília. Inconsciente e mundo são duas coisas intrincadas. Não acredito
em sujeito de um lado e objeto de outro. Sujeito e objeto se confundem.
Tento ser sujeito e objeto. Os idiotas da objetividade, como dizia o
Nélson Rodrigues. Está escrito por um sujeito, um ser vivo, que também é
objeto da realidade. No Brasil, principalmente, ficção e realidade são a
mesma coisa. A petite histoire brasileira é tão importantre quanto as
grandes causas históricas. O Brasil é um país muito novelesco. O que
aconteceu conosco no período do Collor foi um melodrama.
GMT: Como um dos principais "analistas" do
Brasil, você nutre esperanças em relação ao país?
Arnaldo Jabor - O Brasil progride enquanto
dorme. É um país tão rico culturalmente que evolui meio sozinho, a
despeito dos seus políticos. Minha esperança é mais na antropologia do
que na ideologia. Você vai para a Bahia e vê que aquilo está salvo, que
está enraizado na alma das pessoas. Existe uma resistência na força
cultural do Brasil que a política não consegue matar. Não vejo nenhuma
ameaça na globalização no sentido de acabar com a cultura brasileira,
porque essa é uma cultura muito forte. Percebo que o Brasil está num
momento de muita curiosidade crítica sobre si mesmo. O Brasil hoje é um
enigma, um suspense, não é mais uma ilusão. Nossa história se escreve
pela perda progressiva das ilusões. E aos alunos do Magno, que são o
futuro deste país, peço que não caiam nesta incrível perda. Vamos
modificar aquilo que podemos. O futuro do país depende disto.
GMT: Jabor, muito obrigado por esta
entrevista incrível, adoramos este bate papo .
Arnaldo Jabor – Foi um prazer poder
conhecê-los e trocar pontos de vistas e idéias. Obrigado! A vocês do
colégio MAGNO, um forte abraço !
Jabor comenta no Jornal Nacional
17/dez - A paranóia é uma doença conhecida. O sujeito acha que o mundo
inteiro está errado e que só ele está certo. Por isso, todo o mundo o
persegue. Mas, hoje em dia, a paranóia é também um grande capital
político.
Quanto mais paranóico for um povo, mais fácil de comandar. O Osama deu
uma ajuda preciosa ao Bush. Quando ele entrou, não sabia o que fazer.
Osama deu-lhe um programa, um projeto.
A espionagem e os órgãos de segurança se enfraqueceram com o fim da
Guerra Fria. Ficaram defasados diante da novidade: inimigos invisíveis e
suicidas se reproduzindo como coelhos-bomba.
Agora, Bush vai congregar todos os espiões sob seu controle direto. Ele
e seus cientistas loucos serão os protetores da América. E protetores
precisam de um povo com medo. Mais medo do povo, mais poder. Mais poder
menos democracia. Menos democracia e Bush fica mais próximo de seu
ideal: uma América isolada, puritana e de marcha à ré.
24/dez - Papai Noel deixou aqui uns presentes para os destaques do ano
que passou.
Temos aqui: detector de mentiras para políticos corruptos. Temos um
manual de reforma do Judiciário, que não sai nunca. Temos uma ideologia
para o PMDB, que não tem nenhuma. Temos óleo de peroba para lustrar
caras-de-pau de chefes e investigados de CPIs.
Para o Lula temos: dicionário de metáforas, um boné multiuso - serve do
MST até o time do Santos - e remédio para emagrecer obesos e engordar
famintos.
Temos a declaração dos direitos do homem, para os assessores do
Ministério da Cultura. Medalha para o Palocci, medalha para a Polícia
Federal, medalha para o Ministério Público e um pacote de reformas: da
Previdência, política, tributária. E também temos um coração para Osama
e um cérebro para Bush.
Para os brasileiros, Papai Noel mandou consciência de seus direitos e
olho vivo para seus políticos. E também sobrou um saco para todos
agüentarem com paciência até o ano que vem.
04/fev - Viva o carnaval! Vamos ver a escola de samba do ano que passou.
Vejam a porta-bandeira vermelha com a estrela do PT. E atrás vem a
estátua do Lula com as duas alas do governo nas mãos.
Os neoliberais subindo os juros, os radicais apedrejando, seguidos pelos
foliões do MST, invadindo as arquibancadas com foices.
A ala da Fome Zero: magros dançando com a ala dos obesos. Gordos e
gordas batucando nas barrigas.
E aquilo? São urubus? Não. É a ala dos juízes, de preto, em cima de uma
pirâmide de processo até o céu. E atrás deles, felicíssimos, a ala dos
corruptos, nus de colarinho branco.
A mais animada é a ala da irresponsabilidade fiscal com centenas de
prefeitos rebolando com vereadores jogando dinheiro para o alto. E o
povo aplaude a ala das bobagens, destacando o grande bigode do
Greenhalgh e o avião do Lula.
Mas a grande expectativa é a alegoria da solução. Mas o alto-falante
informa que o carro quebrou. Senhores da avenida, não veremos a solução.
Frases
"Os falsários tentam imitar meu estilo de texto, mas são tão
maniqueístas, que os que me conhecem bem sabem que não fui eu que
escrevi."
"Tento ser uma espécie de desbravador do óbvio."
"Sempre gostei de escrever. Minha formação se deu pela literatura."
"Eu larguei o cinema, mas não nego que estou tentado a voltar."
"Tanto o Brasil como eu precisamos de uma reforma fiscal, pois vivemos
em déficit."
"Não me chame de senhor que eu me deprimo."
"Eu vejo o 'Altas Horas' porque eu tenho insônia. E adoro ver o Serginho
e os jovens deste Brasil."
"Gosto de chegar na redação do Jornal e ler a pauta para saber o que
falarei. Gosto de escrever sob pressão, pois, o dia que eu não escrever,
eu perco o emprego."
"Sou um maluco que anda por aí."
"Nunca mais comento o Oscar."
"Até hoje recebo e-mails de pessoas me xingando de canalha por causa do
Oscar."
"Lembro que eu e meu amigo, na nossa infância, nos excitávamos com os
livros de medicina legal do pai dele."
"O cinema brasileiro é impossível, é inviável. Mercado é mercado."
"O mundo está tão louco que só a ficção dá conta da análise política ."
"Está limitada a importação desenfreada de filmes estrangeiros no
Brasil."
"O melhor cinema do mundo é o ucraniano."
"'Pindorama' foi um fracasso, mas, para compensar, 'Toda nudez será
castigada' foi meu melhor filme."
"Na época de 'Pindorama', tinha 27 anos e nunca tinha dirigido um ator.
Incrível como deram dinheiro para um estreante fazer um filme
histórico."
"’A Vida é Bela’ levou o Oscar porque americano gosta de filme que tenha
judeu, criança e cachorrinho."
Estados Unidos
"Os Estados Unidos têm uma postura de reorganizar o controle sobre os
países periféricos, principalmente da América Latina; é uma reacomodação
do controle."
"Eles querem a gente vivo, mas doente, dependente."
"Osama bin Laden é um símbolo. Os EUA estão errando em atacar o homem,
eles têm de atacar o sistema."
Opiniões
"O verdadeiro país é este, o país que produz, o país dos empresários,
das coisas do chão, do agribusiness. É muito mais profundo que o país do
lero-lero, o país do eixo Rio – Brasília – São Paulo, o país que sai no
jornal. O ciclo está sendo quebrado, o Brasil virou um problema da
sociedade e não a sociedade um problema do país."
Roberto Marinho: "A importância dele vai além do jornalismo e da
televisão. Ele influenciou nossa vida, a linguagem e a cultura do povo
brasileiro."
"A miséria não acaba porque dá lucro."
"Tudo vai melhorar quando a maioria das pessoas de bem forem mais
ousadas que as canalhas."
"Na TV, mais importante do que ser profundo, é ser claro e interessante
todo dia."
"Estou achando isso aqui uma arte maravilhosa, bem melhor do que a
Bienal."
"A derrota de ACM abre uma nova era na política do Brasil, o fim do
coronelismo vaidoso e autoritário."
"Grossura não tem limites..."
"Cachaça é a metafísica do pobre que, sem saber, está amarrado a
tradições de milênios."
"A globalização é a invasão do capitalismo moderno e mais privatista.
Isso gera modificações na economia, nas administrações pública e privada
e na ética das negociações. Essa é uma das grandes conquistas desse
modelo."
"No Brasil, o barroco é sexy, principalmente na Bahia. Você entra em uma
igreja barroca e as santas estão lá, com aqueles peitões que mais
parecem a Feiticeira."
"Hoje em dia, somos praticamente masturbados pelas propagandas de
lingeries em outdoors."
"A bunda virou um instrumento de ascensão social. Nossas pobres meninas
românticas, pensando em amor e filhos, lutam por um lugar ao sol e são
obrigadas a rebolados cada vez mais desbragados (...). A bunda hoje é um
capital."
"Certos deputados querem fechar a imprensa. Desejam uma lei que os
defenda da opinião pública. Aí acaba a democracia."
"Brevemente, ouviremos a aeromoça falando: ‘senhores passageiros, em
caso de assalto, cairão automaticamente à sua frente coletes de aço e
capacetes protetores contra tiros. Coloquem, e depois tenham calma com
os ladrões. Não invadam a primeira classe, toda blindada e equipada com
kits de sobrevivência, com champanhe e caviar para seqüestros de longa
duração.’ O problema no Brasil é que os ladrões principais não viajam
armados. São todos bem vestidos e protegidos por nossas leis em vigor. E
já que a reforma do Judiciário não sai, o que nós precisamos é inventar
um raio X para Lalau, para gatunos de colarinho branco. Raios x para as
almas negras dos corruptos, principalmente no aeroporto de Brasília."
"O que está acontecendo no mundo, atualmente, é uma confusão danada: uma
história que não vem de hoje, vem de uns 1000 anos atrás, desde a
fundação da religião muçulmana. O Oriente é islâmico e o Ocidente é
cristão, ou seja, duas religiões monoteístas infalíveis - não há espaço
para duas verdades num mesmo mundo.O Ocidente visa ao progresso, à
mudança, já o pensamento oriental visa à eternidade, à fixação, ao mundo
imóvel. É a guerra da verdade contra a razão, da teologia contra a
democracia. Ninguém sabe o que vai acontecer. É feito doença que não tem
cura - essa guerra não tem solução."
Agradecimentos
Rede Globo de Televisão (Jornalismo)
Arnaldo Jabor
Rádio Globo
Jornal – O Globo
Site oficial de Arnaldo Jabor
Grupo Magno de Teatro
Obs – Esta entrevista não tem fins lucrativos, serve de consulta para os
alunos do colégio Magno, estudantes e internautas, conhecerem mais
Arnaldo Jabor, suas idéias e sua extensa obra cultural .
Próximas Entrevistas
Junho 2006 – Grupo Corpo de Dança, Débora Colker, o encontro que
aguardávamos, do Brasil para encantar o mundo, com sua nova concepção de
dança.
Setembro 2006
Lima Duarte ! Com muita história para contar !
Novembro 2006
Marcello Antony, sua vida, método de trabalho e um pouco de suas idéias.
Difícil será segurar as alunas (rs).
Gostou, né!
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