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A
maçã envenenada da Branca de Neve é tentadoramente vermelha. Como cheira o pão quentinho da Galinha Ruiva! Que medo
deve sentir o ratinho entre as garras do leão. O vestido de Cinderela brilha
como as estrelas... Histórias não são feitas apenas de palavras: têm peso, cor,
sabor, têm detalhes que não cabem nos limites do texto, mas são tão importantes
quanto as narrativas que vêm se repetindo há séculos.
Histórias são pontes; são laços entre o narrador e o ouvinte, entre o real e
o imaginário, entre o passado, o presente e o futuro; são elos que se constroem
e reconstroem entre seres humanos, em um processo sem fim.
Partir desse princípio não é apenas uma forma poética de realçar a
importância das narrativas fantásticas, das fábulas e de todas as histórias que
povoam o universo infantil. No projeto “Quem conta, reconta... faz de conta”,
que começa agora, queremos recuperar um olhar que se perdeu ao longo do tempo. |
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Normalmente, quando os adultos lêem as fábulas
ou mesmo quando tentam interpretá-las, sobressaem os aspectos “pedagógicos”
que estão na origem dessas narrativas.
Quando não existiam escolas, imprensa, quando os livros eram copiados à
mão e o mundo era ainda um enorme continente inexplorado, essas histórias
representavam um caminho para a educação de valores, posturas de vida,
costumes.
Esse é um dos motivos pelos quais as fábulas são maniqueístas e
moralistas. Falam do bem e do mal, do certo e do errado, do justo e do
injusto, da união e da desunião, do medo e da coragem. Tanto que não eram
dirigidas às crianças, mas especialmente aos adultos – daí o tom até
assustador que assumem nas versões originais.
Mas não faz sentido, nos tempos de hoje, tratar as histórias de fadas
como se fazia na Idade Média. Não é esse mundo cheio de certos e errados que
magnetiza as crianças (e os adultos). É, sim, a sua riqueza imaginativa, a
sua base de sonhos e de possibilidades que leva os humanos para muito além
de seu cotidiano. Quem não queria possuir uma bota de sete léguas, ou
encontrar príncipes encantados; quem não queria ter uma varinha de condão?
As histórias são catalisadores da imaginação sem fronteiras que
caracteriza a infância. Esse, sim, é o caminho a ser explorado em um projeto
pedagógico afinado com o século XXI.
Em um mundo marcado pelo lazer passivo da televisão, pela imobilidade
dos apartamentos, pelas ruas apinhadas de carros, as histórias de fadas são
um passaporte livre para o mundo da criança e para todos os processos
formativos típicos da idade – a formação da personalidade, a construção de
regras e valores, o desenvolvimento cognitivo, motor e socioemocional.
É aqui que entra a Escola.
Nosso papel não é o de inventar histórias, não é instrumentalizá-las
como itens do currículo, nem tornar obrigatório um prazer tão natural. Ao
contrário, nosso papel é mergulhar no fundo da fantasia, junto com as
crianças, construindo permanentemente paralelos com a vida de cada um.
Voltamos ao começo desse texto. As histórias têm cheiros, cores,
sabores, densidades. As histórias não são apenas processos mentais de
intelecção, mas uma fábrica de sentidos e experiências.
Vamos forçar um pouco a memória: quem de nós nunca quis saber o que ia
dentro da cesta de Chapeuzinho Vermelho? Pois então, vamos para a cozinha
preparar esses quitutes. Que tal passear na fazenda da Galinha Ruiva? Cada
momento, cada detalhe ganha uma leitura especial e diferenciada. Ou melhor,
a cada leitura, a história, como um prisma, ganha novas cores. Quem conta,
reconta... faz de conta.
O que as crianças aprenderão? Não há limites. Cada narrativa leva a
mundos diferentes, embora tenham um substrato comum. Daí a construção de
mapas contextuais para cada um dos 31 contos escolhidos.
Em cada um dos projetos, serão desenvolvidas ações pedagógicas em áreas
como:
- Atividades de música e educação física, vivências apresentadas nos
jogos dramáticos, que levarão os alunos a criar situações imaginárias e
encenações representativas;
- a exploração de todas as dimensões artísticas;
- o aprendizado e o exercício da língua oral e escrita, conforme a faixa
etária.
- a compreensão de conceitos nas áreas de Ciências e Matemática, entre
outras aprendizagens;
- o uso de diversos recursos. Alguns dos contos apresentados
favorecerão, também, o acesso a computadores e outros recursos tecnológicos;
- o trabalho com a linguagem e a comunicação. Os alunos possivelmente
irão se familiarizar com livros, filmes e situações que requerem o uso da
linguagem oral e escrita;
- atividades de exploração sensorial, todo o tempo.
Vivendo as histórias, convivendo com os personagens e suas aventuras,
seus sentimentos, as crianças serão convidadas para um aprendizado prazeroso
e significativo.
As histórias – como as selecionadas para o projeto – trazem saberes e
experiências acumuladas por várias gerações. Oferecem exemplos de modelos e
papéis que, desde a infância, facilitam nossa relação com o mundo. Levam-nos
a experimentar as emoções, a “treinar” posturas, a nos identificar com
personagens e situações, a sonhar coisas melhores do que temos e a perceber
que tudo também poderia ser pior.
Contos de fadas, histórias de bichos e fábulas são uma porta de entrada
para o mundo da fantasia, e, como podem ver, também uma porta de saída para
a vida real.
Por Myriam Tricate
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