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O QUE TODO PEDIATRA
DEVE SABER SOBRE
EDUCAÇÃO INFANTIL
Myriam Viegas Tricate*
Nos últimos anos – marcadamente nos últimos dois anos –, a Ciência trouxe à luz conhecimentos acerca do desenvolvimento do cérebro humano que provocaram muita expectativa não só da parte de biólogos, médicos e neurocientistas de diversas formações, como também dos educadores. Entre essas descobertas científicas, estão as chamadas Janelas de Oportunidades, períodos  em que o cérebro humano estaria mais apto para o aprendizado de determinados processos ou conhecimentos. Assim, revistas noticiosas internacionais, como Newsweek e Times, e nacionais, como Veja e Superinteressante, divulgaram informações surpreendentes, por exemplo, em relação à capacidade cerebral de reconhecer fonemas em uma língua não-materna,  principalmente dos 3 aos 9 anos, ou de estabelecer relações geométricas, em certas etapas da infância. Destacamos a expressão revistas noticiosas, logo acima, para indicar como o velocíssimo avanço do conhecimento científico tem reverberado fora das universidades, e também escolas mais modernas.para mostrar como a separação entre as diversas áreas do conhecimento vai ficando mais tênue. Nesse caso, os
cientistas estão avançando sobre uma área que, de uma forma teórica ou empírica, já fazia parte do cotidiano das escolas mais modernas.
Antes dessas revelações, muitas boas escolas já iniciavam trabalhos de sensibilização na Educação Infantil, apoiadas em teorias da aprendizagem formuladas nas últimas décadas. Justamente por esse motivo, as escolas que atendem crianças de 0 a 6 anos deixaram definitivamente para trás a imagem de um lugar de atendimento e recreação, para serem reconhecidas como um espaço de desenvolvimento integral. Aqui, a parceria entre especialistas de diversas áreas à qual já aludimos em artigo anterior (1) – vai se tornando cada vez mais necessária. Assim como os educadores não podem deixar de estar atualizados com o avanço científico, é importante que outros profissionais-pesquisadores diretamente envolvidos com o desenvolvimento infantil acompanhem um pouco da verdadeira revolução que acontece no mundo da Educação. O que faz uma criança na Educação Infantil? Quem tem filhos sabe o que é genérico e visível: as crianças brincam, desenham, pintam, têm contato com as primeiras letras, fazem pesquisas sobre alguns temas trabalhados em classe, realizam atividades manuais diversas, cantam, desenvolvem atividades sensoriais variadas e eventualmente participam de eventos em que os principais convidados são os pais.
Esse é o aspecto exterior de um trabalho imensuravelmente mais profundo e bastante relacionado ao universo dos pediatras.
As boas escolas de Educação Infantil trabalham, fundamentalmente, sobre o eixo do desenvolvimento cognitivo, psíquico, social e motor, ou seja, sobre os processos característicos dos primeiros anos de vida, em que se firmam aspectos que acompanharão o indivíduo por toda a vida.
Nessa fase, têm especial importância os traços emocionais, que tanto influem na relação entre crianças, famílias e médicos. Por isso, tudo, radicalmente tudo o que se 
faz em uma boa escola de Educação Infantil está permeado pela afetividade, pela confiança, pela certeza de que a relação criança-adulto deve ser conscientemente construída.
Este é o resumo de uma longa história que acontece minuto a minuto, hora a hora, dia a dia, no espaço escolar.
Dessa maneira, podemos voltar alguns parágrafos acima e começar a diferenciar as 
diversas atividades que listamos propositadamente ao acaso, como se fossem ações desconexas. Não são. Cada um dos trabalhos propostos tem coerência com um projeto pedagógico global.
Em primeiro lugar, o óbvio: em uma escola para crianças, as crianças brincam. Ponto. Esse é o princípio para o aprendizado infantil. Afinal, uma escola não é um programa de criação de gênios. É um espaço de crescimento humano, onde o lúdico é o início de 
tudo: representa a experimentação, o encontro do prazer, a busca dos limites, a descoberta do outro, o exercício da vitalidade física, a exploração do mundo concreto por meio do espaço da fantasia, para ficar no que é básico.
Por isso, o brincar – orientado, balizado – é o ponto de partida para  a estimulação do desenvolvimento harmônico, livre, não-competitivo.
Isso acontece em todos os momentos, como já dissemos. As crianças começam a criar hábitos de aprendizagem. Têm atividades em classe, aprendem a esperar sua vez, a dialogar, a se expressar, a realizar tarefas propostas. As "aulas" de forma alguma são expositivas. As professoras são chamadas “facilitadoras”, buscam a todo o tempo criar condições para que as crianças procurem e encontrem as informações 
que satisfaçam a sua necessidade natural de formular hipóteses sobre o mundo real. Daí nascem muitos dos projetos que são realizados, envolvendo as mais diversas atividades de estimulação. Outros são propostos pelos professores e encaminhados para onde mandar o interesse das crianças. Quanto maior a capacidade da escola de aproveitar essas situações em função dos aspectos a serem trabalhados, mais longe chegará o processo.
Um exemplo concreto vivido recentemente no Mágico de Oz pode ilustrar nossas reflexões e encerrar este convite que fazemos aos pediatras para visitas mais freqüentes ao universo da 
Educação. Um dos momentos mais comuns de encantamento demonstrado pela infinita curiosidade infantil está relacionado ao ciclo vital dos seres vivos – vegetais e animais. A flor que surge, as folhas que caem, o filhote do gatinho, uma vaca são acontecimentos deslumbrantes para uma criança.
Isto sempre foi o ponto de partida para inúmeras atividades no Mágico de Oz. A chegada da primavera, a visita a estações ecológicas, por exemplo, motivaram trabalhos em Artes, o surgimento de histórias, o contato com a escrita (na fase do letramento), festas e jogos.
Por isso, a Escola decidiu potencializar este trabalho e criou, em 1997, seu próprio Núcleo Ambiental, em um espaço contíguo ao da Educação Infantil. 
O Núcleo foi dotado de dezenas de animais e centenas de plantas. 
Entre os animais, aves (patos, marrecos, galinhas de várias espécies), uma minivaca, ovelhas e coelhos. Nas espécies vegetais, aquelas adequadas para a formação de uma horta, árvores frutíferas, flores, trepadeiras.
Núcleo Ambiental: as crianças aprendem noções de vida animal.

Nesse mesmo espaço, ainda foram incluídos um Ateliê, onde as crianças podem expressar pensamentos e emoções ali vividas; um pequeno museu vivo, onde rotativamente sepode observar a vida das minhocas, das abelhas e de 

outros seres vivos, e uma roda d'água, aparato simples, do qual apenas os mais velhos se recordam, mas que se presta a inúmeros projetos educativos.

Núcleo Ambiental: no cuidado 
das plantas, o interesse pela ecologia.

Roda d’água do
Núcleo Ambiental:
No espaço do Núcleo, dezenas de projetos são desenvolvidos continuamente. Vamos nos referir a apenas dois, a título de exemplo.
Quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha?
No início do semestre, nasceu uma ninhada de pintinhos no Núcleo Ambiental. E daí? Nada a fazer, sem a mão de um educador. Um universo, se a exploração for consciente, como aconteceu.

primórdios de Física
com objetos hoje
tão pouco 
conhecidos pelas
crianças.

Os pintinhos foram o mote de um projeto que envolveu o acompanhamento do seu ciclo de vida: as crianças periodicamente mediram e pesaram as aves, relataram as

A dinâmica da vida: acompanhar o crescimento
das aves pela noção de peso e medida.
descobertas para seus colegas, desenharam e participaram de atividades de leitura (em que não lêem, mas criam, interagem de diversas formas), entre outras.
Chegaram mesmo a participar de uma videoconferência entre as outras unidades do Mágico de Oz, na qual trocaram informações – de uma forma adequada à faixa etária, é bom lembrar.
O surgimento de novas vidas no Núcleo foi, também, um contraponto à morte de um marreco, ocorrida poucos meses antes. Assim como a vida, a noção da morte de um animal – de difícil entendimento para uma criança – também oferece uma valiosa abordagem educativa.
Tudo foi muito rico; porém, mais do que isso, as crianças se emocionaram, puderam dar vazão às emoções, aprenderam a dialogar, entenderam a necessidade de "medir", construíram uma noção precisa do significado do ciclo de vida e incorporaram conceitos de respeito à vida intraduzíveis em palavras.
Da lã ao casaquinho

Tosquia da ovelha do Núcleo
Ambiental.
 


Preparo da lã na sala de Artes

Em outro projeto, a mobilização foi em torno da tosquia da ovelha do Núcleo Ambiental.
As crianças acompanharam a tosquia, não por simples curiosidade (afinal, quando crianças paulistanas teriam a chance de ver uma tosquia?), mas para entender um processo cultural importantíssimo, que tem milhares de anos: a confecção de tecidos e, posteriormente, de roupas – que hoje todos têm à mão no shopping mais próximo.
De novo: não assistiram ao processo, apenas. Participaram de todas as suas fases.
Envolveram-se na paulatina 
transformação de um material exótico (a lã suja caída da ovelha) em fios, ensinados por uma tecelã profissional.
A precisão dos movimentos, a passagem de diversas fases, cada uma com uma função, a elaboração de um produto final, a compreensão da importância dos diversos seres vivos que tornam possível a existência humana – tudo isso nasceu desse projeto.
Naturalmente, pediatras não precisam conhecer os detalhes dessa operação intuitiva e 
científica, individual e social, concreta e mágica, que é a Educação. Gostaríamos apenas de convidá-los a saber que na Educação Infantil trabalha-se igualmente com o crescimento do corpo, das emoções e da mente das crianças, e que um campo pode alimentar-se do outro.

Sala de Artes do Colégio Magno.
De nossa parte, temos certeza de que nosso contato será cada vez mais intenso, pois o avanço da Ciência tem empurrado os cientistas ao trabalho interdisciplinar, os homens ao diálogo, e certamente também tornará mais estreita e profícua a parceria entre médicos e educadores, em benefício de nosso maior tesouro: o ser humano.



* Pedagoga, diretora do Colégio Magno/Mágico de Oz (São Paulo)

Endereço para contato: para quem tiver interesse em prosseguir este diálogo, a Unidade do Magno/Mágico de Oz onde se localiza o seu berçário, o Baby Oz, fica na Rua Olavo Bilac, 26 – Chácara Flora. O telefone para contato é (011) 522-1555/524-5460.
email: babyoz@colmagno.com.br

  Referência bibliográfica
1. TRICATE, M. V.  O berçário, a família e o pediatra: a parceria necessária. Sinopse de Pediatria 1998; 3:65-66.
 
 
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