Há muitas reflexões
importantes a fazer, quando se fala em Educação para a cidadania:
a inserção da escola na comunidade, a formação
de espíritos críticos, o envolvimento da escola em projetos
globais de transformação social.
Como ponto de partida, neste artigo, podemos
nos fixar em um desses aspectos, e a nosso ver um dos mais importantes:
a re-ligação da Escola ao mundo real.
Sim. Se deixarmos de lado, apenas para
efeito desta reflexão, todo o caráter humanitário
da solidariedade, o papel formativo da escola, as atitudes e valores das
crianças e jovens (já bastante conhecidos dos educadores),
ainda assim teremos um motivo fundamental para adotar a cidadania como
um eixo importante do trabalho escolar. Estamos falando da exigência
incontornável que o mundo contemporâneo faz à Escola:
a aproximação entre teorias e práticas, entre idéias
e realidades, entre o conhecimento e a existência real do estudante,
entre Educação e vida.
Sem dúvida, o trabalho sobre a
cidadania não é o único caminho, mas é uma
ótima via, por fazer, desde logo, sentido para o aluno. Apenas um
exemplo, colhido entre tantos: freqüentemente o racismo aparece na
sala de aula como algo distante. Ora, basta ligar a TV: que país
escandinavo é este que surge nas novelas e nos comerciais?
Façamos um discurso empolgado?
Não será necessário, se em vez de ficarmos no discurso,
tão comum quando o assunto é cidadania, formos buscar nas
aulas de Ciências as bases científicas para o não-racismo
(e aqui falamos de tantos temas da genética, da reprodução
humana...); localizarmos, na Geografia e na História, as perseguições
raciais (que não aconteceram apenas contra os negros); na Literatura,
os versos de Castro Alves, e assim por diante. Nesse caminho, ao recuperarmos
contextos históricos, ao ajudarmos a construir a visão do
aluno sobre o mundo de hoje, estamos fazendo a cidadania acontecer.
Isso não é um projeto distante.
O workshop As Diferenças que nos Tornam Semelhantes, realizado pelo
Programa das Escolas Associadas à Unesco (PEA), reuniu 42 experiências
concretas (como o próprio nome do evento diz) de situações
de sala de aula atrativas, práticas, em que os alunos aprenderam
temas do currículo, enquanto incorporavam posturas e valores transformadores
do mundo real. Ambiente, orientação sexual, prevenção
às drogas, direitos humanos, ética - todos estes temas encontraram
abrigo em projetos interdisciplinares ao mesmo tempo simples e eficientes.
Socializar estas experiências -
que não são receitas prontas, mas olhares diferentes para
um mesmo objeto - foi uma de nossas principais preocupações
quando idealizamos este encontro, que trouxe educadores de muitos Estados,
como Pará, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais, vindo de
escolas públicas e particulares.
Por outro lado, procuramos também
oferecer mais informações sobre a alternativa proposta pelo
Programa das Escolas Associadas da Unesco, que está aberto a qualquer
instituição de ensino interessada em abrir espaço
para a cidadania. A única condição é a apresentação
de um projeto de trabalho a uma das coordenações do PEA,
dentro de certos parâmetros. O PEA tem a coordenação
nacional no Rio de Janeiro (021- 401-9407) e em outros Estados, como São
Paulo (011-524-5460).
O PEA foi criado em 1953, e existe em
130 países. No Brasil, foi praticamente reativado em 1996, e desde
então cresce progressivamente.
Os associados podem participar com bastante
freqüência de concursos internacionais promovidos pela Unesco,
recebem materiais informativos, tem a chance de desenvolver projetos entre
escolas brasileiras e de outros países e de participar de eventos
como os que aconteceram em 98 - o encontro Crescendo sem Fronteiras, realizado
no Rio de Janeiro, e o workshop As diferenças que nos tornam semelhantes
- experiências concretas de Educação para a cidadania,
realizado em São Paulo.
Este organismo funciona, assim, como um
catalisador de ações e um meio de comunicação
entre escolas de muitos países. Nesse sentido, possui um forte caráter
de globalização, outra realidade que temos de compreender
e transformar na Educação, outra face da Educação
que se encaixa perfeitamente no eixo da cidadania. Não é
mais uma questão de escolha. É um imperativo da Educação
moderna. Vamos lá?
Myriam Tricate é diretora
do Colégio Magno, em São Paulo, e coordenadora regional do
Programa das Escolas Associadas da Unesco.
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