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BOLETIM DE NOTÍCIAS DO COLÉGIO MAGNO/MÁGICO
DE OZ
Teatro
Grupo Magno de Teatro entrevista com exclusividade o ator Wagner Moura
O Grupo Magno de Teatro entrevistou o ator
Wagner Moura, que está em cartaz no teatro com a adaptação de Hamlet, de
William Shakespeare. Neste bate-papo exclusivo, Moura fala sobre sua
carreira: novelas, teatro, cinema e projetos para o futuro.
Grupo Magno de Teatro - No filme "Cidade Baixa" [2005], em que seu
personagem e o de Lázaro Ramos disputam violentamente a mesma mulher, vocês
chegaram a pôr a amizade à prova?
Wagner Moura - [A preparadora de elenco] Fátima [Toledo] tentou fazer
isso, mas, sinceramente, ela não conseguiu. Ela achava que, para haver o
conflito dos personagens Naldinho e Deco, precisava desestabilizar a nossa
relação. Ela tentou muito, com exercícios, fazer com que a gente se
agredisse, se odiasse. Foi muito cansativo porque a gente se ama. Por outro
lado, o que ela conseguiu, que não ficou explícito nos exercícios, foi fazer
com que "Cidade Baixa" fosse uma grande revisão da minha amizade com Lázaro.
Quando acabou "Sexo Frágil", a gente foi fazer o filme e comecei a perceber
que a nossa amizade estava muito no piloto automático. A gente chegou a
conversar no hotel sobre a nossa história, que foi mudando com o tempo.
Fomos crescendo, nos tornamos pessoas diferentes. Sempre tive Lázaro [27
anos] como o irmão mais novo. Eu era o mais velho, quando Lázaro é um homem
de uma maturidade que eu não tenho. O maluco sou eu. Ele é centrado,
organizado. Quando comecei a entender isso, foi difícil para mim. Era um
pouco como ele se libertando. E acho que isso se deu em "Cidade Baixa", e a
Fátima tem mérito nisso.
GMT - Vocês se conheceram no teatro, em Salvador, ou antes?
Moura - No teatro. Eu já era ator e trabalhava muito e fui ver uma
peça que ele fazia, aos 16 anos, começando no Bando de Teatro Olodum. Fiquei
impressionado com ele. Fui ao camarim e disse exatamente essa frase: "Quero
ser seu amigo".
GMT - E o que ele respondeu?
Moura - "Então vamos ser amigos!" Aí ficamos amigos.
GMT- Lázaro, que você considerava o "irmão menor", virou antes o
queridinho da Globo. Agora é a sua vez. Isso te incomoda?
Moura - Lázaro é uma das poucas pessoas que eu amo incondicionalmente
[risos].
GMT - O que pergunto é se te incomoda ser o queridinho da Globo.
Moura - Eu?! Eu sou queridinho de nada, menina!
GMT - Dirigir um filme está nos seus planos?
Moura - Esse trabalho com os depoimentos pode virar um vídeo, um
documentário, um filme. Comprei uma câmera que dá para experimentar coisas
legais. Agora está muito mais acessível fazer um curtinha [curta-metragem].
Tenho planos de dirigir, mas naturalmente o meu caminho como diretor tem que
começar pelo teatro, que é o que sei fazer melhor, onde comecei, onde tenho
mais idéias, planos, pessoas com quem quero trabalhar. No cinema, estou
engatinhando, e a câmera vai me ajudar a ter uma familiaridade. Sempre fiz
as coisas dos outros. Está na hora de fazer um pouco as minhas.
GMT - Na preparação da peça "A Máquina" [2000], você se mudou para o
Recife para ensaiar e morou com o elenco e o diretor. Era uma
disponibilidade total ao trabalho?
Moura - Total. Que época boa! Todo mundo amigo, todo mundo querendo
fazer aquilo. Eu já estava num momento em que queria sair de Salvador,
trabalhar com outras pessoas, ver como era o teatro em outros lugares. Outro
dia estava me lembrando que, em 1996, eu e Vladimir [Brichta] fizemos uma
peça com José Possi Neto, em Salvador. Eu estava quase desistindo de fazer
teatro. Achava que ia ser jornalista mesmo, que o teatro não ia dar certo.
Ele fez um teste para a peça e eu não quis fazer. Aí os atores saíram, ele
me chamou para ser testado. Fiz uma leitura. Ele gostou da leitura e disse:
"Quero que você faça a minha peça". Eu saí correndo da escola de teatro até
minha casa, na chuva. Outro dia fiquei com saudade dessa sensação que acho
que perdi um pouco. A época de A Máquina tinha um pouco isso. Tanto que, de
vez em quando, vem essa idéia de voltar com "A Máquina". Eu sou sempre o
cara que é contra, acho que nós não somos mais aqueles caras que fizeram
aquela peça. A gente era aquele cara, queria conhecer o mundo, mostrar o
mundo para a menina que amava. A peça hoje não ia ter mais sentido com esse
elenco.
GMT- Você não voltou a ter essa sensação da chuva nem quando foi
convidado para ser o vilão de Gilberto Braga, o criador de Odete Roitman?
Moura - É diferente. É uma coisa boa também, mas todo mundo cresce.
Não tomo desilusão com o trabalho. Cresci e fui vendo que aquele era um
entusiasmo de jovem.
GMT - O Antônio [protagonista de "A Máquina"] diz: "Você quer o
mundo, vou buscar para você". Ao amadurecer, acha que não dá mais para ser
esse herói porque não acredita que pode buscar o mundo ou porque pensa que,
mesmo que busque, o amor pode não dar certo?
Moura - É porque a gente não tem mais a inocência que esse homem
tinha. O mundo já corrompeu um pouco a gente.
GMT - Você fez jornalismo com o ideal de mudar o mundo. Essa
experiência te decepcionou? Ou passou a acreditar que seria mais fácil mudar
o mundo trabalhando como ator?
Moura - Hoje em dia estou tentando me mudar [risos]. É mais fácil
começar por mim, para ver se depois, quando amadurecer, vou pensar no mundo.
E a cada dia tenho mais a consciência de que meu trabalho no teatro faz eu
me entender melhor, por que faço isso, por que sou ator. Não passa por uma
coisa social, mas por dentro de mim. Quando você faz teatro, estabelece uma
ligação com uma coisa que não sabe dizer direito o que é. Em última
instância, é com Deus, sei lá o quê. Para mim, o teatro parece muito com
religião, o ritual, o fato de repetir aquelas palavras. Isso te religa com
algo sagrado, com você mesmo, porque Deus é você, você é Deus, essa mistura
toda.
GMT - É por essa relação que você diz que se sente um ator mais
inteligente no teatro?
Moura - Eu acho que fico mais inteligente quando faço teatro. Quando
comecei a fazer teatro, em Salvador, as pessoas só faziam teatro. Quando vim
para o Rio é que conheci pessoas que começaram a ser atores fazendo outras
coisas. Quando comecei a gente aprendia que teatro é uma coisa de grupo, que
você tem que fazer tudo, varrer o palco, cuidar do seu figurino, que o
teatro é um templo, o palco é sagrado. Tem uma relação com esse lugar que
não tenho em lugar nenhum. Por isso, quando faço teatro, eu me sinto pleno e
fico melhor para fazer cinema e televisão.
GMT - Quando pensou em largar o teatro "porque não ia dar certo", o
que exatamente imaginava? Que nunca chegaria à novela das oito?
Moura - Juro por Deus que a novela das oito nunca foi meu foco. De
coração. É que não estava rolando. Tinha feito uma peça infantil, que
acabou. Não estava com tesão de fazer as coisas que estavam rolando. E
gostava de trabalhar como jornalista, estava dividido à beça.
GMT - Como foi a sua carreira como jornalista?
Moura - Foi um lampejo. Trabalhei no [diário] "Correio da Bahia",
fazendo o roteiro de programação de TV e cinema, depois em uma coluna social
televisiva. Era um programa que existe até hoje, o "Michelle Marie".
Entrevistava as pessoas da sociedade. Depois montei uma assessoria de
imprensa, com uns colegas de faculdade, para trabalhar com projetos
culturais. Só que os clientes geralmente eram meus amigos e não me pagavam.
GMT - Quanto tempo trabalhou no programa "Michelle Marie"?
Moura - Nem sei. Acho que um ano e pouco.
GMT - Quem entrevistou?
Moura - Entrevistava todos os artistas da Globo que iam passar o
Carnaval em Salvador.
GMT - Dá um exemplo.
Moura - Todos. Eram sempre as mesmas perguntas: "O que você está
achando da Bahia?" "Fale um pouco sobre Salvador." "Qual é a sua relação com
o Carnaval?" As pessoas diziam: "Tô amando. Essa Bahia é linda, um axé
maravilhoso!"
GMT - Agora, quando está em festas e os jornalistas chegam com essas
perguntas, o que responde?
Moura - "Esse axé, essa luz, essa energia, essa cidade!" [risos]
GMT - Você concorda com a expressão "axé acting", usada depois do
sucesso de "A Máquina" para definir seu estilo de interpretação?
Moura - Foi Cacá [Diegues] que cunhou essa expressão. Eu boto muita
energia nas coisas. Quando fiz "Deus é Brasileiro" [de Diegues], dei sorte,
porque era um personagem por si só extravagante, pícaro. Se fosse fazer
outro filme, que exigisse uma economia, estaria perdido, porque não sabia
fazer. Não sabia mesmo. Mas aprendi muito com cinema. Fiz muitos filmes de
"Deus é Brasileiro" para cá, e fui burilando essa relação com a
interpretação para cinema. Mas o "axé acting" tem algo que procuro conservar
que é uma coisa selvagem, de não se deixar enquadrar em um tipo de
interpretação. A técnica existe para lapidar o que você faz. Não para te
dizer como é. Como nunca tive aula de nada, tinha essa coisa selvagem. Fui
ganhando técnica conforme ia fazendo os trabalhos, mas nunca deixei a
técnica dominar o que acho fundamental, que é a luz, o fogo, a maluquice.
GMT - Ouvimos que, nas gravações de "Deus é Brasileiro", Antonio
Fagundes se aborreceu algumas vezes com seu pendor para o improviso.
Contracenar com um ator famoso como ele chegou a te intimidar?
Moura - Quando comecei a fazer "Deus é Brasileiro", sabia que Taoca
era um personagem muito bom e, sinceramente, sabia que podia fazê-lo bem.
Era uma coisa que tinha vivido muito, conhecia o jeito daquele personagem.
Mas o meu trabalho não teria sido tão elogiado e legal se não fosse
Fagundes. Fagundes é o cara de quem sinto falta. Ele se tornou meu amigo
quando acabou "Deus é Brasileiro". A primeira coisa que fiz na TV foi ele
que me levou, "Carga Pesada". Perguntava absolutamente tudo para Fagundes. A
relação foi de quem sabe para quem não sabe nada, com toda a generosidade
possível. Esse travo nunca aconteceu. E, se você for ver, ele levanta a
minha bola o tempo inteiro.
GMT - Você se sente à vontade com o atual modo de produção do cinema
brasileiro, baseado em leis de renúncia fiscal?
Moura - Sem esse sistema não existiria cinema. As leis de incentivo
são fundamentais. Se acabarem, acaba o cinema.
GMT - Você não tem contrato fixo com a Globo. Nem pretende?
Moura - Pois é. Não sei. Tenho conversado com as pessoas. Tenho
receio de parecer picareta, de fazer um contrato de não sei quanto tempo e
ficar recusando os papéis. Não vou me sentir bem de estar sendo pago sem
trabalhar. Mas estou revendo um pouco isso. Porque, quando você está
trabalhando, tem o salário fixo e um plus. A primeira vez que eles me
chamaram a conversar sobre isso, foram super legais. Tenho uma relação ótima
com a Globo. As pessoas me assustaram muito em relação à televisão. E eu só
fiz coisas legais. Só conheci pessoas legais. Só trabalhei com gente do bem.
Nunca aconteceu nada baixo astral comigo na televisão. Mas me interessa ter
uma vida fora da televisão. A minha vida como ator não vai ser nunca
restrita à televisão, como não será ao cinema, talvez.
GMT - Você pode então assinar contrato fixo até o fim da novela?
Moura - Não sei...
GMT - Perguntou ao Rodrigo Santoro como ele resolveu isso?
Moura - Não. Rodrigo Santoro é outro patamar.
GMT - Você falou do incômodo de receber sem trabalhar. Você é um
baiano de educação protestante?
Moura - Não. Sempre teve muita gente religiosa perto de mim. Minha
avó era muito católica, meus pais são espíritas, eu me envolvi bastante com
o candomblé na Bahia, uma religião bonita à beça. Gosto de religião. Hoje em
dia estou começando a gostar de ciência também, que é uma espécie de
religião, outra forma de buscar o que você não entende. Se Deus for o
mistério, a ciência é também uma forma de buscar Deus. Mas o protestantismo
nunca fez parte da minha vida.
GMT - Se você pudesse desejar uma única coisa para o seu filho [Ben,
10 meses], o que seria?
Moura - Paz de espírito. Que ele viva em paz, com ele e com o mundo.
GMT - Pretende ter mais filhos?
Moura - Sim. As famílias do meu pai e da minha mãe são numerosas.
Acho bonito ter família grande. Hoje em dia é difícil ter um montão de
filhos, mas, se pudesse, enchia o mundo.
GMT - Nesse projeto de muitos filhos, sua mulher está do seu lado?
Moura - Ela cola comigo. Estamos juntos.
GMT - Que ator viu em cena e pensou: "Quero ser assim"?
Moura - Pedro Cardoso. Eu vi "O Vau da Sarapalha", espetáculo do Luiz
Carlos Vasconcellos, quando eu era do Grupo Piolim. Essa peça me mudou.
Fiquei louco. Fiquei sem conseguir levantar da cadeira. Teatro
antropológico, atores que passaram não sei quanto tempo numa fazenda. Fiz
uma oficina com Luiz Carlos [Vasconcellos] em Salvador, que foi fundamental
para mim, para minha relação com o meu corpo. Como não tinha uma formação
[em arte dramática], ia fazendo as coisas sem saber e chegou na minha mão um
livro de Eugênio Kusnet sobre o método de Stanislaviski. Li e falei: "É
isso!". Então, tudo o que eu fazia era psicológico. Psicologizava tudo. Luiz
Carlos me apresentou [as teorias e técnicas de Eugênio] Barba, [Antonin]
Artaud, [Jerzy] Grotowski, o teatro físico. Aí fiquei maluco. Agora, sou fã
de Pedro Cardoso, que é outra praia.
GMT – Mas Pedro Cardoso não faz sempre o papel de Pedro Cardoso?
Moura – Mas é genial. Ninguém faz Pedro Cardoso melhor que ele. Eu
imito Pedro Cardoso. Quando fazia [o seriado da Globo] “Sexo Frágil” meu
trabalho era uma imitação grotesca de Pedro Cardoso. Eu era louco por “Sexo
Frágil”. Lamento até hoje ter acabado.
GMT - Por que acabou?
Moura - Não sei. Acho que não interessou mais.
GMT - Essa televisão com programas de Guel Arraes, a chamada "TV de
autor", te atrai mais do que a dos mocinhos e vilões das novelas?
Moura - É diferente. Os trabalhos de Guel são sempre inovadores. Mas
ele só pôde fazê-los porque a Globo tem as novelas.
GMT - A novela é um mal necessário?
Moura - Não. É que a novela dá o sustento. Tenho certeza de que se a
novela não tivesse a audiência que tem, Guel não poderia ter brincado com as
coisas, com a liberdade que teve. E a novela é um gênero que é um barato
fazer, que é o folhetim. É uma brincadeira boa danada. E as coisas que fiz
em novela são pilares da dramaturgia folhetinesca, o mocinho e vilão. Por
isso não sei o que mais eu vou fazer.
GMT - Não poderia fazer outro mocinho e outro vilão?
Moura - Não sei. Se for um mocinho e um vilão interessante,
diferente... Quando terminei [a minissérie] "JK", eu me imaginava fazendo
esse vilão. Eu gosto do que pode me desafiar.
GMT - Mesmo o mocinho de "A Lua me Disse" te desafiou?
Moura - Foi maravilhoso. Quem ia pensar que eu ia fazer um mocinho da
televisão?
GMT - Por que não?
Moura - Eu nunca fui galã de nada, era um cara da Bahia, um maluco.
"Você quer fazer um galã?" É agora, na hora! Pô, demorou. Mas deixa eu
responder direito essa coisa da televisão. É que eu não consigo pensar onde
vou me enquadrar em uma nova novela. O mocinho eu não vou fazer mais, não
sou essa cara [risos]. Ah, tem ainda o cara engraçado ou uma mulher. Eu
gostaria que fosse uma coisa surpreendente.
GMT - Por que Olavo se apaixonou por Bebel?
Moura - Acho que a gente deu uma forçada de barra na paixão. Não era
para ser isso, e o [autor da novela] Gilberto [Braga] comprou. Eu dizia para
a Camila: "A gente faz o que ele [Braga] quer, mas vamos fazer esse negócio
render [risos]." Aí, pronto, ele ficou apaixonado. E é um contraste
espetacular esse cara apaixonado pela prostituta. É a melhor coisa que podia
acontecer nessa história.
GMT - Nada disso estava antes previsto na sinopse da novela?
Moura - Estava previsto os personagens se encontrarem e terem uma
relação. Existia uma relação sexual forte, de tesão. Acho que era mais por
aí.
GMT - A paixão do casal Olavo e Bebel ajudou a levantar o ibope?
Moura - Não. Isso é mérito do Gilberto, que movimentou mais a trama.
Não sei se estava previsto, mas achei sensacional ele ter dado mais força ao
personagem do Fábio [Assunção], o Daniel. Achava que ele estava guardando um
pouco o embate entre Daniel e Olavo, que o Olavo estava um pouco brigando
sozinho.
Depois que o Daniel descobriu tudo, ficou muito mais legal. Adoro fazer as
cenas com Fabinho. Outro dia saímos na porrada. Eu adorei. Você viu essa
cena? Que cena boa! Só em novela dá para fazer essas coisas.
GMT - Apesar do papel de mocinho em "A Lua me Disse", é agora, como o
vilão Olavo, que você foi percebido pelo público como galã.
Moura - Será?
GMT - Você não percebe isso?
Moura - Não percebo. Percebia quando fazia "A Lua me Disse". Sabia
que o personagem estava agradando às mulheres, principalmente às mais
velhas. Agora não, inclusive porque acho o Olavo feio, triste.
GMT - Perto da Camila Pitanga ele não fica mais interessante?
Moura - Perto da Camila Pitanga tudo fica mais interessante [risos].
A história com o personagem dela foi muito boa, porque foi uma válvula de
escape do Olavo, que é duro, introspectivo, ardiloso, invejoso. Com a Bebel,
estou podendo mostrar um outro lado dele, até de humor. Deu uma quebrada.
Aquele cara posudo se apaixona por uma mulher da vida.
GMT - O que você consertou no Olavo com o passar dos capítulos?
Moura - No começo foi muito difícil, porque estava fazendo a novela
junto com o filme do Guel [Arraes, "Romance", inédito] e tinha acabado de
fazer "Tropa de Elite" [longa-metragem de José Padilha, com estréia prevista
para outubro]. Comecei a novela por cenas difíceis, eu com o Chico Diaz
[Jader] tramando. Vendo, depois, fiquei achando que precisava de um
contraste para aquela dureza. A história com a Bebel foi muito boa para mim.
GMT - Em relação à sua adolescência, você andou dizendo em
entrevistas que era um OVNI (Objeto Voador Não Identificado)...
Moura - [Interrompendo] Pois é. A minha mulher [a fotógrafa Sandra
Delgado] me disse: "Não agüento mais você falando isso! Que saco!" (risos)
GMT - Foi algo sério em sua vida?
Moura - Não. Como cheguei do interior e fui morar em Salvador, na
minha rua não tinha gente da minha idade, não me acostumei na escola em que
fui estudar. Eu conto isso para falar de como o teatro foi importante para
mim. Quando comecei a fazer teatro, conheci pessoas que tinham mais a ver
comigo, comecei a ver o mundo de um modo diferente.
GMT - Você era de origem pobre e foi estudar em um colégio de elite?
Moura - A gente sempre foi duro à beça. O propósito do meu pai era
nos levar [ele e a irmã] para uma escola melhor em Salvador. Sei o quanto
foi difícil para ele pagar uma escola particular. Estudava muito, porque
sabia o esforço que meu pai estava fazendo. Nunca fiz recuperação. Não podia
fazer. A minha onda era estudar. Mas não conseguia interagir bem, até
começar no teatro.
GMT- Você voltou a se sentir excluído em outros momentos, quando
entrou na Globo, por exemplo? Ou já estava enturmado?
Moura - Acho que eu me enturmei [risos].
GMT - Por que você prefere fazer teatro em São Paulo?
Moura - Essa peça que fiz, "Dilúvio em Tempos de Seca" [direção de
Aderbal Freire-Filho], ficou num nicho de teatro alternativo aqui no Rio.
Quando a gente foi para São Paulo, a peça gerou um interesse que aqui não
tinha, do público, da imprensa. A peça mudou, ficou melhor. Acho que São
Paulo, até talvez por não ter uma influência tão grande da televisão, tem
mais gente que vive de teatro, que só faz teatro. E São Paulo tem mais
dinheiro, tem mais salas. Mas existe um movimento de teatro muito legal no
Rio, a nova dramaturgia.
GMT - No Rio, a proximidade com a Globo prejudica o teatro?
Moura - Não é que prejudica. É que, por exemplo, muitos atores do
Nordeste vêm morar aqui porque querem trabalhar na Globo. Então a Globo vira
um objetivo, que é natural, porque é fundamental. Ai de nós, atores, se não
existisse a TV Globo. E agora é fundamental também a concorrência da Record.
Quanto mais, melhor. É emprego para a galera. A televisão tem uma estrutura
financeira que nenhum outro lugar tem. O cinema não tem. O teatro, muito
menos. Então aqui é um pouco a meca dos atores. [pausa] Ah, vamos falar de
"Saneamento Básico"?
GMT - O que você quer falar? (risos)
Moura - Ah, Ximena, faz uma pergunta aí [risos].
GMT - Então tá. Como foi trabalhar com Jorge Furtado [diretor de "O
Homem que Copiava", "Meu Tio Matou um Cara" e outros]?
Moura - Pô, vou falar então. Eu quero um contrato vitalício com a
Casa de Cinema de Porto Alegre [produtora de Furtado].
GMT - Já sei a pergunta. Lázaro Ramos é o ator fetiche de Furtado.
Você foi convidado ou se convidou para esse filme?
Moura - Como Lázaro é muito amigo dele, eu vivia encontrando com ele.
Até que fizemos um negócio muito legal na TV, o programa "Cena Aberta"
[Globo]. E sempre dizia que queria trabalhar com ele no cinema. Foi bom
demais. Parece que é na Bahia, só que na Bahia é pilhado e lá é tranqüilo.
Eles trabalham juntos há anos, parece uma família, e o trabalho flui.
GMT - E já que você é jornalista e está até sugerindo perguntas para
esta entrevista [risos], o que pensa a respeito da imprensa brasileira?
Moura - A imprensa é isso mesmo, gente. Acho que tem cumprido um
papel importante como pilar da democracia. Essa história que aconteceu na
Venezuela é um absurdo. É uma loucura o cara fechar uma rede de televisão. É
um precedente perigoso na América Latina, que tem tendências a ditaduras,
tanto de direita como de esquerda. O Chavez está totalmente fora do eixo, e
a gente tem uma condescendência com ditadores de esquerda, o que é errado.
GMT - Continua a favor de Lula?
Moura – Pô, Sérgio ...Cara, vou te falar, acho que Lula... [pausa] Eu
tenho uma admiração grande pelo cara. Ele tem feito muita coisa legal. E eu
ainda acredito na esquerda, não na boba, utópica, mas em um Estado
intervencionista. Acho o liberalismo uma coisa perigosa. Deixar as coisas
andarem nas mãos da iniciativa privada é perigoso. O Estado tem que ter
poder. Se o Estado não cuidar da gente, não vai ser a IBM que vai cuidar.
GMT - Então concorda com a portaria de classificação [o governo diz
para que idade os programas de TV são indicados e em que horário deve ir ao
ar]?
Moura - Aí é uma questão. É legal a informação, dizer ao
telespectador para que idade os programas são indicados. Mas, se sou a favor
do intervencionismo, sou muito mais da democracia e da liberdade de
expressão. Querer obrigar uma empresa privada a mudar um horário é um
exagero sem necessidade, uma espécie de censura. Vou dizer outra coisa
polêmica. A TV não tem que educar ninguém, não tem que cumprir esse papel.
As pessoas esperam que a TV, por ser uma concessão pública, seja educadora.
Mas é entretenimento. E aí se o movimento negro se sentir atingido com a
cena, as mulheres, os homossexuais, têm todo o direito de entrar na Justiça.
Mas cercear a criação de um autor é desnecessário.
GMT - Wagner, para encerrar, agradecemos sua participação nesta
entrevista, saiba que admirávamos seu trabalho, agora também admiramos ainda
mais o artista e você que foi extremamente educado, paciente e gentil
conosco e os alunos do Grupo Magno de Teatro. Parabéns !!
Moura – Sérgio, Ximena e todos os alunos de teatro do Colégio Magno,
grande prazer tê-los como público. Satisfeitos e entendedores de um ótimo
trabalho teatral. Bela abordagem de todos vocês.
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